27.3.17

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Foto: Scream - Mandyme27

 

Sobre o Grito:

Deu origem a uma obra de arte norueguesa que retrata o desespero e a angústia;

Não é possível dar um grito na fase REM do sonho pois, com a exceção dos músculos dos olhos e respiratórios, os músculos ficam paralisados.

Ajuda a diminuir a dor física. Alguns estudos indicam que enquanto se grita, o cérebro fica com menos espaço para assimilar a dor, fazendo com que a perceção da dor diminua.

Gritar ajuda a espartilhar a dor que vai na Alma. E aqui Gritar não é no sentido de gritar com raiva para as outras pessoas. É gritar para o Universo, é soltar a voz, é deixar que a dor seja vomitada sob a forma de um som. É a antítese do silêncio que grita o som mais perigoso de todos, que é o silêncio do já nada mais vale a pena.

A vida vale um Grito... vale todos os gritos que tiverem que ser lançados no ar.

Gritar.... gritar muito. Depois, com tranquilidade no rosto, seguir em frente rumo à vida!

 

Sara Almeida

 

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24.3.17

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Foto: San-Francisco – Itsa WaB

 

Já era tarde. Ana estava deitada, já fazia algumas horas. Rolava na cama, mas não conseguia dormir. Ana levantou a cabeça e olhou o relógio que herdou da avó, e o barulho do relógio a fazer tic-tac-tic-tac, fazia lembrar que prometera se desfazer do relógio já fazia tempo, mas toda manhã quando se levantava e pegava o relógio, lembrava-se de ouvir o mesmo som na casa da avó, quando despertava. Era sempre domingo e cheirava a bolo de banana. A promessa da madrugada se desfazia e ele ali permanecia.

Estava calor e as folhas das árvores não se movimentavam. Ela sentia-se sufocada, trocou a roupa por uma mais leve, mas nada parecia ajudar. Já faltavam poucas horas para se levantar quando ela, enfim, pegou no sono.

Sonhou que caia num buraco muito profundo, ela gritava com toda sua força para alguém resgatá-la, mas ainda que ela gritasse muito, ela só ouvia o silêncio. Era como se aquele buraco fosse o espaço, onde o som não se propaga. E mesmo que ela gritasse até não ter mais forças, ninguém conseguiria ouvi-la.

 

Ana acordou cansada, foi para o banho a pensar naquele sonho estranho que tivera.

Lembrou o quanto se sentia sufocada por ter um trabalho que detesta, mas fica calada. Lembrou, também, há quanto tempo não tem férias e nem sabe quando terá, mas segue calada. Também lembrou que precisa buscar as crianças e ir ao mercado depois do trabalho. Estava exausta. Vestiu a roupa apressada e seguiu.

Enquanto estava guiando, lembrou novamente do sonho. Ouvia música. Sentiu uma vontade de chorar imensa. Soltou um grito. Há muito barulho na cidade, ninguém pode ouvi-la.

 

Leticia Silva

 

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20.3.17

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Foto: Doll - Alexandra

 

Logo de manhã, cerca das nove horas, ouve-se o primeiro grito. Claro que este é seguido por outros, curtos, intensos como os gritos devem ser. Sentado na secretária capto o estímulo auditivo. Preciso apenas de uma fração de segundo para o integrar e compreender. A única ação da minha parte é partilhar com a minha colega de gabinete: "É o F.". Evidentemente que tal era desnecessário. A minha interlocutora não precisava que lhe dissesse de quem se tratava. Não porque o F. seja o único a gritar no local onde trabalho. É sim apenas mais um que também grita. O grito é-nos familiar pelo volume, timbre e colocação. O F. não fala. Nunca o fez. Também não anda e depende de terceiros e de uma cadeira de rodas. Geralmente o F. tende para a indisposição e isolamento. Comunica de forma muito rudimentar e maioritariamente as expressões comunicativas prendem-se com a satisfação de necessidades básicas. Comunica com o corpo, mobilizando as partes que consegue e expressa-se com o som, ausente de palavras mas com contundência relevante.

