23.9.16

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Foto: Clock - Gerd Altmann

 

Logo à nascença, é-nos atribuído como companheiro de vida-toda, uma figurinha estranha, um diabinho muito peculiar - meio volátil, meio volúvel, meio sombra, meio raio (-que-o-leve).

Enquanto pequeninos, limitamo-nos a brincar com ele, inocentemente, e deixar que alguém o domine por nós. Depois, aos poucos, mais cedo ou mais tarde, queremos tomar-lhe as rédeas. Com mais ou menos conflitos e tropeções, todos temos pressa de ser amos do nosso próprio Tempo - sofregamente, sem gastar nem um minutinho precioso a aprender a compreendê-lo e a ouvir os conselhos de quem já aprendeu a respeitá-lo, ou de quem o aprisiona cruelmente no sótão, cheio de mofo e bolor... Nem sei se "Gestão do Tempo" consta dos currículos académicos da Vida. Talvez não, ou talvez ninguém esteja interessado. Talvez o Tempo não seja uma coisa com a qual se aprenda a lidar, por ser tão volátil e temperamental. Ele é matreiro, escapa-se-nos entre os dedos, brinca às escondidas nos ponteiros dos relógios (vã tentativa humana de o domesticar!), disfarça-se de Dia e de Noite, finta-nos com os enganadores recomeços - do ano, das estações, das fases com faces novas. Como podemos dar-lhe palavra de ordem, fazê-lo esperar, dizer-lhe que corra, quando temos pressa, mandá-lo ter paciência, quando temos preguiça, enfim, decidir da sua sorte em nosso favor, já que temos que arcar com ele agarrado a nós? Isso deve ser ciência para mentes muito evoluídas e organizadas e divididas em compartimentos estanques, para não haver possíveis perdas de tempo. Não para a minha, com certeza. Refrear o Tempo, acompanhá-lo a compasso ou mantê-lo escrupulosamente aparado, nunca foi a minha arte.

 

Jogá-lo, jogar com ele, sim, é o meu passatempo predileto. E a culpa nem é de quem me deu as lições, não. A minha fada-madrinha bem me dizia: “Não guardes para amanhã o que podes fazer hoje!” - que é como quem diz: “Tem sempre (o) tempo à mão para qualquer percalço, previne-te contra atrasos no cumprimento dos deveres que tens com ele, paga-lhe todos os segundos com honra, não regateies com ele o teu futuro, foge à tentação de correres à frente dele, ou, principalmente, de ficares para trás!”. Toda a culpa é só minha, mesmo! Ou então, da qualidade do Tempo que me foi atribuída à nascença...

Se calhar calhou-me por fado um Tempo de fraca qualidade, não sei; um Tempo espírito de contradição, um Tempo demasiado diabrete, ou um Tempo apressadinho, que ninguém quis! O certo é que nunca tive uma relação muito equilibrada e salutar com esse fulano!

E então... pronto, confesso, fui caindo na cilada da rezinguice e teimosia e passei, desde muito cedo, a irritá-lo, a desafiá-lo, a esconder-me dele nos vagares e a correr atrás dele nas urgências. Dá-me um prazer fininho, sei lá, esticar a corda, esticar, esticar... e depois, quando o relógio dele fica sem corda, largá-la de repente. Pim! Jogo tudo, nessas pressas: o meu talento, o meu esforço, o meu sangue e a minha honra. É estimulante, que querem? Saber que está tudo em jogo e que eu consigo vencer o próprio Tempo. É vertiginosa a sensação de fio da navalha a passar-me a micromilímetros do sucesso. É inspirador. É excitante. É gratificante. E arriscado.

Pois. Confesso. Sou viciada – jogo alto. E às vezes até peço emprestado. Endivido-me. Sei que não devo, mas devo. Devo muito à minha maior credora, a minha Vida. Mas quero pagar tudo, tudinho, isso quero. E, acreditem, o que, muitas vezes, me mantém viva é essa determinação, a de não morrer sem pagar à vida todas as minhas dívidas.

E vou esperando ouvir o “croupier” dizer: “Faites vos jeux!”. E vou ganhando tempo ao Tempo.

 

Teresa Teixeira

 

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19.9.16

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Foto: Argument – Ryan McGuire

 

Segundo a tradição oriental, a garganta representa o Centro da Verdade e quem fala sempre a verdade acaba por desenvolver a capacidade de materializar aquilo que diz.

Porém, por medo, a maior parte de nós não é verdadeiro. Por alguma razão, geralmente é o MEDO, entramos num jogo deveras interessante para os psicólogos e sociólogos e outros que tais, mas profundamente doentio para o self. O jogo de que falo é o Jogo da Manipulação. As regras parecem simples e a piada do jogo é que os trunfos de que dispomos têm que ser jogados com subtileza. No fundo todos sabemos que é um jogo, quais são os trunfos e esquemas de cada um, mas fazer de conta que não sabemos e que não jogamos torna tudo mais grupal. Então eis as regras:

. Criticar: esta parte do jogo é a que consiste em desfazer os outros em mil pedaços. Falar mal, acusar, manipular parece a técnica perfeita para quem se sente inferior aos outros. Parece resultar porque enquanto desviamos a atenção de todas as outras pessoas para aquele que estamos a criticar, ninguém repara nos nossos defeitos. O facto de aqueles que acusamos serem o espelho dos nossos problemas não interessa para nada. O que interessa é jogar o jogo e quanto mais perfeito se é.

. Mentir: é muito mais fácil gostar de nós segundo aquilo que desejamos e esconder dos outros o que não é interessante. É como um pequeno teatro no qual somos simultaneamente realizadores, atores, assistentes de produção, etc.. Cansativo, mas vale a pena. Se os outros acharem que somos perfeitos, então é porque somos. Ah, e se não estiver a resultar totalmente, podemos sempre usar outra estratégia do jogo – culpar o outro. Pode ser a mãe, o pai, a professora primária, o vizinho. Qualquer um, desde que não tenhamos que ser os responsáveis pelas nossas escolhas.

. Discutir: esta regra é bastante usada. Parece estar entre as favoritas do Jogo. Consiste em espalhar aos quatro ventos o nosso humor cáustico. E, de preferência, aproveitar todas as oportunidades para atacar uma pessoa ou situação. Lá porque se perde imensa energia e tempo com este procedimento, não interessa. O importante é que discutir é uma razão para a pessoa se sentir viva e disfarça muito bem o quanto estamos zangados connosco. Portanto vale ou não o esforço?

