23.8.17

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Foto: Playground - Maria

 

Para quê sentir vontade de reviver momentos que já não voltam, com quem já não se encontra fisicamente entre nós, em sítios que já não são os mesmos?

Este verão voltei à terra da minha infância.

O parque onde brinquei já não existe. Ficou apenas a área vazia de terreno. Os prédios enormes continuam lá, mas não vi ninguém, nenhuma criança a brincar ou a comprar um pacote de leite na loja do bairro. Onde estão? Elas devem existir pois, à janela daquilo que foi em tempos a nossa sala de jantar, estava um jovem a sacudir a toalha. Fitei-o, bem como ao interior da casa. Ele reparou e fitou-me. Mal sabe ele que ali passei toda a minha infância e adolescência. Que ali me chamavam aos berros quando era para ir almoçar ou jantar, depois de umas boas horas a brincar na rua sozinha com os meus 30 amigos do bairro.

Logo ao sair do carro, encontrei o Senhor da Padaria e a Mãe de uma das amigas. Iguais! Algo passou por ali, arrasou o parque mas deixou as pessoas iguais! “Os sobreviventes”, como o Senhor da Padaria disse.

Fomos convidados a visitar o centro comercial que, de dois andares de lojas, restam apenas três lojas abertas. Ao entrar no café, o Senhor do Café reconheceu-me e eu vi isso nos olhos dele. “Mal olhei para os teus olhos pensei: eu conheço aqueles olhos.”. Pois é... Há quem diga que pelos olhos se vê a alma e a minha alma é a mesma.

 

Tudo muda. As casas, as pessoas que lá habitam, a nossa estatura física, as pessoas que connosco convivem, a nossa própria família também muda. A alma não. O nosso interior e o que nos formou como pessoas, isso não muda. Já cá está carimbado e para sempre.

Depois de despedidas secas, vazias, lá fomos embora, com a sensação de que aquilo é uma realidade que já não existe pois o lugar é aquele, aqueles três comerciantes são os mesmos e penso que serão sempre, mas a vida real é outra. Serão eles os três anjos que nos fazem recordar o que nos tornou pessoas? Não estava mesmo lá mais ninguém...

Para quê saudades se a vida já não tem lugar? Nós fizemos desaparecer esse lugar...

 

Sónia Abrantes

 

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21.8.17

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Foto: People – Stock Snap

 

Chega-me com o perfume das noites quentes de verão, assim bem cheirosas porque plantas e flores, sem pudor, se despem das suas fragrâncias. Enchem o ar e levam uma direção. Não é um lugar qualquer aquele para onde vão ou de onde vêm e para o qual eu me deixo levar; é um lugar longínquo, mas que o cheiro a calor aproxima. Vou pela avenida junto ao mar até à Ponta Vermelha onde, por certo encontrarei alguém para uma partida no minigolfe. Desafio o vento que abana as palmeiras da marginal a fazer coisa idêntica nos meus cabelos, dou o exemplo passando os dedos pelo meio da cabeleira e levantando-a até ao cocuruto. A pele recebe uma lufada de ar e fica menos pegajosa, mas por pouco tempo. Repito o gesto vezes sem conta. Não está ninguém conhecido na Ponta Vermelha. Vou até à esplanada do Ciao. Peço uma cassata que não saboreio. Dizem que é dos melhores gelados da cidade, mas esqueço-me dele na taça de vidro; peço-o porque faz parte do ritual. O calor deforma-o rapidamente e a bola colorida passou a um líquido de qualidade duvidosa. Vão chegando amigos e com eles as histórias que têm para contar. O Dr. Óscar Monteiro é dos mais eloquentes a contar as peripécias de médico do antes e pós-independência. O humor que empresta aos dizeres faz do nada uma boa conversa. Tive notícias de que morreu, e que outros também já partiram. A bola de gelado não voltará a derreter à espera dos meus amigos e eu, mesmo querendo – e como quero – não conseguirei devolver à esplanada do Ciao a vida de outros tempos.

 

Chega-me com o pão quente pingado de mel. Fino e transparente, cor de ouro, combinado com o pão acabado de sair do forno, faz da simplicidade um manjar de réis. Nunca se esquece de, em cada fornada, fazer um pão pequeno só para mim. Ouço-a dizer com carinho: “uma bolinha pequena para gente pequena”. Querida avó, que bem que me sabia esta e tantas outras das tuas atenções. Como gostaria de poder dizer-te o quanto admirava essa tua magia de mimares tanto com tão pouco.

 

Chega-me com o choro dum bebé. Sinto nos braços o teu corpo frágil abandonado aos meus cuidados e na ponta dos dedos o toque da tua pele macia. O prazer de me entregar ao papel de mãe foi muitas vezes abafado por receios e dúvidas. Gastei as páginas do “Meu Filho Meu Tesouro”, de Benjamin Spock, na tentativa desesperada de aprender a educar. Hoje, teria mais serenidade e saberia retirar mais gozo dessa nobre função. Mas, a falta de experiência de então, não rouba o carinho com que recordo essa nossa fase de crescimento, tua, na direção da infância e da adolescência, minha, na direção da maturidade.

 

Chega-me com o abraço que me dás. Cativaste-me assim, num abraço sentido.

 

Chega-me com as inquietações amargas do passado, com a solidão, a alegria e a tristeza do presente, com as fantasias do futuro.

 

Chega-me com a perda de conhecidos, amigos e familiares.

 

Chega-me com pormenores que, de tão insignificantes, só não escapam aos meus sensores.

 

Chega-me do nada e sem saber porquê, mas agora e sempre, rendo-me a este abusivo e posseiro sentimento de saudade.

 

Cidália Carvalho

 

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18.8.17

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Foto: Girls – Cheryl Holt

 

Lembro-me de a ver na piscina quando era pequenina; de interceder a nosso favor para podermos sair de casa; de pedir chocolate à mãe para todas; dos momentos em que contava aos pais as nossas aventuras de adolescentes na ausência deles; do cheiro; da saia curta castanha e top amarelo que a faziam ainda mais bonita; do beijo carinhoso; de a ver comer, elogiar e criticar negativamente a comida (não gostava de empadão); do boneco que tratava como se fosse seu doente e das receitas de ben-u-ron que lhe prescrevia numa folha de um bloco A5; de a ver por a mesa com toda a parcimónia; das canções que cantava num inglês imperfeito (gostava da Tina Turner); da sua memória impressionante; da palavra frigorífico, entre outras, que não conseguia pronunciar bem; dos momentos da sua higiene, que inicialmente fazia sozinha, acompanhados de todos os cremes; de debitar a programação da televisão como se estivesse a ler por qualquer lado; dos elogios que nos fazia quando estávamos “bonitas”; dos pedidos que fazia à mãe para lhe dar um cafezinho; da cumplicidade com o pai e a mãe; da felicidade que demonstrava quando chegávamos ao fim de semana… Até tenho saudade dos momentos tardios mais agressivos, mas inconscientes. Já lá vão alguns anos e, neste momento, restam as recordações e a saudade (a saudade eu não sei definir). É assim…

 

Ermelinda Macedo

 

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16.8.17

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Foto: Womens – Engin Akyurt

 

Saudade. Uma mera palavra, plena em substância. Uma palavra tão nossa, tão lusitana. E essa portugalidade inerente é transposta para o mundo, refugiando-se nos recantos das almas humanas, além-fronteiras. Ela sussurra-nos baixinho aquando o repassar das memórias de outrora que marcaram a existência, crescendo connosco e com todos aqueles e tudo aquilo que é parte de nós.

E se um pedaço se arranca ou o tempo avança, albergando vazios na sua travessia, a saudade aflora, relembrando-nos que os sabores agridoces que a vida apresenta são porção inevitável do caminho. Sinais inequívocos de que algo de positivo ocorreu, de que algo ou alguém importou, e isso nunca se perderá. Não na essência, no conteúdo… Só na forma. Serão tesouros guardados, a todo momento passíveis de serem resgatados.