 

A M. entra de rompante no meu gabinete. "Ó Rui..." inicia ela antes de ser interrompida por mim com um "Bom dia M.". A interrupção surte o efeito desejado e ela responde de volta "Bom dia Rui", colado ao que a levou ali: "Bom dia Rui, quero o desenho de um palhaço". A rapidez com que entrou, a forma como se mexeu, o modo como falou e a sua imagem corporal revelam imediatamente que a M. não está bem. Dou-lhe o desenho e digo-lhe para ir para a oficina de pintura. A experiência por vezes antecipa de forma rigorosa o futuro e, claro, passado algum tempo ouço os gritos. Vêm da esquerda da minha porta e são os habituais. Alguns sem conteúdo, outros insultuosos. Murros nas portas, vidros e cuspidelas. E mais gritos e insultos. A M. é acompanhada para uma sala para efeitos de vigilância e segurança.

 

O C. passa grande parte do seu dia sentado na cadeira de rodas adaptada. Tem paralisia cerebral e não fala. Abre o sorriso quando me vê e agita os braços descontroladamente. Fá-lo não por querer, apenas porque não consegue controlar a tonicidade muscular. Quando olha para a minha mão ele percebe ao que venho. Tal como lhe prometi trago-lhe uma revista nova de automóveis. Recebe-a nas mãos e quase a rasga, enquanto expressa a sua gratidão com sorrisos e gritos. Muitos.

 

O grito é um instrumento comunicativo poderoso. É universal. Pode comunicar uma situação de urgência, dor, desconforto, necessidade e até alegria. A comunicação Humana, como todos sabemos, é extremamente complexa. Reveste-se das mais variadas formas e intencionalidade. O grito é apenas mais um veículo de comunicação. E este foi apenas mais um dia.

 

Rui Duarte

 

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17.3.17

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Foto: Crayon – Mari Kanezaki

 

Eu gostaria de perceber por que motivo é tão difícil ser-se mediana numa vida mediana. O esforço deveria ser mínimo, o sofrimento residual.

Mas, em vez disso, corro. Corro sempre. Atrás de comboios que não consigo apanhar – porque são mais rápidos do que eu, ou porque eu sou realmente mais lenta.

E, sempre a correr, QUERO AGARRAR TUDO, TODOS! Alguma coisa, alguns... um quase nada.

Tomar consciência de que não consigo alcançar o que me proponho e de que cada vez alcanço menos, apesar do esforço ser cada vez maior é… frustrante (não era bem esta palavra que gostaria de utilizar, mas ficamos assim).

 

E porquê? PORQUÊ?

Decerto é a idade que já me pesa nos ombros (não, a idade não é muita; os ombros é que são fracos). Ou então, um excesso de falta de alguma coisa que não consigo bem identificar. Coragem? Paixão? UMA CERTA DOSE DE REALISMO?!?!

E por vezes, apetece… Era pegar numa borracha, apagar o que está mal. Como quando em miúda desenhava no Paintbrush; ali era sempre possível começar de novo, tentar fazer melhor.

Mas, pensando bem, eu nunca tive muito jeito para desenho.

 

Sandrapep

 

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15.3.17

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Foto: Reading - Unsplash

 

Diariamente, cumpria com minúcia a sua rotina. Acordava, aprumava-se com o seu fato bem passado e asseado, alimentava os peixes do aquário e saía para o trabalho rotineiro no escritório de contabilidade. Durante o dia, raramente levantava os olhos da secretária. Abstraído no seu trabalho, nem reparava nos colegas, aliás estes nunca lhe ouviram uma palavra sequer! À hora marcada saía e regressava a casa para mergulhar nos seus livros, ou então ocupava o tempo a pesquisar e comprar novos livros online. Repetiu todo este ciclo de rotinas anos e anos.

 

Naquele dia, enquanto tomava o seu café na pausa da manhã, percebeu que os colegas falavam dele, que o achavam estranho e desinteressante, alguns sentiam até medo dele, temendo que fosse um gélido psicopata. Mas o maior choque foi o dar-se conta do nome que lhe chamavam: o Senhor Silêncio! Para eles, silêncio era algo oco, insípido, sem vida. Perguntou-se o que é o silêncio? O silêncio é o som inaudível! O seu silêncio era cheio de vida, um turbilhão de ideias, desejos, pensamentos, sons e movimentos agrilhoados dentro de si, querendo explodir!