. Amuar: é uma regra que é prima da agressividade. A diferença é que é uma agressividade disfarçada, perfeita para quem quer ser perfeito! Afinal é muito mais fácil ficar à espera que alguém adivinhe o que nos perturba. E se ninguém adivinhar, o que é incrível, depois de todos os sinais que achamos que deixamos, então isolámo-nos, calamo-nos, a ver se resulta. Sabotar a necessidade de intimidade é altamente eficaz no jogo da manipulação. Que o digam as crianças.

 

Estas são as principais Regras do Jogo.

E que atire a primeira pedra aquele que nunca o jogou. Pois, o problema é que é um Jogo Doente.

Por hoje, só por Hoje, esteja atento a si mesmo. Sinta-se. E pare cada vez que sentir que vai Jogar. Se quer um Jogo mais interessante, eu falo de outro. Até tem menos regras. Tem só uma regra, apesar de ser a mais difícil. Aqui vai:

. SEJA VERDADEIRO CONSIGO!

 

Sara Almeida

 

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14.9.16

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Foto: Games - Jacqueline Macou

 

Sempre que me sinto muito aborrecida, gosto de brincar comigo mesma e pensar o que eu faria (ou farei) com o dinheiro, se ganhar na loteria. Muito rápido eu percebo que, para ganhar é preciso jogar, mas prometo a mim mesma que amanhã farei a minha aposta e continuo a sonhar. Me perco em pensamentos: onde eu iria comprar a sonhada casa, ou qual seria o modelo do carro que eu escolheria, além das pessoas que eu gostaria de ajudar...

Percebi com o tempo, ser esse um exercício interessante. É apenas uma brincadeira mas me faz refletir sobre quais são as minhas prioridades, meus sonhos. Quais são as minhas apostas, além da lotaria. Percebo também que os sonhos variam. Casa maior ou menor; praia ou no campo; quais pessoas ou causas mereciam mesmo a minha atenção. Essa brincadeira me faz repensar a vida e refletir sobre o que, de facto, me faria feliz. Não sou daquelas que acha que dinheiro não traz felicidade. Acho que ele ajuda e muito. Mas percebo que o que realmente faz diferença é o bem-estar das pessoas que eu amo e com as quais me importo e menos a marca do carro ou a morada. O engraçado é perceber também que, quanto mais dinheiro, mais responsabilidade, mais medo de perder e errar. Também me aborrece perceber que, mesmo que eu tivesse muito dinheiro, há algumas pessoas que são quase impossíveis de ajudar e também há aquelas que talvez nem quisessem...

Quando eu retorno para a minha realidade, depois de imaginar a minha vida após ganhar no euromilhões, percebo que as coisas não são assim tão ruins. Volto aos meus antigos problemas de sempre, mas me livro de alguns. Pode parecer piegas e lugar-comum dizer isso, mas tudo o que realmente importa é termos o essencial para uma vida digna e bastante saúde. O resto é bônus... Certamente daqui umas duas semanas vou começar de novo a fazer planos para, caso eu ganhe no euromilhões, lembrar que eu não joguei, logo devo correr a fazer a minha aposta.

 

Letícia Silva

 

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12.9.16

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Foto: Man – Omer Yousief

 

Na ótica de Gomes, Orlando (2013), seriam necessários alguns elementos de base para definir o jogo, elencando como primeiro elemento um conjunto de jogadores, em que num modelo simplificado de interação circunscreve-se a dois jogadores. De seguida, cada jogador terá, então, um conjunto de estratégias que poderá escolher dadas as estratégias disponíveis para os outros jogadores; e finalmente, cada estratégia produzirá um efeito (payoff) que dependerá decisivamente das linhas de ação ou estratégias escolhidas pelos restantes jogadores.

A teoria do jogo é assim compreendida como um estudo formal da interação estratégica entre agentes competidores num mesmo espaço, e começou a ser aplicada por planeadores chineses há 2500 anos.

Certa passagem do incontornável livro A arte da Guerra, de Sun Tzu, destaca que “aquele que conhece o inimigo e conhece a si mesmo não ficará em perigo diante de centena de batalhas. Aquele que não conhece o inimigo mas conhece a si mesmo às vezes vence, às vezes perde. Aquele que não conhece a si mesmo nem o inimigo invariavelmente perde todas as batalhas”.

John Nash, matemático norte-americano e vencedor do Nobel de Economia em 1994 pela notável contribuição que ajudou a revolucionar o campo matemático da teoria dos jogos, demonstrou através do dilema do prisioneiro, a competição ou cooperação in extremis entre jogadores na determinação do ponto de equilíbrio dessa relação, que passou a ser conhecido como o equilíbrio de Nash.

 

O drible é uma habilidade crucial para o jogo competitivo, em que se consegue transpor temporariamente ou definitivamente o adversário com a bola em sua posse e domínio, todavia não bastam habilidades e acrobacias para se vencerem partidas mas sim um conjunto das decisões tomadas em todo o tempo cronológico que durar a partida.

Por sua vez, a cooptação é um estágio evoluído de competitividade e maturidade entre os players, que decidem cooperar estrategicamente, partilhar risco e recursos, para desenvolverem alguns projetos de interesse comum e posteriormente colherem sinergias. A maturidade acima indicada resume-se no respeito mútuo que foi cultivado ao longo do tempo e na assumção de que as competências técnicas são intrínsecas e inalienáveis.

Para o sucesso dessa aliança é necessária a definição de regras de jogo transparentes, comprometimento e fair play da parte dos jogadores. Um acordo prévio de tréguas durante a vigência do projeto permite um alinhamento estratégico crucial para o sucesso da operação. Essa cedência ou privação de algumas liberdades enfraquece e até desarma o adversário, convencendo-o que a união será mutuamente vantajosa numa perspetiva de longo prazo.

Com efeito, para se atingir escala e crescimento sustentável precisamos de adversários fortes e aliados ou parceiros inteligentes e que partilham da nossa visão. A integração vertical de competências e confluência de virtudes distintas dará origem a novas áreas até então desconhecidas ou inexploradas, conducentes a diversificação da nossa atuação e consequente redução do risco global.

 

António Sendi

 

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10.9.16

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Foto: Writing – Stock Snap

 

Procuramos Articulistas para o blogue Mil Razões..., em regime de voluntariado.

Se tem vontade e se se sente capaz de assumir o compromisso da escrita de artigos originais em língua portuguesa, sobre temas da saúde mental, na perspetiva da pessoa comum, no seu dia-a-dia, se tem domínio da língua portuguesa e se é natural, ou vive num país de língua oficial portuguesa (preferencial) candidate-se aqui.

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9.9.16

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Foto: Couple - Unsplash

 

“Tchim Tchim”

Celebramos mais um ano juntos!

Olho para trás. Ao longo destes anos fomos revendo as regras da nossa relação, fomos reformulando, atualizando, entre lágrimas e sorrisos, fomos negociando as regras desta nossa interação, deste jogo.