E no decorrer da vida que sempre seguirá, naqueles instantes em que se desvanecem as barreiras e se denunciam as fragilidades, ali estará a saudade, bem ao lado do coração, lembrando que o que houve será pilar para o que haverá.

 

Sara Silva

 

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14.8.17

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Foto: Birdie – Shakti Shiva

 

- Eu tenho sempre os mesmos pesadelos, que se repetem noite após noite numa sequência que não tem fim. E por vezes volto a eles durante o dia, como se o pesadelo continuasse quando estou acordado, como que tomando conta de mim, por inteiro.

Rodrigo parou e pousou o olhar sobre a mesa, mesmo ao lado do novo copo de cerveja que o empregado trouxera uns segundos antes.

- E sonhos? Tens sonhos?

Juliana procurou assim abrir uma porta, uma janela, qualquer espaço que fosse permeável à luz, na tentativa de aliviar o semblante de Rodrigo.

- Não! Quer dizer, dos sonhos e dos pesadelos só temos as memórias que se agarram a nós, atravessam a noite e acordam connosco, coladas por dentro. Desde que esta sequência de pesadelos se iniciou, não tenho memória de qualquer sonho, não sei se sonho ou não, sei que não tenho memórias desse tipo.

- Mas, de que matéria são feitos os teus pesadelos?

- Em verdade, não sei do que são feitos, mas fazem-me viver atormentado.

- Mas isso é terrível! Conta, por favor!

Rodrigo suspirou, pegou no copo e bebeu dois longos golos. Pousou os braços sobre os braços da cadeira.

- Como expliquei, são uma sequência, todos os dias é um e apenas um, mas sucedem-se e repetem-se. Quando chega ao último, volta ao início; mas a sequência não é sempre a mesma, ou seja, de uma série para a outra, alguns pesadelos trocam de posição na sequência.

Juliana assentia com a cabeça, completamente focada nas palavras de Rodrigo, que continuou:

- Num deles fico desempregado. Chego pela manhã à escola e o diretor chama-me ao gabinete, onde já estão alguns dos meus colegas e o meu avó paterno a cofiar o longo bigode e com um sorriso (ele nunca sorria). E o diretor despede-me porque não preenchi uns formulários e preenchi outros de forma indevida ou errada. Eu saio do gabinete do diretor e estou de imediato no cimo de uma falésia, com sol mas vento forte. Sinto-me humilhado, com vergonha e com medo de cair ao mar.

- E é tudo?

- Sim, neste é tudo. Num outro, regresso a casa depois das aulas e ao entrar na rua, um colega da escola primária, que não vejo há mais de quarenta anos, mete-se à frente do carro (eu vou sempre a pé para a escola que fica a dois quarteirões) e grita que eu não deveria estar ali àquela hora. Continuo e quando chego à minha casa, que é uma moradia (eu moro num andar), vejo que ardeu, completamente. As pessoas passam na rua, indiferentes. Fico no carro a chorar, a pensar onde irei dormir, onde irei morar, como me arranjarei sem as minhas coisas, e reparo que do céu caem um paralelepípedos de pedra, gigantescos, cada um com um cordel enrolado à sua volta e que se vai desenrolando à medida que a pedra cai. São muitas destas pedras que caiem do céu ao mesmo tempo e eu tenho medo que uma delas me esmague dentro do carro, mas as pedras estão sempre a cair, a desenrolar o cordel e, de facto, não vejo nenhuma delas a chegar ao chão.

- E mais?

Juliana engole em seco.

- Num terceiro, está um tipo de fato e gravata, penteadinho, numa espécie de palco que apenas tem lugar para ele, com um microfone à frente, e ele diz: “Nesta tragédia, houve pelo menos uma dezena de pessoas que se suicidaram enquanto tentavam fugir, por não o conseguirem fazer, encurralados pelas chamas!”. Um outro, vestido e penteado como o primeiro, chega junto deste como que a voar, pois não tem palco, chão, para ele e diz-lhe ao ouvido, mas eu ouço, pois sou o único a assistir: “Sr. Primeiro-ministro, peço imensa desculpa mas, afinal, essa notícia não se confirma. Parece que morreram todos queimados a tentar fugir. Peço imensa desculpa.”. O que fazia o discurso diz então: “Porra, não me chame isso que já não sou! Oh Lopes, mas isso é uma merda, homem! Nem um suicídio… pequenino? E agora?”. O outro já lá não está. Então o discurso continua: “Portuguesas e portugueses, tenho de corrigir a informação que acabei de dar, pois afinal parece que não houve suicídios. Mas a culpa não é minha, é ali do Lopes, um tipo que até agora sempre mereceu a minha confiança. A culpa é dele; deve estar vendido ao governo. Eu sou responsável e, quando é preciso, dou a mão à palmatória.”. E aponta para mim e há minha volta está agora um mar de gente a olhar para mim e a gritar: “O Lopes é um traidor! Suicídio já!”. E eu deixo-me cair de joelhos e sinto-me culpado e com medo da multidão em fúria.

- Chamas-te Lopes?

- Eu não.

- E há mais?

Com a pergunta, Juliana avançou um pouco mais para Rodrigo, que em sua defesa bebeu mais um golo de cerveja.

- Neste, estou amarrado numa cadeira frente a uma televisão e só consigo mexer o indicador direito que tem ao seu alcance o botão que permite mudar de canal. Na televisão está a dar um programa daqueles de comentários aos jogos de futebol, com cobertura total e completa, antes, durante e depois do jogo, e eles dizem sempre as mesmas coisas e eu mudo de canal e é outro programa idêntico ao anterior, e volto a mudar de canal e é outro programa idêntico. A televisão tem 250 canais, ou melhor, 125 normais e 125 em réplica HD, todos a darem programas daqueles. Não me consigo libertar, não consigo respirar, sinto muito medo de perder a capacidade de pensar.

- Terrível!

Juliana acomodou-se melhor na cadeira.

- Noutro, estou a ler o jornal, que não tem letras, nem imagens – só o cabeçalho e folhas em branco, e ouço no rádio que o meu neto está desaparecido, que há suspeitas de rapto. Pouso o jornal e estou no centro de uma cidade antiga. Começo a correr pelas ruas estreitas e cheias de pessoas, procurando o meu neto, e à medida que corro as ruas vão ficando cada vez mais estreitas, até que já não consigo progredir pois a distância entre as paredes, ou seja a largura das ruas, é tão pequena que não consigo passar. Então paro e junto a mim, na montra de uma loja, está uma televisão ligada e aparece uma senhora, líder de um partido, que diz com ar grave: “A culpa do desaparecimento desta criança é do ministro da agricultura e eu, em meu nome pessoal e do meu partido, exijo que o ministro assuma as suas responsabilidades e se demita.”. Ao lado dela, um jornalista pergunta: “Mas doutora, os ministros não são nomeados para resolverem os problemas quando eles surgem? Se ele se demitir, quem assumirá a responsabilidade de resolver o problema?”. E ela irritada: “No limite a responsabilidade é do Primeiro-ministro que o nomeou. E nada mais tenho a declarar. Boa tarde.”. E eu sinto medo de perder a minha família e ninguém me ajudará a procurá-la.

- E ela vai embora sem dizer mais nada?

- Sim, e a notícia seguinte é a mesma senhora na abertura de uma feira de kiwis.

Juliana ergueu o braço e pediu mais uma cerveja e um pratinho de tremoços.