 

Nessa tarde, saiu mais cedo do trabalho e dirigiu-se ao ponto mais alto da sua ilha, uma bela escarpa sobre o oceano. Nunca tinha visitado aquele local e, por entre as árvores, subiu a escarpa até atingir o seu limite. Contemplou maravilhado toda a extensão daquele mar de um azul intenso que se dissolvia na suavidade do azul do céu. Subitamente, um borbulhar de movimentos dentro do seu peito deflagrou num potente, prolongado e lancinante grito que rasgou os céus. Aves esvoaçaram precipitadamente sobre as árvores, o mar agitou-se desenhando ondas gigantes que se desfizeram na escarpa. Liberto de todo um mundo paralelo, encarcerado dentro de si, desceu a escarpa cantando alegremente em direção à povoação.

 

Tayhta Visinho

 

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13.3.17

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Foto: Water – Martin Winkler

 

O acaso é tramado. Foi ele que nos apresentou. Deu-nos a conhecer um ao outro, sem ele próprio antever no quão profundo isso se tornaria. Mas o acaso também é trapaceiro e malandro: tira em igual medida que dá e, hoje, ao acaso junta-se a distância.

Hoje, o acaso deu-nos a distância de sermos duas ilhas separadas por um oceano que nos parece imenso. Mas nem essa quantidade de mar abalou a primeira cumplicidade que se sentiu, apenas, nos nossos olhos. Sim, as palavras vieram depois. Ah, as palavras! E com as palavras a partilha, o conhecimento do ser, a descoberta do ser que quer ser só contigo. Se o acaso nos apresentou, a distância foi a responsável por nos juntar.

Descobriste-me o mundo, aquele que fui e que vou sendo; descobri-te o mundo que és e vais querendo ser. Sossegámos os gritos ensurdecedores, mas silenciosos, de ser-se quem se é e que habitam nas profundezas de algo obscuro, que guardámos nem sabemos onde. Os segredos mais íntimos, não partilhados, agora revelados e descobertos nas palavras escritas à distância.

E porque sossegaram esses gritos? Porque ousamos partilhá-los um com o outro nesse mundo onde nos libertamos do peso de ser quem somos.

Agora, o grito silencioso que ecoa é o da distância, esse que percorre todo o mar que nos separa e que acaba na onda que banha a areia dessa praia. Por enquanto, resta-nos o eco daquilo que poderia ter sido. Também pode ter-se saudade daquilo que não aconteceu, não pode?

 

Sandra Sousa

 

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10.3.17

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Foto: Martin-Luther-King - Skeeze

 

Grita-se por tudo e por nada e, literalmente, até podemos considerar uma forma de expressão. Pode-se viver a vida gritando como forma de se fazer notar, ou para impor-se autoritariamente. Não é um estilo, mas sim uma doença. É muito aborrecido ser-se invisível! Ir ao futebol e não gritar contra o árbitro é sinal de doença! Ir a uma manifestação e não gritar é quase o mesmo que não estar! Mas pensar nas grandes tragédias humanas no último século sem se revoltar é de uma grande ignorância.

Atualmente o Homem é marcado por acontecimentos para os quais se convoca a nossa atenção e, sobretudo, a nossa atitude. Pensar na guerra da Síria, no terrorismo, na fome, na doença e ficar indiferente é atroz. O homem está a deixar-se conduzir pelos egoísmos, pela xenofobia e pelo racismo, pela ameaça e intimidação, pelos apelos ao medo e à insegurança, pela injustiça. E consentimos aplaudindo. Não nos apercebemos que a seguir vêm os muros, as censuras, as violências, as exclusões, as prisões e, em última análise, as ditaduras.

 

Tornarmo-nos invisíveis perante os acontecimentos é tornar desumano o nosso comportamento e atitude face ao semelhante. Ter de deixar de ser politicamente correto, de deixar de ser condescendente com os abusos e falta de solidariedade, obriga a gritar, a berrar contra tudo o que aflige e incomoda o silêncio dos corações. Obriga a atuar, a existir e a abandonar o conforto e o comodismo do “sofá”.