Recordo o momento em que nos conhecemos. Tu debatias com convicção o teu ponto de vista e eu, só para te provocar, rebati fervorosamente a tua opinião. Tu, sempre delicada e diplomática, sabiamente argumentaste e eu rendi-me, devotamente a ti e ao teu belo e genuíno sorriso. Iniciámos uma interação amistosa sem compromissos, apenas desfrutando da amizade que partilhávamos. Com o tempo, as regras foram-se remodelando e envolvemo-nos no jogo da sedução, entre sorrisos cúmplices, olhares fatalmente libidinosos, em que os nossos corpos quentes vibravam entrelaçados na volúpia devoradora de prazer.

Passaram-se meses e a nossa interação ganhou novo formato, mais quadrado, mais sério. Reformulámos as regras da nossa relação, comunicámos ao nosso mundo de conhecidos e amigos que estávamos num compromisso sério, com exclusividade sexual. Namorávamos!

 

Neste cenário, chegou o desenvolvimento expectável pelas nossas famílias, de formalizar a relação: o enlace, o matrimónio, o casamento. Cada uma destas palavras assustava- me e angustiava-me ainda mais o seu significado.

Numa tentativa insana de fugir a esse meu destino de vir a tornar- me num anilhado, agrilhoado pela celebração de um matrimónio, enveredei numa desenfreada caçada de novos desafios relacionais com trocas de mensagens e flirts virtuais.

Foi com um diálogo aberto e dolorosamente sincero, de feridas abertas a fervilhar no desinfetante alcoólico que ambos chegámos a um consenso. E novas regras surgiram na nossa dança interativa.

E aqui estamos hoje! Sim, há amor, muito amor! Um amor que se reformula a cada dia, numa relação cúmplice e honesta, baseada no respeito e na confiança e, sobretudo, na flexibilidade das suas regras deste nosso jogo que é a vida, deste nosso jogo que são as relações. No jogo que são as interações humanas!

 

Tayhta Visinho

 

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7.9.16

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Foto: Hamburg – Franz P. Sauerteig

 

Quando é que começámos a jogar este jogo perigoso, este jogo do “toca e foge”? Não! A pergunta certa é: quando é que nos perdemos neste jogo perigoso?

Ignoras as minhas dúvidas e inquietações, não dás importância aos meus pensamentos, não percebes, ou finges não perceber, o quanto eu consigo viver alienada da realidade… É como se dissesses “vem”, mas na verdade seja “não venhas”. E eu vou acreditando que, um dia, irás compreender que vivo mais na realidade que acontece dentro da minha cabeça do que na realidade real. Não compreender o meu corpo, mas invadires o meu pensamento, envolveres-te em tudo aquilo que se passa na minha mente inquieta.

Interessas-te? Não e, por breves momentos, também eu perco o interesse.

Mas acabamos sempre por voltar à nossa realidade paralela, alienados de tudo o que nos rodeia, nessa aleatoriedade onde tu estás, onde eu estou, onde nós existimos. E que comece o jogo da conquista! Ou da incerteza! Movimentamo-nos ao som da nossa própria música, que nunca foi nossa; perdemo-nos nas nossas palavras, que se desfazem de intensidade e sentido. Somos dois peões que se movimentam num tabuleiro sem uma estratégia definida, levados pelo sabor do outro. É um momento de loucura como tantos outros, onde movemos os nossos corpos ao ritmo de algo que, no dia a seguir, percebemos que já nem sequer faz sentido algum. Mesmo assim tu insistes em perguntar-me: A menina dança?

 

Sandra Sousa

 

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5.9.16

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Foto: Kiss – Omar Medina Films

 

Preenches-me as horas com obstinada precisão, que se me abstrair e tentar deslindar este nó cego de mim, não sei quando chegaste, ao que vieste e porque ficaste. Sei apenas que atada a ti, me sinto bailar entre um luar manso de primavera e o alvorecer de um dia feliz.

Deslizas pelo meu pensamento com a desenvoltura de uma nascente que corre em busca da foz. Difícil, quase impossível, é evitar que te graves em mim - mais ainda.

Debalde, tento racionalizar, tento virar-me do avesso, tento arrancar a venda colada no meu rosto… E falho. Falho porque estás em toda parte, dentro e fora de mim. Como um jogo da cabra-cega, posso não saber onde estás, mas sinto-te perto e assustadoramente só a ti quero agarrar.

E então corro. Corro para fugir de ti, para a venda me cair dos olhos para eu poder encontrar um caminho que me leve noutra direção. Corro. Corro. E quanto mais corro mais sinto na pele que só a ti quero chegar, como se o meu coração apenas soubesse correr na tua direção.

 

Ana Bessa Martins

 

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2.9.16

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Foto: Woman - Unsplash

 

Fecha os olhos.

Vá! Fecha-os!

E agora… apaga-me da tua memória. Sim! Faz de conta que não me conheces (conheces?). Que não sabes qual o meu prato favorito, quais as minhas músicas de eleição ou quais os meus passatempos. (E talvez não saibas mesmo).

Mas mais ainda: apaga os anos. Apaga os defeitos ou faltas que encontraste. Apaga as discussões por tudo e por nada, as palavras afiadas que criaram buracos. (Tantas, tantas…)

 

E, quando abrires os olhos, vamos recomeçar?

Vai dar trabalho. Vai implicar um esforço permanente, um investimento de tempo, de sentimento. Vai ser difícil, porque… qualquer passo em falso reacenderá o rastilho da desilusão e… é tão mais fácil virarmos costas e vaticinar que não há remédio!

Mas… faz de conta que é mágico!

Faz de conta que é mesmo isso que queres, porque quem corre por gosto não cansa (ainda gostas, não gostas?)...

E eu também vou fechar os olhos. E vou fazer de conta. E, quem sabe, assim, não seremos felizes…

 

Sandrapep

 

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31.8.16

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Foto: Poker - Jeff Juit

 

A roleta russa, diz-se que é um jogo. Nesse jogo os participantes colocam apenas uma bala no tambor do revólver e de seguida giram o mesmo, depois apontam para a cabeça e apertam o gatilho da arma. Como está bom de ver, o objetivo do jogo é passar pela adrenalina do risco, mas conseguir ter a sorte de não ser atingido pela bala. Jogar consiste pois em arriscar, neste caso ao limite.

Podemos pensar e decidir que não, que não queremos participar em jogos desses. Que jogos aceitáveis para nós são tipo o Monopólio (que por acaso com os meus primos às vezes acabava com a miudagem a atirar “projéteis” uns aos outros, mas isso é outra história), ou o Scrabble, ou coisa do género. Jogos lúdicos, pacíficos por regra, inócuos. E pronto, estamos assentes no que a esta questão diz respeito. Jogar é conviver, divertir-se, passar um bom bocado.