- Este último é o único que tem variantes, mas o conteúdo é sempre o mesmo. Por regra é um tipo grande e largo, vestido com um daqueles fatos integrais dos bebés, e com o cabelo cor de laranja que está a falar a uma multidão, tipo comício e diz “Os perigos são enormes, é um enorme pesadelo, mas eu irei proteger-vos sempre, protegerei sempre o meu povo dos inimigos externos, fanáticos e cruéis!”. E a multidão rejubila de alegria. E eu fico cheio de medo que venham estrangeiros e me matem. Fico com ódio aos estrangeiros.

- E quais são as variantes?

- Umas vezes é o tal tipo de cabelo cor de laranja, vê só… Outra vezes é um tipo com um fato de bebé igual ao do anterior, com o cabelo rapado dos lados e atrás e grande em cima, que dá muitos saltinhos quando fala. Outras vezes, é um tipo de barbas brancas, com uma veste comprida e larga, preta, e um turbante branco. Outras vezes é um tipo com um bigode forte, preto que fala em espanhol e tem um passarinho numa janela. Outras vezes é o tipo dos suicídios, que não fala como os outros – canta, mas este acrescenta sempre: “Mas se forem trabalhar lá para fora, para o estrangeiro, verão que nada de mal vos acontecerá.”. E eu fico com medo de sair do país.

- E é tudo?

- É. O que achas disto?

- Não sei o que diga…

Juliana e Ricardo ficaram em silêncio a observar o largo à sua frente, cheio de “populares”, enquanto eram sobrevoados por dois “meios aéreos”.

 

Fernando Couto

 

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9.8.17

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Foto: Alone - Barn Images

 

Qual foi o seu maior pesadelo? Você se lembra?

Comigo já aconteceu de ter um pesadelo brutal, daqueles em que acordamos transpirando, com o coração acelerado. Demorou um pouco para eu me recompor. E o pior é que mesmo depois de algum tempo acordada, ouvindo o barulho do vento a soprar com violência e o despencar das folhas das árvores, eu voltei a dormir. Dormir e sonhar (afinal um pesadelo nada mais é que um sonho; mal sonhado). Voltei a sonhar com as mesmas coisas que me fizeram acordar encharcada de suor. Era uma sensação ruim, como se eu não conseguisse respirar, talvez. Acho que não conseguia enxergar, faltava-me ar e pouco via, andava tateando, tentando desviar, tropeçava, acabava no chão. Sozinha, sem conseguir enxergar. Não sei quanto tempo durou esse sonho-pesadelo. Me pareceu uma eternidade.

 

Quando acordei pela amanhã, abri os olhos e tudo estava como antes. O sol a brilhar pela janela nos primeiros raios do dia. As gaivotas a grasnar, o mundo como eu conhecia, estava em seu lugar. Que sorte a minha. Tudo não passara de um sonho ruim. Retomei os meus afazeres diários um pouco mais feliz que um dia normal, mas fiquei a pensar naqueles que não tiveram a mesma sorte. Que por um infortúnio da vida, deixaram de ver, de andar, mas ainda assim não deixaram de viver.

 

Leticia Dumas

 

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7.8.17

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Foto: Girl – Claudio Scott

 

Numa luta contra o tempo acelero ao máximo tentando chegar mais depressa do que o relógio ameaça. Previsivelmente, todos os lugares de estacionamento mais próximos estão ocupados e, claro, lá tenho que voltar a estacionar numa curva de interseção entre duas ruas – sempre a desafiar o código da estrada (ousadias que já me valeram umas multazitas, um reboque e tal).

Num passo saltitante sobre o tacão alto (que jeito me faziam agora as sapatilhas!), que é um misto de elegante com desesperada, lá chego à empresa: 09h02! Vá, que até não foi mau! Não consigo perceber porque é que ando a levantar-me cada vez mais cedo e continuo a chegar atrasada!! Quer dizer, perceber, até percebo. Aquela miúda… Porque quer mais um abraço, e porque quer um bocadinho de colo, e porque deixo ficar-me a saborear umas beijocas tão boas, e porque ela tem sempre tanto para me dizer enquanto toma o pequeno-almoço… Amanhã vou pô-la em sentido!

 

Inicio no habitual e delicioso ritmo frenético da rotina laboral e, de repente, quando estou a ler um e-mail daquele Cliente que muda de ideias como quem muda de camisa, pouso o queixo sobre a mão e… Horror! Estou a senti-lo! Enorme, grosso e – imagino – mais negro que o tom de preto mais preto, um pelo no queixo!!!! Começo imediatamente numa demanda por toda a área queixal a identificar outros invasores pilosos e… sim, parece-me que, mais um, NÃÃÃOOOO!!

Mas como é que eu nunca me apercebo disto em casa?! É claro que não me apercebo porque em casa eu paro lá a pousar o queixo sobre a mão! Em casa as mãos andam sempre cheias de roupa ou alimentos, ou filhos, ou…

“Bem, esquece isto que agora tens que trabalhar.” Mas estar a trabalhar temendo que, a qualquer momento, alguém me encare e veja que estou a tentar competir com a barba do patrão… Discretamente, disponho o polegar e o indicador em forma de pinça e enceto tentativas enraivecidas para tentar arrancar um dos usurpadores… em vão!!

 

O dia lá passa e, horas depois de chegar a casa, munida de pinça e espelho encarrapito-me sobre o candeeiro da mesinha de cabeceira. O cenário é ainda pior do que eu imaginara: o meu queixo está a ser conquistado e eu quase pareço a minha avó octogenária – mas ela tem uma boa desculpa!

Enquanto arranco minuciosamente estes espetos negros do rosto, não consigo evitar um suspiro de angústia. Andar minimamente arranjada, ter a casa minimamente organizada, ter sempre ideias minimamente saudáveis para as refeições diárias (e tempo para as concretizar!), dar alguma atenção aos filhotes e ao marido, atualizar-me sobre a minha profissão para levar ideias frescas e boas para o trabalho… Como é que faço tudo isto em 24 horas (e abdicar de dormir as minhas 7 horitas diárias não é uma possibilidade)?

Termino a tarefa e dou uma espreitadela rápida às sobrancelhas que também estão a precisar de um arranjo; mas ainda se aguentam mais uns dias.

Tenho que ir surfar na minha tábua de passar a ferro porque a miúda amanhã tem um passeio e tem que levar o uniforme. E ainda tenho que magicar o que lhe vou preparar para o almoço partilhado...

 

Sandrapep

 

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4.8.17

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Foto: Hand – Gerd Altmann

 

Por vezes acontece um bloqueio face ao tema que é proposto e desta vez tal sucedeu. O significado de pesadelo é para mim demasiado lato para que tivesse conseguido, assim repentinamente, descortinar uma linha de orientação para o que fosse escrever. Assaltaram-me várias ideias, todas elas com um cariz negativo e, algumas, com uma nota vincadamente trágica.

Perder um filho. Pesadelo.

Perder a casa. Pesadelo.

Perder o emprego. Pesadelo.

Perder, perder, perder. De repente temos que o pesadelo já não toca no domínio do sonho. Dos monstros que nos perseguiam à noite e que nos obrigavam a esconder a cabeça debaixo dos lençóis e por vezes gritar pela mãe ou pelo pai.

Agora, para nós, outrora crianças, os pesadelos tornaram-se sérios. Demasiado sérios para passarem com o embalo carinhoso e um “Chiu, dorme bem meu amor. Foi só um sonho mau”.

 

Agora, que somos grandes, os pesadelos escaparam da noite. Quando surgem atacam indiscriminadamente e não olham a horas. Nem onde estamos, nem com quem estamos. Os monstros de outrora podem agora ser um chefe. Ou um colega de trabalho, um vizinho ou um familiar. Os monstros nunca foram O pesadelo, mas sim o instrumento do mesmo. Agora não é diferente.

O chefe que nos persegue. Pesadelo.

O vizinho que não nos dá descanso. Pesadelo.

O irmão que nos quer mal. Pesadelo.