Deixe-se de fingimentos, abandone a hipocrisia, cure-se dessa cegueira. Mude, mostre-se, discuta, grite, torne-se visível pelas causas nobres que nos afligem, nesta que é a nossa casa comum. Abandone o sofá e pense com Martin Luther King: “O que me preocupa não é nem o grito dos corruptos, dos violentos, dos desonestos, dos sem caráter, dos sem ética... O que me preocupa é o silêncio dos bons”. E isto dói…

 

Fernando Lima

 

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6.3.17

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Foto: Robin – Nathan Owen-Price

 

Grito. Antes mesmo de compreender, grito:

- Meu primeiro impulso reativo, minha ancestral defesa. Meu instinto original, herdado em sangue. Meu pecado inocente, meu refrigério.

- Meu aviso de guerra, minha fúria dilacerada. Manifesto de horror, garganta ardendo em sedição. Minha raiva acumulada dilacerando decibéis.

- Meu vício de prazer, minha loucura. Meu urro de vitória anunciada. Salva de estridências e de júbilos erguendo-se no céu despreparado.

- Meu canto de cisne, minha alvorada. Cântico longilíneo sobre a terra. Meu espinho bíblico, minha aflição. Meu voo já sem forças de partir – minha cruz primordial.

 

Eu garanto: só tinha a intenção de, em jeito de preâmbulo, reportar-me à definição da palavra “grito”, e, daí, esperar partir para algo que validasse o meu artigo (por sinal já em atraso) do mês de Fevereiro. Mas, como quase sempre me acontece, a palavra decompôs-se-me em frases que me transportam os dedos numa viagem sem hora de regresso – sim, porque as palavras são como as paisagens, atingem-nos, abraçam-nos, marcam-nos... seduzem-nos. As linhas de horizonte são infinitas, atrás de um monte vem outro monte, atrás de uma imagem, vem outra, e outra, e outra...

 

E o meu grito, aquele que, enfim, me calha como breve apeadeiro, nasce magma vivo contorcendo-se no meu papel, cala em si um sinónimo de angústia – reconheço-o, é um grito de Dor. Transporta em si torrentes de sentimento: é rio indomável, nada sobrevive em si, ele sobrevive em tudo, nada lhe serve de margem, ele é a própria margem. E acarta estilhaços de alma na corrente, não como flutuantes pedaços de madeira, mas como bracejos de velas, lutando para não naufragar. A pulso, sobe, cresce para mim, agiganta-se. Raia de púrpura os ocidentes, asfixia horizontes, esgazeia os olhares que encontra, rasga gargantas. E solta-se, enfim, em estridor de foz e expiação.

Sobe ainda, vertiginoso, em decibéis de asas feridas, descobre-se em liberdade, perde-se no vazio... e desce aos infernos, em ecos de grutas petrificadas pela indiferença (os seus muros de lamentações já se habituaram aos voos sinistros de sombras vampíricas).

Cai, por fim, sob o silêncio de um crepúsculo avermelhado. As estrelas que chegam, acusam o estertor ribombante do seu último suspiro e tremem, como as minhas mãos de memórias vivas.

A noite dobra-se sobre si mesma, veste-se de luto – o grito morreu!

 

Mas amanhã... amanhã a aurora vai ser cor de rosa e pássaros novos irão aprender gorjeios de uma sinfonia que reinventarei – as palavras são música, também, se quisermos… e a Vida continua. Sempre. Apesar de todos os gritos.

 

Teresa Teixeira

 

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3.3.17

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Foto: Nail-varnish – Blackyfedora

 

- Mãe, preciso de escrever o artigo.

- Ah, sim? Hoje?

- Sim, Mãe, hoje. Disse-to a semana passada. E alguns dias esta semana.

- E tens até quando para o escrever?

- Mais dois dias.

- Só?! Dois dias?! E estás aqui, a falar comigo?! Meu Deus, oh filha, tens de ir!

- Pois tenho, Mãe… Por isso…

- Mas, olha, porque não o escreveste na sexta?