 

Mas depois vêm os dicionários e afirmam que o jogo também é um comportamento, uma maneira de atuar; que pode ser troça, escárnio, manha, maneira de enganar. Esconder o jogo é dissimular. Pôr as cartas na mesa é ser honesto.

O jogo afinal pode ser muitas coisas… e algumas tão pérfidas como a roleta russa, e por vezes ainda piores.

No jogo assumimos sempre que quem joga está ali voluntária e conscientemente. Que seja qual for o nível potencial de risco ou de recompensa, trata-se de uma decisão dos intervenientes. Muitas fortunas se perderam ao jogo, muitas famílias se desmembram por causa dele. Mas são riscos e decisões. E afinal, de repente, o jogo já não é assim tão inofensivo, pois não?

E pode ser ainda mais perverso. Há quem nos meta nos seus jogos e o faça sem sequer nos informar ou nos ter em conta, nem que isso faça a nossa vida desmoronar qual castelo de cartas (trocadilho intencional). Há quem, na busca do seu prazer e apenas dele, nos inclua em jogos que recusamos totalmente.

Conduzir um veículo todo estiloso, daqueles para impressionar os amigos, a 200 km à hora, é jogar à roleta russa com todos os seres vivos que se atravessarem no caminho. Nem sequer é só irresponsabilidade, é ter alma de assassino e total desrespeito pela Vida.

Pegar fogo a uma floresta, idealmente numa ilha extremamente povoada e ficar a apreciar o espetáculo, não é só uma doença. É ter uma alma negra, muito negra, da cor das nuvens de fumo e terror que um incêndio causa.

Como ficamos quando somos atingidos por um destes jogos no qual não nos inscrevemos e que repudiamos completamente? Quando morremos, não ficamos. Mas morremos. Quando não morremos, morremos na mesma um bocadinho, ou vamos morrendo.

 

Por estas e por outras é que me parece que a estes seres humanos deveríamos, sempre que possível, agradecer de um modo que eles entendam e apreciem. Eu dizia-lhes que jogassem à verdadeira roleta russa sozinhos e até fornecia pessoalmente o revólver já preparado e com explicação completa: o tambor está totalmente carregado. Mas pode sempre acontecer que o gatilho encrave. Boa Sorte.

 

Laura Palmer

 

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29.8.16

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Foto: Wood Cube – Michael Schwarzenberger

 

A palavra “jogo” comporta uma diversidade enorme de sentidos, podendo considerar-se infindáveis as modalidades que pode assumir. Desde cedo, desde a nossa meninice, que nos habituamos à prática dos mais diversos jogos. Deles somos protagonistas em toda a nossa vida. Com eles aprendemos a brincar e a descobrir o Mundo; com eles, exercitamos o nosso intelecto e desenvolvemos as nossas aptidões físicas e mentais. Graças a eles vamos formando a nossa personalidade. Numa palavra: eles ajudam à nossa vivência e criação. O “jogo” é uma constante na vida, que se pode traduzir como luta ou desafio, pois a vida humana também é competição. O “jogo” da vida assume-se assim como a atitude de lutar pela vida, lema tão caro ao ser humano. O “jogo” da vida, enquanto tal, ajuda-nos a compreender e a desenvolver os nossos valores pessoais, espirituais e materiais. A sua antítese será a “vida de jogo”, com toda a sua carga negativa que a envolve, quando se assume uma conduta de vício. Todos os jogos têm as suas regras como igualmente as tem a nossa vida, pelo que será desprezível a modalidade de jogo no sentido de jogada matreira e ardilosa, usando meios torpes para atingir fins ilícitos e imorais. Como se vê, vida e jogo têm muitas afinidades e pontos comuns; nela, na vida, tal como em qualquer jogo, é imperioso tomar decisões específicas, as que se mostrem mais adequadas ao fim em vista. Para isso é preciso definir uma estratégia, escolher um plano de ação entre todos os possíveis, optando pelo que melhor sirva os nossos interesses. Em suma: a vida é feita de vários jogos interligados num só jogo a que chamamos de “jogo da vida”, sendo certo que cada jogo com que somos confrontados, dia a dia, nos ensina algo, pelo que caberá a cada um de nós aprender a jogar, labutando sempre pela vida.

 

José Azevedo

 

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26.8.16

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Foto: Man – Leandro de Carvalho

 

Esbraceja o que quiseres, não o manténs lá fora por muito mais tempo. Já o oiço, passos seguros e cadenciados, cada vez mais perto da porta. Ocupamos-lhe as camadas mais preciosas durante décadas, achavas mesmo que ele nunca se daria conta disso? És muito ingénuo, realmente, ou muito cheio de ti próprio. E aquela gente que aparece por aí, sempre a lembrar-lhe aquilo que não deve? Esqueces-te que os escuta também? Ou pensas que a barulheira que fazes é suficiente para esconder aquela chuva de amor, cada vez mais presente? Era tudo muito mais fácil quando os outros andavam por perto, lembras-te? Aqueles que lhe faziam mal. Não havia dia nenhum em que ele não se sentisse medíocre e insuficiente. Ah, dias saudosos! Era tão mais simples quando ele aceitava as circunstâncias e percebia que, no fundo, lhe fazíamos um favor. Naquela altura, preparávamos dois Bloody Mary’s, assistíamos à película diária e aguardávamos, tranquilamente, os despojos da guerra. Era lindo: lágrimas, sangue e mais impulsos animais que em qualquer selva do mundo. Ele, ferido e humilhado, corria para os nossos braços sem questionar. Um dia atrás do outro. Que felizes éramos nesses tempos.

Mas o sacana do humano sempre o impeliu a enfrentar alguns fantasmas, aqueles dignos de serem digeridos sem congestões, e a fugir dos restantes - há sempre quem não se arrependa de nada, exceto de não ter feito mais. Aninhava-se-lhe aos pés da cama, murmurava um cântico gentil e estendia lentamente o braço, até o sentir vibrar debaixo da pele. E lá ia ele, sem olhar para trás, de mão dada com um parvalhão que nos mantinha calados e lhe falava de Amor e de perdão; sem lhe dizer, todavia, que tudo seria efémero, era apenas uma questão de tempo. Mais cedo ou mais tarde ia ter aquilo que merecia, ia lembrar-se do quão parvo tinha sido pela ousadia de confiar naquele humano, por acreditar que algo podia ser diferente, ou melhor, sem nós. Quando tudo desabava - e, quase sempre, desabava - lá estávamos nós, lembrando-lhe o que ele nunca devia esquecer: que a mãe não o amava. Que a família não o amava. Que a vida nunca o amaria. Que a força dele vinha da raiva e da revolta, não do perdão e da lamechice. Que ele devia resignar-se e calar quem lhe trazia apenas promessas vãs.