Contudo, acredito que o instrumento mais recorrente do pesadelo tem o nosso rosto. Os rostos que chegam às consultas. Os rostos que anseiam por respostas a questões que, por vezes são mal colocadas. O pesadelo do descontrolo emocional. O pesadelo do abandono daquilo que já foram. O pesadelo do que outrora foi e que amanhã talvez possa já não existir. O pesadelo da culpabilidade. O pesadelo de não haver um rumo. O pesadelo de “não saber o que se passa comigo”.

Filhos, casas, empregos, chefes, vizinhos e familiares. Tudo são elementos externos. Não são o nosso núcleo, a nossa identidade, a verdadeira raiz da existência individual. Muitas das vezes perdem-se e perdem-se sem termos controlo sobre o acontecimento. Acontece o luto, a dor, o questionar, a revolta. Contra Deus, o chefe, o irmão ou o universo.

 

E quando nos viramos contra nós? E quando já não nos reconhecemos como somos? E quando já não gostamos do que vemos ao espelho? Enfim, quando somos nós o instrumento do nosso pesadelo?

 

Rui Duarte

 

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2.8.17

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Foto: Weapon – Michal Jarmoluk

 

“A História é um pesadelo do qual tentamos acordar.”

James Joyce (romancista)

 

Pesadelo... E a primeira visão mental que faço é das noites em que rebolei de forma incessante entre os lençóis de meu leito pelas mãos deste instrumento cerebral de alerta máximo de stress, tal chaleira ao lume gritando para que a desliguem. Haverá contudo uma visão de pesadelo aplicada à existência humana. É nesta que me centro.

 

Sigo as palavras de James Joyce. Que pesadelo poderá ser mais assustador que aqueles que vivemos durante o sono e logo sentimos o alívio de fazer apenas parte de um Mundo imaginário, se não aqueles aos quais não podemos mais fugir? E que vêm de encontro a nossos olhos, através das notícias, a diário? Vivemos um Mundo de pesadelos. Pesadelos reais. Fome, guerra, corrupção, um sem fim de crimes contra a humanidade das mais variadas espécies, cometidos sobe as mais variadas formas e feitios.

 

Seu antônimo... O Sonhar, torna-se pois antídoto crucial, essencial para a luta contra os pesadelos da humanidade que são sim, ao revés dos pesadelos reflexos do viver de cada um e daquilo que nos perturba a alma individualmente, um mal geral que nos atinge sem distinção. Uma espécie de pesadelo-lei que é para todos. Como tal cabe a todos nós sonhar em união para que possamos pois acordar sem pesadelos da História, num futuro que começa agora.

 

Landa Cortez

 

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31.7.17

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Foto: Portrait - Catharina Rytter

 

Pesadelos são sobretudo medos que nos perseguem, alguns nunca acontecem, outros acabam por realizar-se e percebemos que afinal não é assim tão trágico, porque esse pesadelo-medo é enfrentado e desvanece, mas há também aquele pesadelo que se realiza inevitavelmente. Foi o que me aconteceu há dias.

 

Lembro que a primeira vez que presenciei um funeral, tinha aí uns catorze anos, foi porque cismei que tinha que acompanhar o meu Pai, como de resto fazia em quase tudo, não só porque se tratava de um amigo da família, mas também porque queria perceber que ritual era aquele do qual as crianças eram banidas. É claro que me comovi, primeiro porque conhecia as pessoas envolvidas, depois porque a descida do caixão à terra impressionou-me, mas o que mais me marcou, foi perceber que um dia seria, inevitavelmente, o funeral do meu Pai, e isso aterrorizou-me. Durante anos, em todos os funerais a que assisti, na minha cabeça passava uma espécie de mantra: “Ainda bem que não é o meu Pai. Ainda bem que não é o meu Pai. Ainda bem que não é o meu Pai.” Confesso que apenas em uma ou duas ocasiões, por estar tão toldada pela dor, esse mantra não soou na minha mente.

Esta semana, o meu maior pesadelo aconteceu. O meu Pai deixou-me. Depois de ultrapassar quatro internamentos nos últimos meses, partiu pacificamente durante o sono, numa tarde de sol. Partiu como viveu: cheio de luz em volta. Minutos antes, deu-me o privilégio de deixar-me despedir dele, de lhe dizer que aceitaria quer decidisse ficar ou partir, disse-lhe que o que eu gostava dele cá, seria quanto eu iria gostar dele Lá. Pude, acima de tudo, dizer-lhe mais uma vez que se tivesse sido eu a escolher o meu Pai, o teria escolhido a ele, e que ser sua filha é o maior orgulho da minha vida. E acreditem que, apesar do momento de dor, para mim, foi uma honra estar ao seu lado quando decidiu caminhar em direção à Luz.

Inevitavelmente, um dia depois, dei comigo numa missa, agarrada a um cachecol do Salgueiros e a olhar para o meu Pai, sereno, que muito provavelmente estaria a cantarolar o “Não venhas tarde” que era o que ele sempre fazia quando queria gozar com alguém. E o meu Pai definitivamente gozaria com aquele padre… Depois, lembrei-me de uma crónica do Lobo Antunes sobre a morte do seu pai e, tal como ele afirmara na altura, também a mim só me apetecia gritar “Isto Não é o Meu Pai!”. Até que foi hora de chegar uma dor excruciante quando percebi, ali, agarrada àquele corpo inerte, que nunca mais abraçaria o meu Pai; dessa sensação nunca irei esquecer-me. Nesse momento, uma voz Amiga veio sussurrar-me ao ouvido qualquer coisa como: “Lembra-te que um dia o teu Pai também teve que te deixar ir, para viveres a tua vida, agora és tu que tens que o deixar ir a ele, para viver na Luz”.

 

Ser filha do meu Pai significa o mundo para mim: nasci de semente tardia, os meus pais já estavam praticamente nos quarenta anos, o que na altura já era considerado tarde, por isso, por brincadeira, o meu Pai e os seus amigos diziam que eu era sua neta – a Neta do Bessa – chamavam-me eles. Ainda hoje não sabem o meu nome. Tive o privilégio de ser a sua grande companheira e de o acompanhar para todo o lado, até praticamente aos 21 anos. Foi pela sua mão que fui pela primeira vez a Vidal Pinheiro, ver o clube que acabaria por se tornar a grande paixão da minha vida – porque era o clube do meu Pai, obviamente, e também porque me ensinou sobre a humildade de aceitar as derrotas e sobre apreciar as vitórias.

Uma das coisas mais fascinantes no meu Pai, é que tendo ido para a guerra colonial logo em 1961, onde assistiu a cenas inenarráveis, quando falava de Angola, tinha um brilho nos olhos indisfarçável. Contava-nos sobre a beleza daquele país e de Luanda em particular, e das suas aventuras futebolísticas, mas sempre nos poupou aos horrores a que assistiu.

O meu Pai era um homem de trabalho, não era um homem de grandes conversas profundas, ensinou-me mais com o exemplo da sua conduta do que com falinhas meigas. Uma coisa que eu também adorava nele era o orgulho com que ele falava no seu trabalho, nas casas que construía e, quando me levava a conhecer as suas obras ao domingo de manhã, eu sentia-me tão vaidosa, meu Deus, como eu me sentia vaidosa…

 

É claro que nem sempre foi fácil ser filha do meu Pai, não lhe foi muito fácil perceber que eu tinha crescido e que tinha direito a fazer as minhas próprias escolhas, mas com isso sei que conquistei o seu respeito. Muitas vezes fazia questão de me levar às festas, a mim e à minha melhor amiga, “para ver o ambiente”, ou então aparecia de surpresa para ver se estava tudo nos conformes, e sair à noite com os amigos, nem pensar! Claro que dava comigo em doida, mas hoje até disso tenho saudades.