- Trabalhei todo o dia, depois corri para minha casa e depois mais três transportes para tua casa e, finalmente…

- E no sábado? Já estavas cá, podias ter feito isso no sábado. Assim, num bocadinho…

- Pediste-me para ir à feira e ao Lidl, à farmácia, à senhora dos ovos, ao multibanco, à padaria. E depois ao…

- Ah, pois foi… Mas, ontem, sim, ontem, podias ter tirado um tempinho para isso.

- Podia… Mas quiseste ir apanhar ar, estavas farta de estar em casa, e isso era mais importante, claro que sim. Quiseste ir à missa e à praia, felizmente por esta ordem… E caminhar, caminhar, durante horas.

(Já me sinto a delirar: Nossa Senhora do Esferovite me auxilie, S. José do Poliester, São Tótil Ignácio, todos comigo, de mãos dadas e coração pleno, neste momento de agonia.)

 

- Mãe, tem mesmo de ser hoje. Só preciso de umas horas sem interrupções para poder escrever.

(Mãe, estou a “panicar” e o prazo a terminar. Não vês o alerta, em néon, sobre a minha cabeça?!)

 

- Oh, filha, claro que sim, vai lá escrever. Vou ligar à tua tia, ainda não falei com ela desde que tive alta, e à Antónia, ao enfermeiro Amílcar, à Rosa e à Irmã Benedita. E não ligo a mais ninguém, mais ninguém! Não me apetece falar com ninguém, estou tão cansada... Mas queria mais qualquer coisa, espera… O quê, meu Deus? Ai, esta minha memória, filha.

(Eu de pé, “vai-não-vai”, na antecâmara da crise cardíaca, aproveito a pausa para respirar.)

 

- Boa, Mãe... Vai lá então fazer as tuas chamadas. Eu preciso mesmo de escrever.

- Claro, filha, vai, não percas mais tempo. Depois atrasas tudo e deitas-te tardíssimo, não pode ser.

- Eu adorava dormir mais tempo, acredita, e poder deitar-me mais cedo. Adorava escrever de dia, debaixo do sol e sem me babar sobre o computador, mas ainda não dá, não é, Mãe? Compreendo que precisas de ajuda e é um prazer fazer o cardápio do dia, tratar de nós, da tua casa e da minha, das compras, do teu felpudo canídeo, dos banhos, das tuas múltiplas solicitações e, claro, não te angustiar com as minhas tarefas, como este artigo que preciso mesmo de escrever. Por isso, Mãe, resta-me uma ínfima parte da noite, até a saliva mergulhar no teclado.

- Pois é, filha. Mas tens de te deitar mais cedo. De noite é que se dorme! O teu corpo a pedir-te descanso e tu a forçá-lo a um esforço tão grande. E se já estás a dormir, já não te rende o tempo. Mais vale ires para a cama.

- E quando escrevo?

- De dia! Organizas-te e consegues!

(Respirações profundas, língua mordida com afinco.)

 

- Ok, Mãe. Vou estar na cozinha. Tens o tabuleiro na sala, o chá está a escaldar, como tu gostas. Fiz-to agora porque o querias agora mesmo. Por favor, senta-te, descansa e toma o teu chá, tranquila.

- Ah, que bom, filha! Obrigada. É mesmo isso que me apetece, vou então. Bom trabalho, concentra-te que é para fazeres isso depressinha.

(Caminho em silêncio para a cozinha. Não quero fazer nada, rigorosamente nada, que lhe lembre que parti. Sento-me em frente do computador, olho para o documento Word. Fecho os olhos. Suplico: Inspiração, desce sobre mim!)

 

- Filha... Estás aí?

(Oooommm... inspirações profundas, expirações suadas.)

 

- Sim, Mãe...

- Desculpa, filha. É só uma coisinha. Se vires que ainda não interrompo nada importante, é claro. É só um minuto.

(Importante? Como é possível que me ocorra algo, seja lá o que for, quanto mais importante, numa fração de segundo de silêncio? Como?)

 

- Diz, Mãe...

- Podes vir cá, por favor? Não quero gritar para não perturbar a tua concentração.

(Arrasto os pés até à sala e componho o ar traumatizado. Apresento-me ao Xá da Pérsia, sem desvelo. Aguardo a ordem.)

 

- Oh, filha, desculpa. Podes por favor abrir mais a janela, chegar o cortinado para trás e ver se deixei o comando da TV na cozinha?