 

Porque quer aquele parvo acreditar que alguém o pode amar de outra maneira? De onde vem esta insanidade que tanto trabalho nos deu a camuflar? Como pode este ser pequenino partilhar abraços e sorrisos, sem nada pedir em troca, se nunca ninguém lho ensinou? Porque não acredita que o amor doi, que é suposto doer? E que é assim que deve perceber tudo na sua vida? Como foi capaz de afastar todos aqueles que lhe mostraram o que ele realmente merecia, apesar da nossa influência? Devia agradecer-lhes, isso sim. Quantas vezes, ao longo dos anos, lhes pediu desculpa por coisas de que os acusa? Sinceramente: mas alguém pede desculpa sem ter feito nada de errado? Parte dele sempre soube que só um ser miserável podia despoletar tudo aquilo. Ele sabia muito bem que tinha culpa, claro que sim. Sempre soube que, algo muito mau nele, despertava o pior nos outros.

E agora quer viver nesta estupidez de acreditar que não teve culpa de nada. Que o pai o espancava porque era mau, que o tio o desejava porque era doente, que a mãe o castigava porque era frustrada? Mas como podiam aquelas pessoas fazer-lhe tudo aquilo, se ele não tivesse uma centelha de culpa sequer? E como pode ele dizer que não o amavam, que aquilo não era Amor, que o amor não doi e outros disparates irrepetíveis? Quantas vezes eles choraram, arrependidos? Quantas? Mas que aprendeu este gajo da vida? Nada. E agora, porque adora respirar, porque a vida lhe parece sempre muito mais do que a soma das suas cicatrizes, anda para aí a espalhar amor e alegria, como se aquilo fosse bom. E nós aqui, cansados, os seus verdadeiros amigos, a perceber esta distância cada vez maior. Sem nós, ele é apenas frágil e tonto. Só isso.

 

Hoje de manhã, voltei a lembrar-lhe que é um miserável que não merece sequer ser amado. Já tenho poucas oportunidades de o fazer. No momento em que se olhou no espelho, eu espreitava por cima do ombro, mesmo a tempo de lhe sussurrar ao ouvido que o aspeto dele era medonho. Por dentro e por fora. Como pode um ser tão retalhado, tão disforme, tão desprezível, ser digno de amor? Senti-o cambalear, lembrei-lhe cada cicatriz, cada humilhação. Da boca saiu-lhe um suspiro prolongado, seguido de um choro crescente e convulsivo. Joguei cada cartada com mão firme e sem hesitações, com a mestria de que me orgulho, mas hoje não correu bem: de cada ferida deixada por mim a céu aberto, emergia uma luz que nunca lhe conheci. Eu queria sangue, queria que doesse. Queria que ele gritasse que eu tinha razão. Queria o mesmo de sempre. Mas ele sorria e chorava. E agradecia o sofrimento que o libertava de nós. Depois de tudo o que lhe demos, é assim que nos agradece?

Como podes ficar aí calmo, como podes achar que ele nunca vai perceber que nós é que controlamos tudo? Mas ouviste alguma coisa do que eu disse até agora? Nós nunca mandamos em coisa nenhuma. Todo este tempo, foi ele. Foi sempre ele. E não, não o podemos agarrar pelos tornozelos se ele nos virar as costas e caminhar no outro sentido. Na verdade, só aqui estamos porque ele ainda não integrou o seu poder. Porque nunca ouviu, com a alma, o gajo que lhe dizia que ele era digno de amor. Foi só por isso que ele se deixou embalar por nós, nesta cama de derrota e amargura. Olha para ele agora, até brilha: a escravatura voluntária dele está prestes a terminar. Na sua última cartada, limpou a mesa. E, num pestanejar, fomos despejados. Ah, agora choras. Não anteviste nada disto, claro. Alguma vez vivemos na mesma casa que o Amor, a Alegria e a Esperança? Alguma vez conseguimos partilhar a existência com um clã desse calibre? Não há espaço para a Dor e para o Medo quando o Amor restaura a ordem. Vá, vamos embora, não falta quem precise de ser alimentado na angústia. Para de choramingar e retira-te discretamente. Não olhes para trás, ele não te vai acenar na despedida, só porque vivemos com ele este tempo todo. Com sorte, saímos a tempo de não nos humilharmos mais.

Recolhe o baralho e deixa o humano entrar: está pronto para ser amado.

 

Alexandra Vaz

 

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24.8.16

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Foto: Girl - Adina Voicu

 

Sim, sim, o Homem é ele próprio e a sua circunstância. Causa e consequência, como o jogo, lembrais-vos? Verdade...

 

Há, portanto, aqui uma interação, um jogo entre quem influencia o quê e o que condiciona quem.

Há um sortido grande, quase sempre, maior ou menor de opções, de escolhas que dependem de nós, são de nossa responsabilidade, a partir das quais os caminhos podem levar a destinos muito diversos. Dramatizando, podem ser quase que opostos.

As escolhas, no entanto, não são irreversíveis, ainda menos definitivas. Mesmo que algumas decisões, ou indecisões, nos tenham encaminhado para um beco, querendo e procurando há de encontrar-se uma saída, de modo a achar vias mais airosas, rápidas, largas e bem frequentadas.

É assim, pois, que jogo pode ser divertimento, vício, justo, alienação, passatempo, lícito, ilícito, olímpico, brincadeira, desporto, feliz, infeliz, sujo, vitória, derrota... Depende de como se joga.

 

Há que ir a jogo. Há momentos em que se controla mais ou menos o jogo, mas não jogamos sozinhos. Somos nós, nunca esquecer, mas também há os outros. Todos somos sempre necessários para jogar. Atenção às regras, ganhar com batota que valor é que tem?

O jogo é em primeiro e em último lugar com nós próprios. Será possível fingir? De que vale varrer o lixo para debaixo da carpete? Joguemos limpo!

 

Jorge Saraiva

 

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22.8.16

Chess-AloisGrundner.jpg

Foto: Chess – Alois Grundner

 

O cenário era perfeito. O sol, brilhante e intenso, não incomodava porque as copas das árvores coavam a dureza da luz e oferecia uma sombra convidativa ao descanso. Ele, sentado num banco, ia bebendo uma espécie de chá gelado e aguardava. Ela baloiçava-se numa rede presa a dois troncos e, não fosse o olhar fixo no tabuleiro colocado entre os dois, dir-se-ia que relaxava. Mas, um olhar mais atento e percebia-se que aquele era o confronto entre dois seres que se queriam derrubar.