Haveria milhares de coisas a contar sobre o meu “Herói de olhos verdes”, mas fico-me por aqui, porque neste momento o pesadelo que se abateu sobre mim não tem jeitos de se desvanecer, talvez um dia eu consiga ver através da névoa, ou pelo menos fingir que consigo ver, porque se há coisa que a vida me ensinou a construir, foi uma bela fachada. Agora só me apetece gritar, gritar muito e dizer palavrões, apetece-me apontar uns e outros na rua e dizer-lhes cara a cara que eles é que deviam ter morrido em vez do meu Pai. Sinto um grito preso na garganta que me asfixia, e visto-me de cinismo. Literalmente.

 

Nestes últimos dias não paro de me lembrar daquela ocasião em que fui com o meu Pai à bola, nesse dia foi também o meu cunhado. Foi um Salgueiros-Belenenses, num glorioso domingo de Vidal Pinheiro e na confluência da saída do estádio, vinha eu toda animada e distraída a falar com o meu Pai e, como habitualmente, dei-lhe a mão. Só que não era aquela a sua mão. O meu Pai tinha um aperto forte e uma mão áspera e calejada de pedreiro, aquela mão não tinha expressão nenhuma. Entrei em pânico à procura do meu Pai e logo percebi que eles estavam a atrás de mim, a rirem-se divertidos, tal como o senhor a quem eu tinha dado a mão: “Bessa olha, a tua neta quer ir comigo para casa!”. Isto foi numa fração de segundo, foi tempo de dar a mão e olhar para trás, mas foi o suficiente para nunca mais me esquecer do susto que foi não encontrar o meu Pai e sentir-me perdida. Eu saberia ir a pé para casa, se preciso fosse, saberia ir pedir ajuda a um polícia, sabia onde estava o carro, mas queria encontrar o meu Pai. É assim que me sinto nos dias de hoje: perdida. E hoje não há um polícia que me possa valer e nem sequer me adianta ir a pé para casa. O meu Pai morreu, partiu, deixou-me, e eu não consigo aceitar que nunca mais o verei.

 

Ana Bessa Martins

 

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28.7.17

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Foto: Girl – Jerzy Górecki

 

Um pesadelo é um sonho assustador que pode causar ansiedade e sensações muito desagradáveis. Mas também designa, na linguagem corrente, algo “que nem em sonhos” gostaríamos que nos acontecesse.

 

Foi nesta linha de pensamento que resolvi questionar algumas pessoas com que convivo sobre qual seria o seu maior pesadelo. Tive respostas diversas, desde ficar na falência, ficar sem caminhar, perder o juízo, ficar na solidão, etc. Mas a resposta mais comum foi perder alguém que se ama.

Interessante, porque aqueles que disseram que o seu pior pesadelo seria perder uma pessoa amada, são precisamente aqueles que nunca têm tempo para estar com quem amam. Porque trabalham, porque viajam, porque nunca pensam que realmente o tempo tem um fim. Então, um pesadelo, seja um sonho ou apenas um medo aterrador, pode ter um lado muito luminoso. Lembra-nos o que não se pode controlar. Mas mostra também o que se pode fazer para minimizar o efeito.

 

Um professor que tive há muitos anos dizia: “Onde está o teu pior medo? Ali? Então é nessa direção que tens que ir.”. O pior pesadelo poderá ser olhar para o passado e saber que se podia ter feito diferente.

 

Sara Almeida

 

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26.7.17

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Foto: Camera – Stafford Green

 

Saíra do trabalho por volta das dezoito horas. Naquele dia, dispensara o autocarro. Preferira o caminho a pé. Olhos haviam em todo o lado. Mesmo a pé, caminhando sozinho, não descurara os seus cuidados. Mas, naquele momento, achara que era mais prazeroso ir assim consigo mesmo e com os seus pensamentos. Permanecera fechado num cubículo durante horas. Achara que, naquele dia, merecera apreciar a brisa fresca do final daquela tarde, ainda quente, de outono.

Apesar do final de dia agradável, a cidade era negra, impregnada com cheiros descaraterizados, cinzenta e fria, tal como as pessoas. Os transeuntes, anestesiados para o mundo, indiferentes ao que se passava ao seu redor e cabisbaixos, percorriam aquelas ruas todas iguais. E era exatamente isso que se pretendia. Afinal, olhos haviam em todo o lado.

Não sei por onde vagueavam os seus pensamentos, a sua expressão mantivera-se inalterada durante todo o percurso. Imagino, apenas, que a cada passo que dava sentira-se um pouco mais perto de si e de quem era.

Chegara, por fim, a casa. Subiu as escadas do prédio, as chaves do apartamento já iam na mão. Fez uma pausa, suspirou e rodou a chave na fechadura.

Era um apartamento modesto e cinzento, tal como o resto da cidade, primado pela limpeza e pela organização. Tinha apenas uma divisão e uma pequena janela, que não deixava entrar muita luz. Ao fundo do lado esquerdo encontrava-se a cama; olhando para o lado direito tinha a cozinha e a mesa de jantar.

 

Ao entrar em casa, ligara logo a televisão, que se encontrava no centro da única divisão da casa. No mesmo canal de sempre e com programação, digamos, seletiva. O alerta passara, agora, para o nível máximo. Os cuidados com os gestos, movimentos e expressões redobraram e a anestesia voltava o fazer o seu efeito.

Tirou do mini frigorífico as sobras do jantar do dia anterior e saboreou-o com o gosto amargo de quem sabe que até isso é controlado. Lavou a loiça, pois impecavelmente limpo e organizado era ordem, e preparou-se para dormir.

Deitou-se olhando para o teto com a indecifrável expressão que o acompanhara sempre. Adormeceu, enfim. Era no son(h)o que começava realmente a viver, livre. Amanhã, quando acordar, a anestesia voltará a fazer o seu efeito.

 

Sandra Sousa

 

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24.7.17

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Foto: Humanitarian-aid - Skeeze

 

“- Anda daí!”.

Uma mão luminosa e transparente estende-se na minha direção. Elevo o olhar, um ser com uma luz esbranquiçada e figura humana que mais parece um holograma, faz um pequeno aceno com a cabeça, incitando a que eu lhe pegue na mão translúcida. Subitamente, de mãos dadas, sinto o meu corpo ficar suavemente mais leve, como se eu me transformasse num ser de energia translúcida como aquele que me levava.

Refeita da surpreendente transformação que vivia, contemplo do espaço a cidade iluminada, os pontinhos alinhados da iluminação das pontes sobre o rio. O nosso voo etéreo desacelera e sobrevoamos o centro do país. Longos troncos inertes elevam os seus ramos negros aos céus como preces. Sinto o cheiro intenso da morte e das cinzas. Estranhamente ecoam na minha cabeça os lamentos de dor daqueles que tudo e todos perderam.

Aquela mão abruptamente puxa-me acelerada. Agora sobrevoamos o Atlântico em direção a sul. Aquele ser transparente mostra-me agora os milhares de refugiados que mal sobrevivem nos Camarões, fugidos das atrocidades que viveram na República Centro-Africana.

Mais a sul, vejo uma adolescente a ser mutilada, privada de todos os prazeres sensoriais. Com o choque o meu corpo torna-se pesado, materializando-se.

Mas um novo impulso do ser de energia que me leva, transporta-nos a Moçambique. O meu coração despedaça-se de dor ao sentir o pavor dos albinos que são sequestrados e assassinados a troco de dinheiro para alimentar crenças e abomináveis ambições.

Novo voo à velocidade da luz. Consigo vislumbrar um bote de borracha no Mediterrâneo. Sobrelotado. Novamente ecoam na minha cabeça, o choro dos bebés, ressoam em mim os pensamentos, receios, expetativas dos que vão em busca da paz, de sobreviver na Europa.