“Amar-te-ei até à eternidade!”. Disparou ela sem qualquer emoção na declaração de tão nobre sentimento. E enquanto mexia a rainha pondo-a a salvo de ser comida por um peão - no xadrez até os peões podem comer as rainhas - mirava-o pelo canto do olho. Um esgar no rosto e a espera pelo momento em que ele haveria de baixar a guarda, aproximar-se-ia e faria um gesto para a acariciar, sinal de que a declaração o tinha sensibilizado. Era então chegado o momento de recuar e de o ridicularizar como tantas outras vezes. Dir-lhe-ia que não há eternidade naquilo que se pode ver ou tocar e o amor deles, quando existiu, era palpável, não podia ser eterno. Tomou gosto pelo jogo em que transformaram o relacionamento. Definiram regras que infringiam constantemente; usavam as mesmas armas: provocação, humilhação e desamor. Se um deles se aproximava, o outro tinha que se por em guarda porque se se deixava arrebatar, o mais certo era ser magoado e humilhado.

Ele, como ela, sabia quão leviana era a declaração. Há muito que, falar de amor entre eles era ridicularizar a palavra e o sentimento. Desta vez ela sairia defraudada, não faria o jogo dela. Não foi sempre assim. Entendiam-se, amavam-se e conheciam a felicidade. Hoje continuavam unidos, mas fazia muito tempo que se tinham deixado. Continuavam unidos apenas e somente na infelicidade de já terem sido felizes.

 

Gostava de lhe comer a rainha. Pensava ele enquanto colocava o bispo na diagonal na esperança de que a soberana se pusesse a jeito. E, na ânsia de lhe desferir o golpe, não reparou que o cavalo, de um salto, se atirou ao bispo e o derrubou. O sorriso mal disfarçado da adversária irritou-o.

Como a odiava! A ela e ao jogo do toca e foge que tão bem sabia jogar!

A saída do bispo desprotegeu o rei branco, o sorriso dela era de triunfo quando gritou: “Xeque ao rei!”. Precipitou-se a comemorar o triunfo porque a torre, ameaçadora, fez “Xeque-mate” ao rei preto.

Foi a vez de ele sorrir e gritar: “Fim de jogo, querida!”.

 

Cidália Carvalho

 

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19.8.16

Money-MichalJarmoluk.jpg

Foto: Money – Michal Jarmoluk

 

Desde pequenina que tentam ensinar-me a jogar xadrez. Não sei porquê, nunca consegui ter grandes resultados… Quer dizer, sei: não me interesso pelo jogo, esse jogo. Talvez por ser um jogo de calculismo, estratégia, frieza, análise do pensamento do outro para conseguir prever o que este irá fazer.

No entanto, na vida é isso que faço, tenho que fazer. Se não fizesse, como conseguiria pagar os impostos? Sim, tenho que prever todas as despesas, o meu adversário são as despesas. Tenho que pensar num adversário para conseguir focar os meus esforços de modo a vencer o dia-a-dia.

 

Ao longo dos anos fui-me apercebendo que as pessoas não são adversários, embora algumas tentem. São apenas peões que vão surgindo e só têm força e impacto nas nossas vidas se deixarmos. Claro que quem chega com boas intenções pode causar o impacto que pretende mas, infelizmente, a maioria chega para tirar o melhor proveito para si e vê-nos como meros peões para a sua própria vitória, alguns até como os verdadeiros adversários.

Houve tempos que também pensei assim… Mas, tal como com o xadrez, não sei jogar esse tipo de jogo com pessoas. Gosto mais de ser quente e natural, sem estratégia de relacionamento, apenas eu própria. Se fosse um jogo de xadrez, em vez de “Xeque-mate!” diria “Churrasco?”.

 

Mas o que não são pessoas sim, parece uma força do oculto que ninguém vê… Com essa sim, já consigo ser calculista e tento ser gélida para não deixar que me faça xeque-mate. Mas isso custa-me imenso… Admiro quem consegue ser indiferente ao bem-estar só porque todas as criaturas do mundo merecem. Faz-me confusão estar bastante bem na vida, de bem com tudo, e lá vem uma despesa extra por um azar qualquer e ainda nos cobram imposto por esse azar. Resta-me aprender a jogar esse tipo de jogo…

 

Sónia Abrantes

 

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17.8.16

Hand-Falco.jpg

Foto: Hand – Falco

 

Em tempos em que a cooperação entre todos é mais necessária do que nunca, temos necessidade de interiorizar aspetos que nos liguem uns aos outros. (Re)aprender a viver em conjunto e com objetivos comuns, desperta em nós a necessidade de nos (re)descobrirmos e de nos (re)educarmos. O individualismo deixa de ter protagonismo e sentido. A proposta passa por valorizarmos o que os outros têm a oferecer no que diz respeito à confiança, à lealdade, à solidariedade e à competitividade, entre outros aspetos, que fazem sentido para vivermos num mundo adverso capaz de criar relações interpessoais indesejáveis. Este trabalho de cooperação exige uma forma de jogo em que a estrutura, a coesão e as regras estão presentes. Existe uma coesão grupal, em que a homogeneidade grupal e a heterogeneidade individual se entrecruzam. Neste jogo coletivo existe um maior sentimento de segurança, criam-se laços de amizade, há divisão de tarefas, e o trabalho torna-se mais tranquilizador (é também a minha convicção). Despertam-se competências e valores, muitas vezes desconhecidos, nomeadamente o respeito pela heterogeneidade, no que se refere a formas de estar e viver a vida. Este respeito parece fazer cada vez mais sentido! Quando se vive a vida a trabalhar sozinho, sem perceber o outro como importante para nós próprios, este jogo de cooperação não parece ser um exercício fácil de enfrentar e de praticar. É muitas vezes um jogo perturbador, mas parece que vale a pena tentar!