 

Um calor febril invade-me. Os cabelos húmidos colam-se ao rosto e à almofada. Acordo angustiada. Sento-me na beira da cama. Mãos na cabeça, curvada sobre mim, repito monocórdica, “- Que pesadelo! Que pesadelo!”.

Delicadamente materializa-se na minha cabeça uma voz inaudível.

- Pesadelo? Não! Realidade! A tua realidade! A realidade do teu mundo! E agora, o que vais fazer? Ficar indiferente?

 

Tayhta Visinho

 

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21.7.17

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Foto: Woman - Pexels

 

As coisas terrivelmente más nunca nos acontecem, são coisas de filme, ou daqueles livros cheios de tentáculos por dentro, que saltam das páginas, se agarram à nossa garganta e nos sugam todo o ar, até que a palavra “FIM” nos resgate (do prazer) do sufoco. E nós, esgotada a adrenalina do suspense e da emoção extrema, voltamos lentamente ao mundo real, ao mundo seguro, à nossa vidinha de trazer por casa.

É claro que a nossa vidinha de trazer por casa também tem lá as suas tragédias, tramoias e sobressaltos. Claro que tem – ah, se tem! Mas, como diz o outro, haja saudinha! A gente vê, por esse mundo afora, problemas tão maiores que os nossos! Longe, tão longe de nós. Mesmo que seja na casa da vizinha.

A verdade é que nunca estamos preparados para o pior. Nunca. É instintiva e natural, essa íntima e falsa certeza de que nos armamos, em legítima defesa. Estratégia de sobrevivência, com certeza. Esperança. Fé. Ou, simplesmente, distração calculada.

 

Mas uma coisa de que não nos conseguimos livrar, é de, de vez em quando, ter pesadelos. Dormindo, baixamos guardas, distraímo-nos por cansaço e, de repente, tropeçamos num pesadelo. Daqueles. Dos piores. Dos que nos saltam à garganta, nos gelam por dentro, nos certificam seres frágeis, nos destroem todas as forças e nos fazem querer... ia dizer “morrer” – mas não, vou dizer “acordar”. Olhamos em volta e pensamos: “Isto não está a acontecer-me... isto só acontece aos outros, não a mim. E mesmo quando acontece aos outros, é longe, muito longe de mim. Como é possível?... Não, não é verdade, até porque esta dor que sinto é humanamente insuportável. Não se sobrevive a ela. Não. É um pesadelo. Horrível. Amanhã, quando acordar, nem sequer quero ter memória dele, porque tenho a sensação que, nem contado, nem lembrado, isto seja coisa a que seja possível “sobreviver.”

Espera-se a manhã até a dor da alma passar ao corpo, ou a dor do corpo passar à alma, conforme o pesadelo. E a manhã não chega. Toma-se um sonífero, meia dúzia, para voltar a dormir, para voltar ao sonho, para fazer rewind, desmantelar a cena, redirecionar todo o enredo. Mas nada. Nada: acorda-se para dentro do mesmo pesadelo, agora ainda mais negro, mais arrasador. E todo o nosso corpo a negar ter forças para o aguentar. E, com o nosso já pouco discernimento, só podemos continuar a afirmar veementemente, por puro instinto de sobrevivência, que tamanho horror só acontece aos outros, muito, muito longe de nós. Ou... em pesadelos. Ou em pesadelos, claro. “Isto é um pesadelo. Daqui a pouco acordo e não é nada.” (sorriso frio, perdido dos olhos) “Acordem-me!”.

 

Devagarinho, acabamos por acordar. Não é um processo fácil, não é um processo inócuo, mas acordamos. Dali a meses, anos, vidas. Mas acordamos.

O tempo é, na verdade, o outro significado da palavra esperança. Mas a palavra pesadelo, perderá, para sempre, o significado de sonho.

 

Teresa Teixeira

 

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17.7.17

Baby-JoshuaByrne.jpg

Foto: Baby - Joshua Byrne

 

Que belo dia de verão. Não tenho vontade de fazer nada, quero ficar aqui, debaixo do sol, o dia inteiro. Quero esquecer a vida amarga que digo ter escolhido, quero fugir daquela criatura que se pavoneia no meu estado civil. Sei como cheguei aqui. Na verdade, soube cada passo que dei antes de o dar, pesei prós e contras e nunca me atirei de cabeça a coisa nenhuma. Sei-me sob o escrutínio dos outros e nunca, nunca, me coloquei à mercê deles. E agora, que ironia, por causa desta mulherzinha, arrasto-me pela lama da vulgaridade, sem sequer ter escolhido ser parte deste enredo. Dá-me muito mais trabalho limpar o que ela conspurca do que a azáfama da minha, muito pública, vida profissional. E, no regresso a casa, o vazio que se instala dentro de mim, a solidão de uma gaiola dourada, fria e luxuosa, pesa mais do que qualquer outra coisa. Nunca estive tão só quanto estou com ela, esta pessoa infeliz mas determinada em ficar, cansada, militantemente queixosa, persistente nesta derrota que aceita como um mal menor. Talvez se convença disso, não sei mas, a mim, já não me restam ilusões. As que insisti em manter, foram-me arrancadas da pele no dia em que a soube nos braços de outro tipo. Não me lembro de a ter enganado, de a ter convencido a ter o nosso filho, tão pouco me lembro de a ter obrigado a ficar comigo, por essa ou por qualquer outra razão. Por que raio me fez isto? Nos fez isto? Por que não partiu, simplesmente, em busca das migalhas que, afinal, a preenchem? Por que me obrigou a viver aquilo que nunca escolhi para mim? E, como foi ela pensar que conseguiria esconder algo assim, quando toda a gente me conhece? Quebrou-se o encanto, aquela centelha de magia que me fazia pensar que ela era diferente de todas aquelas que, durante décadas, evitei com mestria e sensatez. Restava em mim alguma ingenuidade que era preciso eliminar, mostrou-me a vida, impiedosa.

Apesar de nunca ter casado, desejei secretamente alguém que pudesse partilhar a minha vida, talvez amar-me o suficiente para me permitir viver feliz e tranquilo. Porém, nos dias de maior vulnerabilidade, o meu medo da solidão foi muitas vezes apaziguado pelo relato sórdido dos colegas com vidas duplas: pior do que estar só seria viver como eles, pensava eu, sem descanso, sem verdade, naquele torpor que não parecia levá-los a lado nenhum. Quanto mais relatavam, quanto mais vazios se mostravam, mais sentido me fazia estar comigo próprio e esperar a pessoa, a tal pessoa que estaria a anos-luz daquelas almas perdidas. Fugi daquelas vidas como o diabo da cruz, não queria estar ali e ser alvo de chacota, não queria jamais sentir-me traído, perdido, magoado. Nada me parecia mais terrível. Durante muitos anos, achei que o meu sexto sentido nunca me enganaria. Prestei atenção a tudo o que ouvi, aprendi a ler nas entrelinhas. Conseguia cheirar um “golpe do baú” a milhas de distância, senti-me seguro e confiante.

 

Conheci-a depois do meu pai ter partido, quando a vida se fragmentava perante os meus olhos. Gostei da sua ternura, da voz doce, das boas maneiras, da delicadeza do seu sorriso. Naquele momento de dor, havia chegado a serenidade, o amor, a partilha. Abracei-a, sem defesas, fui criança de novo, brinquei com ela, deixei-me fascinar e, sem me dar conta, ela tomou o seu lugar na minha vida. Em breve, seríamos três. Foste enganado, arriscaram os “amigos”… Não, não fui. Seria um crápula se o dissesse. Planeamos este filho juntos. Talvez a vida tivesse levado o meu pai e, agora, me trouxesse um filho. Uma vida por outra vida, quis eu acreditar. Construí a minha razão e embarquei nesta aventura com ela, de mãos dadas e sem plano bê. Ainda antes da nossa curta lua-de-mel, pedi-lhe que, se as coisas mudassem dentro dela, me respeitasse o suficiente para não me mentir. Disse-lhe, olhos nos olhos e de coração aberto que, se alguma vez se sentisse sufocada, presa numa vida sem sentido que podia, a qualquer momento, sair dela. Que nunca a faria ficar contra a sua vontade, se esta não fosse plena. Doravante, também ela passaria a estar na mira de toda a gente, como minha mulher, como mãe do nosso filho, e que o peso disso podia tornar-se insustentável. Só pedi honestidade, lealdade e integridade.

 

O sorriso e a ternura desapareceram muito tempo antes do seu envolvimento com um colega meu. A intimidade, essa, havia desaparecido, ainda na gravidez e mantinha-se neste segundo ano do nosso filho porque “as coisas demoram o seu tempo”, porque “o Gonçalo tem noites irregulares e precisa da mãe” e uma série de outras razões que me fizeram esquecer as curvas do seu corpo, outrora, aninhado no meu. Culpei as hormonas, a falta de descanso, a recente maternidade, dei-lhe todo o espaço do mundo. Não vi a amargura a instalar-se, não percebi a tremenda inconformidade que habitava nela e que agora, sem resguardo, estava prestes a explodir. Pensei estar a dar-lhe liberdade, mas deixei-a simplesmente à deriva. Sem entorno nem retorno. Soube o que ela tinha feito, no dia em que se encontraram frente a frente pela primeira vez. Não queria voltar a casa nesse dia. Não queria sentar-me com ela, olhá-la nos olhos e ter de lho dizer. Não queria. Parte de mim gostava genuinamente de a poder fazer desaparecer, com um simples estalar dos meus dedos. Mas voltei a casa, sentei-me com ela e disse-lho, sem gaguejar, com a outra parte de mim: a que lembrava o Gonçalo e o facto de ela ser, eternamente, sua mãe. Queria um fim para este pesadelo.

Não lhe disse, todavia, que jamais voltaria a confiar nela. Não lhe disse que, naquele dia, me repugnava olhar para ela e que a sua mera presença me incomodava. Não fui capaz. Disse-lhe que se fosse embora. Que não aceitava viver exposto, defraudado. Que a apoiaria sempre, que não faltaria com nada ao nosso filho que tanto amo. Não lhe disse que queria, mais do que tudo, que ela desaparecesse, que saísse da minha vida e me deixasse recuperar a tranquilidade da minha solidão. Engoli em seco, disse-lhe que não teria aquela conversa uma segunda vez e que haveria consequências desagradáveis se ela repetisse a graça. Contudo, se ela partisse naquele momento, assegurei-lhe, não haveria lugar a azedume ou a “lavagem de roupa suja”. Achei-a aliviada enquanto eu falava, achei-a prestes a aceitar a minha proposta e a agarrar a liberdade com que a presenteava. Mas ela não foi embora. Suplicou, chorou, deixou-me sem resposta. Pediu para ficar, disse que tinha cometido um erro e que não queria deixar de ser minha mulher – perguntei-me se alguma vez o tinha sido. No meio das lágrimas abundantes, disse que queria criar o nosso filho comigo, como uma família. Falou tanto, disse coisas sem jeito, entre lágrimas e gritos histéricos; falou sem parar e eu só queria que ela se calasse. Quando consegui balbuciar algumas palavras, não fui capaz de lhe dizer que não a queria comigo. Assim que me sentiu hesitante, ela aceitou, sem questionar, as condições que cobardemente lhe havia oferecido e varreu o lixo para debaixo do tapete. Estalou os dedos ainda antes de eu conseguir tirar as mãos dos bolsos. Estava feito.

 

Decidiu permanecer comigo, nesta vida que lhe parece mais aceitável do que ter de a enfrentar sozinha, mas não houve magia ou mudança. Simplesmente deixou de camuflar o que sente, toda ela irradia inconformidade e apatia. Quanto mais se acomoda, menos ternura lhe resta. E aqui estou eu, nem sei eu bem porquê, preso a tudo o que não fui capaz de lhe dizer, refém daquilo que finjo aceitar. Hoje ela saiu para levar o Gonçalo ao colégio e ir ao ginásio. Vê-los sair encheu-me de alegria. Está um dia maravilhoso, a casa permanece em silêncio, o ar é leve, dentro e fora de mim. Só por algumas horas, quero desligar o telemóvel, o cérebro e o coração e dormir, sem preocupações e angustia. Talvez acorde deste pesadelo a que chamo vida e tudo esteja, afinal, no seu devido lugar.

 

Alexandra Vaz

 

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14.7.17

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Foto: Maldives – David Mark

 

Tirando as aderências que não vêm ao caso, o Homem é um ser maravilhoso, positivo, confiante, voluntarioso. Pode ser apenas imediatista e não olhar ou não se aperceber de nada mais do que aquilo que está à mão, e ao tempo, de semear. Sem ser para semear, bem entendido, mas para usufruir. Pode ser calculista, do tipo não dar ponto sem nó, cada passo é dado, cada palavra é dita, ou não, em função de planos, objetivos futuros, interesses próprios. Nenhuma destas descrições, quase que extremas, pretende ter qualquer intuito qualificativo, apenas descritivo.

Aceitamos o presente e vamos tirando partido dele. Não se têm expetativas, nem desesperanças. Fazemos do momento plataforma e impulso para conquistas futuras. Enriquecer, ser promovido, poderoso, viajar para aquela praia ou montanha do outro lado do mundo. Ou ter como prioridade ajudar, direta ou indiretamente, quem achamos que está desvalido, temporária ou perenemente.

E tanto uns como os outros, os que aceitamos geralmente o presente, situação após situação, anos após ano, como os que temos anseios mais evidentes e que deles fazemos alavancas do viver, o praticamos aos 15, como aos 30, como aos 50 anos. Com a evolução da esperança de vida, mesmo aos 70 anos e mais além. Haverá que retirar da equação a primeira dezena de anos de vida, quando ainda não temos grande, ou nenhuma, consciência da nossa transitoriedade neste mundo. De resto, fazemos tudo sabendo e experienciando que nascemos sem trazer nada connosco e morreremos, mais cedo ou mais tarde, sem levarmos nada.

 

A vida podia ser um pesadelo constante, contínuo, envolta numa ansiedade insuportável e paralisante. Mas não é. Tem momentos, fases, mas na realidade conseguimos sonhar - aos 5, 10, 20 ou 70 anos - e fazer dos sonhos, do dia-a-dia, de uma ou outra maneira, o comando da vida. É assim, com quase todos nós e é, apesar de vulgar, extraordinário!

 

Jorge Saraiva

 

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12.7.17

Walkers-Anja.jpg

Foto: Walkers - Anja

 

O conceito de pesadelo aparece-nos quase sempre associado a um sonho mau, fortemente perturbador. Daí se desabafar vulgarmente, quando tal acontece, com as seguintes expressões: "esta noite tive um sonho mau; vivi um autêntico pesadelo". Contudo, o pesadelo não ocorre apenas nos sonhos, não é deles exclusivo, porquanto, e embora em sentido figurado, na realidade do dia-a-dia, também é comum surgirem, não raras vezes, pesadelos resultantes de terríveis preocupações e de pensamentos negativos.

Durante a vida experimentamos as mais diversas sensações amargas e penosas: umas, que são causadas por fatores endógenos, inerentes à própria pessoa, quase sempre acompanhadas por um forte sentimento de medo de se poder vir a realizar ou a concretizar algo muito desagradável; outras, por circunstâncias exógenas ocorridas na sociedade ou na comunidade em que se está inserido, que poderão constituir um autêntico suplício quando interiorizadas, partilhadas ou vividas de perto, nomeadamente, numa situação de grave crise financeira, sujeição a um arbitrário e injusto silêncio e à tortura de notícias repetidamente noticiadas na TV e nos jornais sobre determinados acontecimentos trágicos.