 

Ermelinda Macedo

 

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15.8.16

Smartphone-StockSnap.jpg

Foto: Smartphone - StockSnap

 

- E cá estou eu, como sempre, para aqui sozinho. Ninguém quer saber de mim. Ninguém vem visitar-me. Ninguém telefona a saber se estou vivo ou morto. Tenho a minha música e isso basta-me. Mas já nem tenho quem ma grave. Também não peço a ninguém. Hoje ainda não falei com ninguém. Devo ter a voz de quem acabou de acordar. Mas hoje até acordei bem cedo. Sai e fui dar uma volta aqui, ao pé de casa, sem olhar para ninguém. Andei em círculo. Sinto-me só. Ela já está melhor, mas não sei quando regressará e eu fico aqui, sozinho. Nem me agradece por tê-la ajudado. E toda esta gente pergunta por ela. Hipócritas. Agora que ela está doente vão visitá-la e perguntam por ela, como se eu tivesse de responder. Não respondo; viro-lhes as costas. A minha vontade era mandá-los fo***. Por mim, que estou aqui, não perguntam, não querem saber, não querem saber de mim. De mim, eu que a salvei. Saca***! Eu, que tenho problemas, eu, que sofro tanto, eu, que já passei por tanto. Só eu sei… ninguém imagina pelo que passei e pelo que passo. Não é fácil ter o problema que eu tenho; mas nem imaginam. Ter a doença que tenho e ninguém quer saber. E ainda vem falar de mudança… Mudar o quê? O que é que eu posso mudar? Só se fosse estourar com esses tipos todos. Se soubesse o esforço que faço para me controlar… Mudar… Ninguém entende que eu sou assim, seus filhos ** ****? Não entendem que não há mudança? Não entendem que eu sou assim, que a minha doença é assim, que não há nada para mudar, nada a fazer, que é assim e pronto? Não entendem o que eu sofro. Há as pessoas normais, como você. E depois existo eu, que sou diferente, que sou assim. Mas ninguém quer saber, ninguém ajuda, ninguém facilita, ninguém me respeita. Nada vai mudar. Isto é assim. E eu não preciso de ninguém. Quero é que me deixem em paz, que não me chateiem. Tenho a minha música e pronto!

 

- Sabe que a forma como vê o mundo e as outras pessoas, a forma como se sente, a agressividade que sente, a violência que gostaria de provocar mas que consegue controlar, sabe que tudo isso faz parte da sua doença? Não será possível eliminar a doença, mas será possível controlá-la, mantê-la controlada e ter uma vida normal, em paz, gratificante, na qual se sinta bem, bem melhor do que é agora. Essa hipótese não lhe agrada? Se acredita que não há regresso a uma vida gratificante, então ela nunca existirá. Se acreditar que o regresso é possível, então a mudança poderá acontecer.

 

- Tretas! Tudo tretas. E os médicos são uns ignorantes e uns mentirosos. Foi por culpa deles que eu fiquei assim. Mas eu percebi a tempo e deixei de os sustentar. Não entendem que não há volta a dar a isto, que eu sou assim e que isto será sempre assim, logo, não vale a pena. Não há caminho de regresso! E eu estou bem, desde que me deixem em paz. Ouço a minha música e isso basta, não quero mais nada. Deixem-me em paz, cara***! Eu sei controlar a minha irritação, eu sei tratar de mim, eu sei o que devo tomar. Não vou é encharcar-me de pastilhas, como eles querem e depois ser um mer*** como eles. Não quero falar mais!

 

Fernando Couto

 

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8.8.16

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Foto: Color - Logga Wiggler

 

Ontem era o meu dia de folga e fui aos saldos. Bem, digamos que, por força do adiantado da época, fui mais às rebaixas das promoções dos saldos das promoções. Como gosto de andar sempre na última moda, tinha que ir aos últimos saldos, certo? Assim como assim, já que não vou de férias julguei justo permitir-me essa extravagância, com uns últimos trocados do que consegui poupar este mês.

Comprei um trench coat reversível: uma lindeza! De um lado, uma aguarela pintada de fresco, ainda escorrendo cores de rebuçados. Do outro, uma indefinível e elegante cor de tarde pardacenta. Ficou-me a matar, parecendo talhadinha para o meu corpo de modelo único. Sim, porque igual a mim, moi, je, já não se fazem hoje em dia! Que o digam todas as roupinhas maravilhosas que rejeitei lá pelas lojas, umas de tamanho excessivamente pequeno, outras de tamanhão escandaloso. Meu Deus, serei assim tão especial, singular, eu, com as minhas medidas de mãe-de-trazer-por-perto e de mulher-de-lazer-ao-largo? Francamente, não sei se fique feliz ou infeliz com essa particularidade. Feliz, porque até me considero jeitosinha, para o gasto, e infeliz... bem, é óbvio, porque nunca consigo comprar uma roupa que me caia bem, nas “oportunidades”. Adiante, que se faz cansaço.

Dizia eu que vim toda feliz, ontem, com o meu trench coat. Digam lá, soa bem, trench coat, não soa? Foi a menina da loja que lhe chamou isso. Diz que é chique, ainda por cima! Para mim, se querem que lhes diga, aquilo é uma gabardina, mas pronto. É muito bonitinha, a peça. E reversível. O que dá um jeito que vocês nem imaginam. Ora pensem lá: um dia visto-a de um lado. Outro dia visto-a do outro. Duas peças pelo preço de uma. E por uma pechincha. Ah, eu sempre soube que trabalhar num restaurante de sol a lua era um desperdício. Eu devia era ter um cargo, assim um cargo importante no mundo dos negócios. Gestora financeira, ou assim. Ah, deixa-te de tretas, Maria Almerinda, já tens uma carteira bem difícil de gerir: a tua!

 

Ai, cheguei a casa tão feliz!... Mas depressa o meu estado de graça se reverteu. Outra coisa reversível que eu tinha lá por casa, era o estado de espírito do meu marido, convém dizer. Pois. Parece que ontem a vida não lhe correu bem, e desatou a descarregar em mim as frustrações do dia. E os últimos vapores de álcool do vinho a martelo lá da tasca da esquina.

Disse-me coisas irrepetíveis. Barbaridades duma injustiça acutilante. Vociferou, perdeu a razão. Não adiantou ripostar, argumentar, tentar todas as estratégias que tenho traçadas, nos velhos calendários de anos e anos, a ouvir e calar, a levar e perdoar, a esquecer para sobreviver, a aprender a ter a arte da reversibilidade. A verborreia não demorou muito a passar a tareia. Mais uma. Só mais uma nódoa negra para a qual eu teria hoje de inventar uma desculpa criativa, lá no trabalho. As crianças tinham-se, como de costume, encolhido no canto mais remoto da casa, tapando os ouvidos para não deixar entrar as memórias futuras. Depois dos gritos, o habitual bater violento da porta da rua. Depois dos habituais três ou quatro minutos cronometrados à lágrima, dois pares de passos trémulos ao meu encontro. Dois abraços, um ao nível das pernas, outro da cintura. Isto, quando eu não estava no chão, derramada num desconjuntado monte de ossos e de mágoas.

 

Ontem, foi também um dia desses. Ontem, foi o dia da irreversibilidade - a aguarela do meu lado cor de rebuçado, borratou, enegreceu, ficou irreconhecidamente ácida, dolorosamente maculada, ultrajada, corrompida. Sem outra face. Alguém chamou o 112. Não sei. Doía-me o ar que respirava. Doíam-me, sobretudo, dois pedaços de mim, que me levaram dali em lágrimas.