Todavia, apesar da carga negativa que encerra um pesadelo, começa a vislumbrar-se a teoria de que é preciso repensar a função do pesadelo na sociedade, na justa medida em que dele possam advir alguns benefícios reais. O pesadelo, enquanto importunação, agrura ou algo profundamente desagradável, não será sempre inelutável, pode mesmo ser vencido desde que saibamos gerir as adversidades da vida de forma a que estejamos preparados quando as coisas acontecerem. Por isso, devemos ter sempre presente a máxima de que, a razão pensante tudo pode remediar.

 

José Azevedo

 

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10.7.17

Hands-SimonWijers.jpg

Foto: Hands – Simon Wijers

 

Sim, num minuto tudo acontece e desaparece. É apenas preciso esse momento para que haja surpresas, desilusões, as maiores alegrias e as maiores tristezas.

Num minuto deito-me e adormeço, pois o cansaço de muitos minutos vividos intensamente é grande.

Num minuto acordo, pois o pesadelo trouxe consigo um susto imaginário mas quase palpável de tão real.

Num mesmo instante decidimos fazer algo bom e recebemos uma notícia que nos derruba.

Derruba não! Pois no minuto seguinte explodimos e deitamos tudo cá para fora e o pesadelo diminui, pois já conseguimos começar a racionalizar.

 

Quem disse que as coisas são fáceis, enganou alguém. Quem ouviu que poderia conseguir o mundo pois está nas nossas mãos, não ouviu tudo... Será que ouviu falar dos pesadelos que aparecem e desaparecem num minuto mas que marcam todo o nosso ser? Sim, é assim que crescemos. Mas às vezes preferia ficar criança para sempre.

Num minuto vemos uma criança rir, noutro minuto deixamos de a ouvir e verificamos que está mal, muito mal. Esse pesadelo de um minuto fica a assombrar-nos sempre, sempre...

Num minuto passeamos pelos bosques, com música alta, ou em silêncio apenas a ouvir os passarinhos. Noutro instante tudo desaparece e fica cinzento à nossa volta, incluindo nós próprios e a alma de quem gosta de nós.

Como terminar estes minutos de pesadelos e alegrias? Não se terminam, vivem-se.

 

Sónia Abrantes

 

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7.7.17

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Foto: Girl – Tania Van den Berghen

 

Chegámos cedo para arranjar lugar de estacionamento e lugares sentados. Não fomos os únicos previdentes pois, muito antes da hora marcada, já reinava grande confusão. O portão de ferro, aberto de par em par, dava acesso a uma Alameda de plátanos tão podados e desramados que não se faziam notar, nem tinham qualquer serventia a quem quisesse usufruir da frescura de uma sombra.

O clique das máquinas fotográficas já se fazia ouvir. Junto aos buxos e às azáleas que ainda resistiam e se recusavam a dar a vez aos agapantos, ou a outro arbusto que compusesse uma fotografia, raparigas de vestidos justos a mostrarem corpos balofos e descuidados, punham-se em pose curvilínea, ou muito direitas com uma perna fletida ligeiramente à frente da outra. Mãos na cintura, costas voltadas e cabeça a pender para trás com olhar de felina provocadora, pediam para serem imortalizadas numa fotografia. Trocavam de perna e fletiam a outra. Passavam os dedos nos cabelos contrariando o movimento natural, desgrenhadas e selvagens, estavam prontas para mais um registo e ouvia-se mais um clique.

 

O toque do sino deu início à cerimónia.

Entrámos na igreja e já o padre se dirigia às crianças vestidas de branco com os cabelos a descerem em cachos acentuados com pérolas e laçarotes, carinhas de anjo que ocupavam as primeiras filas com a solenidade que o momento pedia.

Atrás de mim um jovem conversava com o pai – o grau de parentesco é da minha imaginação. Manifestava-se indignado por alguém que eu não ouvi o nome, não estar ali com eles. E ganhava créditos aos olhos do progenitor lembrando-lhe que quase não dormiu porque a festa durou até tarde, mas a ocasião exigia que todos estivessem presentes. Os telemóveis tocavam e as pessoas não se acanhavam de os atender e de darem informações sobre a sua localização dentro da igreja para que, quem ligava, se juntasse a elas.

A cerimónia era longa e os mais pequenos começavam a dar sinais de impaciência, gritavam e pediam colo, ou pediam chão os que estavam ao colo. Havia muito movimento na entrada da igreja. As pessoas saiam e entravam, pediam licença, um jeitinho ou um empurrão disfarçado com um sorriso, mas não paravam. Não sei as razões que as levavam a esse perpétuo movimento, mas podia jurar que entrando e saindo se mostravam. Mostravam modelitos coloridos e floridos, transparências, carnes com pouco tecido e panos a arrastar e a exigir agilidade para não tropeçar nos tacões de agulha. Mostravam tranças apertadas ou lassas, madeixas soltas a dar um ar de liberdade e naturalidade aos cabelos que só assim se mantinham por estarem espargidos de laca. Lá à frente, o padre continuava a esforçar-se para manter os catequizados interessados e incutir nos adultos a responsabilidade de ajudar aquelas crianças a viverem sem perder de vista os preceitos católicos.

Finda a cerimónia, nova sessão de fotografias, agora com os catequizados a quem eram entregues pequenas lembranças para imortalizar um dia assim tão importante.

Era a hora de continuar a celebrar, mas num almoço tão abastado que o futuro nunca apague.

 

O dia findou e eu perguntei-me quantos dos que ali estiveram saberiam o que de verdade aconteceu. O investimento pessoal e a felicidade que os rostos irradiavam davam sentido à cerimónia, o sentido de cada um. E chegou a altura de dizer, para não ficar mal no retrato, que cada um dá o sentido que quer e vive as coisas conforme bem entende. As razões de cada um não são aqui discutíveis e também não serão as minhas que vejo na primeira comunhão a alegria interiorizada da primeira eucaristia e a reunião em e com Cristo Nosso Senhor.

Menos que isto, para mim é vaidade, futilidade, pesadelo.

 

Cidália Carvalho

 

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5.7.17

Girl-AdinaVoicu.jpg

Foto: Girl – Adina Voicu

 

Quando me sinto impotente perante o sofrimento dos outros pareço pequenina. Penso, dou voltas à cabeça, peço ajuda e o sentimento de pequenez continua presente.

É-nos dito, frequentemente, que o sofrimento nos modifica, nos faz ver as coisas que nos acontecem posteriormente com a relatividade que elas merecem. Que me faz sentir impotente, faz; se me proporciona alterações internas, talvez, para o bem e para o mal; se me ajuda a ver as coisas com a relatividade que elas merecem, não sei… talvez só com algumas pessoas.

O sofrimento, no sentido lato do termo, aprisiona-me, seja ele dirigido a mim, como pessoa, seja ele dirigido aos outros e, particularmente, aos que me são mais próximos. Talvez eu já tenha passado por situações em que o sofrimento me revoltou, me fez crescer, me fez ver as coisas com mais relatividade; não sei. Sei que me lembro profundamente de todas as situações que me provocaram sofrimento e não gosto das recordações. As recordações trazem-me sentimento de angústia. Prefiro não lembrar. Mas para algumas situações a lembrança é inevitável. Ver sofrer aquela pessoa que me é muito próxima, cujo amor que se sente é único e diferente de todos os amores que sinto por outras pessoas e, quando não posso fazer nada, porque não está nas minhas mãos ajudar a alivia-lo, é um pesadelo!

Eu arrisco dizer que é assim com todos nós.

 

Ermelinda Macedo

 

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