Vestiram-me a gabardina nova (quero lá saber se é trench coat!), do lado mais triste, para me cobrir o corpo rasgado. Fechei os olhos e, juro, dentro deles vi um festim de cores, tons pastel beijando flores doces, andorinhas felizes perseguindo brilhos de sol, azuis de céu pedinchando arco-íris. Uma tela magnífica, pintada por mim mesma, pela minha vontade de me virar do direito e sair para a chuva sem medo.

 

Hoje, os meus filhos vieram ver-me. E viram: é nos olhos que primeiro a alma se percebe. São meninos sensíveis, os meus filhos. Não é preciso contar-lhes que há coisas nesta vida que são irreversíveis: palavras que marcam indelevelmente, atos indignos, traçados de dignidade própria, caminhos de um só sentido, decisões sem alternativa. Nem explicar-lhes que só os objetos podem ser reversíveis, como uma moeda, um trench coat, uma porta. O resto, vou explicar-lhes, devagar, que é apenas redefinível: o ponto de vista, a posição estratégica, a escolha dos caminhos, a maneira de olhar, o modo de ver, o conhecimento de causa e das coisas.

 

“Amanhã é outro dia.” Ah, o tempo, o tempo também é irreversível! As coisas que ainda temos que aprender, os três! Eles foram buscar a gabardina, quando sentiram o meu arrepio e vestiram-ma do lado garrido. Havia aqui e ali uma mancha de sangue seco. Vivo, paradoxalmente - mas isso só acrescentou ao quadro mais cor, mais força, mais caráter. E mais verdade.

 

Teresa Teixeira

 

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3.8.16

Flowers-JacquelineMacou.jpg

Foto: Flowers – Jacqueline Macou

 

Procurando algum repouso sento-me na sala em tons de castanho. Sem dar consciência ao ato, os olhos começam por percorrer o espaço e encontram vários móveis que compõem a divisão, acrescidos de múltiplos elementos decorativos. Um mapa-mundo enorme, por exemplo, preenche as minhas costas. Do lado esquerdo, vários desenhos de Da Vinci, evidentes reproduções do trabalho de um génio ímpar. A riqueza de todo o conjunto do espaço encontra-se, contudo, nos elementos que carregam histórias. Um pequeno rádio que pertenceu ao avô da minha esposa repousa no topo de uma prateleira. Curiosamente, atrás de mim e abaixo do mapa-aguarela, encontra-se um maior que pertenceu ao meu. Dois bons exemplos de objetos tão iguais e com histórias tão diferentes. Que seja do meu conhecimento, um não terá passado do raio geográfico do grande Porto, enquanto o outro conta com uma passagem transoceânica.

A cabeça roda ligeiramente para a esquerda e a consciência súbita da visão assalta-me o espírito. E o corpo. O coração sobressalta-se (o que acontece quase sempre), quando revejo a fotografia dos meus avós.

 

Numa humilde moldura de uma cadeia sueca de mobiliário, uma magia de 10x15 cm rompe com o tempo e com o espaço. De modo automático e descontrolado algo me acontece no peito e a seguir na garganta. E a seguir nos olhos. Rompe, na maioria das vezes, no meu rosto um sorriso tímido e molhado, banhados que são meus lábios pelas lágrimas que agora caem. São estados mistos, confesso. A primeira vaga é a da tristeza. De já não os ter. De não os poder beijar e dizer que os amo. A segunda vaga é a da saudade. Da falta que me fazem e que me continuarão a fazer. A terceira vaga, a tal do sorriso torcido, é a do conforto e da felicidade. Conforta-me saber do papel que tiveram no meu crescimento e educação. Conforta-me relembrar o que fizemos juntos e a felicidade desses tempos e momentos. Momentos que já não temos. Momentos que foram momentos e que agora já não são. E que nunca mais serão. A irreversibilidade do tempo é isto mesmo. Se de alguma forma conseguíssemos repetir os momentos do passado, a sua riqueza nunca assim existiria. Por muito dano que nos cause no presente.

Na fotografia estou com eles. Tenho um de cada lado, com o meu avô à esquerda. O meu braço esquerdo repousa no seu ombro e o direito segura na pasta da universidade. A foto pretendeu ser uma recordação de quando vesti o traje académico pelas primeiras vezes. Os três sorrimos, desafiantes que fomos do tempo e do que ele nos ia roubar. Atrás de nós está uma camélia. Aquela onde eu e meu irmão íamos arrancar botões, antes de serem flores, apenas para ouvir a minha avó gritar connosco.

 

Rui Duarte

 

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1.8.16

Arrow-GerdAltmann.jpg

Foto: Arrow - Gerd Altmann

 

Escolhas. Escolhas que traçam um caminho, que caraterizam uma trajetória, que moldam a vida e a fazem avançar. É delas, das escolhas, que se vive. Opções que ora estão certas, ora estão erradas, mas que são irreversíveis. Sempre diferentes na forma como se vivem e, por consequência, irreversíveis.

E se determinada escolha fosse escolhida em detrimento de outra que acabou por originar arrependimento? E se não tivéssemos que escolher? E se as escolhas se tornassem impossíveis? Ou seja, e se houvesse a oportunidade de não escolher?

“Tu tens que fazer a escolha certa. Enquanto tu não escolhes, tudo contínua a ser possível.”

Para quê e porquê escolher? “Porque eu sou eu e não outra pessoa qualquer?”

Um mundo onde pudéssemos viver todas as vidas possíveis e imaginárias e onde todas as possibilidades se manteriam em aberto. Nada seria irreversível. Várias dimensões paralelas coexistiriam, dimensões onde o ser humano se poderia multiplicar em diferentes “eus”.

“Cada escolha é a escolha certa. Tudo poderia ser qualquer outra coisa. E teria tanto significado como qualquer outra.”

Um mundo louco, por certo, onde sonho, realidade, imaginação e ilusão se confundiriam; um mundo onde a palavra “sonho” perderia dimensão e significado.

O que seria um sonho nessa pseudo-realidade?

 

Nesta dimensão, na realidade em que vivemos, cada escolha é também a escolha certa. Ainda que irreversível. Ainda que possa ser a escolha errada. Foi essa escolha que te fez quem és hoje; foi ela que te fez (querer) ser sempre melhor, como ser humano.

“Na vida só temos um take, se estiver mau temos de o aceitar.”

O que dá sentido à vida é o caminho percorrido. Ainda que a meta não seja exatamente aquilo que idealizaste, o que enriquece e lhe dá sentido são as escolhas tomadas ao longo deste percurso e as experiências proporcionadas por tais escolhas. A vida, seja ela qual for, valerá sempre a pena ser vivida.

 

Sandra Sousa

 

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