- Não está na cozinha.

- Ah, não? Hmmm… Estranho… Não fui a mais lado nenhum. Oh filha, por favor, procura-o. Sem ele, o que é que eu faço? Precisava de arranjar estas unhas, estão horríveis. Um verniz bonito, isso é que era, tenho aqui uns novos, já tos mostrei? Mas, pelo sim pelo não, comprei o meu preferido. De vez em quando, apetece-me experimentar uma cor nova, mas raramente gosto de a ver em mim, tu sabes… Experimenta tu, um dos novos. Mas, pronto, agora não que tens de trabalhar, eu entendo. Agora, agora queria o comando. Estou para aqui a pensar que não fui a lado nenhum, onde pode estar o comando?

(Rally paper, percurso: todos os sítios onde a minha mãe não esteve. Um tempo infinito depois, encontro o comando no quarto de banho.)

 

- Não pode ser!

- Sim, Mãe, estava no lavatório, atrás da escova do cabelo.

- Mas não fui a mais lado nenhum! Só à cozinha!

- Foste ao quarto de banho. Está tudo bem, Mãe.

- Ai, filha, tudo bem, nada! Parece que alguém o foi lá pôr. Ai, Deus me acuda e me livre do mafarrico; credo!

(Alguém me acuda a mim. Alguém me segure. Alguém me amordace, depressa…)

 

- Mãe, agora vou mesmo, está bem? Daqui a pouco é hora do jantar.

- Ah, sim, pois, vai, vai, filha. Não te percas na conversa. Não vou chatear- te mais, ok? Vai lá que é para acabares isso e jantarmos. E para irmos para a cama cedinho, está bem?

(Vigésima nona interrupção, duas linhas de texto depois.)

 

- Filhinhaaa… oh… desculpa… ainda demoras? Era mesmo só uma coisinha muito rápida.

(Vou chorar tanto… tanto…)

 

- Diz, Mãe.

- Olha, filhota, não te queria aborrecer mas o chá está gelado, sabes que gosto dele bem quente. Se calhar esqueceste-te, não faz mal, mas para a próxima… Está bem, filha?

- Mãe, não me esqueci. Estava quente, duas horas atrás.

- Ah… E disseste-me?

(Inspira fundo, expira flores…)

 

- Dá cá o chá. Vou aquecê-lo, outra vez.

- Obrigada, filha. E o cortinado, podes fechá-lo um pouco? E a janela? Está a ficar frio. E já escreveste alguma coisa?

- Quase nada.

(Pânico total neste momento.)

 

- Oh filha, tens de te disciplinar, sabes? Distrais-te muito facilmente, assim não dá. Tens de ter aquela organização de trabalho que não se desvia do objetivo. E concentrares-te, é isso. Senão, não há milagres.

(A sério, Mãe? Ai que se me grita a alma cá dentro. Dás comigo em louca.)

 

- Não dizes nada, filha? Pareces um pouco cansada. Ou chateada… não percebo bem.

(O meu telemóvel toca, noutra divisão da casa.)

 

- Filha, não atendas!

- Não pretendia atender. Preciso de trabalhar.

- Tens de dizer às pessoas que não podes estar ao telefone. Não podem estar a interromper-te senão então é que não fazes mesmo nada. Diz-lhes que tens de trabalhar!

(Sinto o nó na garganta e o punho no estômago.)

 

- Não são os que telefonam que me impedem de nada, Mãe, vês? Basta não atender. São aqueles que me olham nos olhos mas não me veem nem me escutam.

- Filha, eu entendo-te. Isto é um mundo cão, de gente sem empatia nem lealdade. E tu és uma mulher de causas, como eu, bem sei. Mas as pessoas têm de saber que não estás sempre disponível. Tens de aprender a dizer não, filha. As pessoas são muito egoístas e não percebem estas coisas sozinhas; são cegas, ce-gas! Ouve a tua mãe que te quer bem. Vai poupar-te muitos dissabores! E os bons, esses, vão entender perfeitamente, acredita!

(Estou prestes a desancá-la, azeda e viperina, sem filtros nas palavras. Como se isso não bastasse, a criatividade, hoje, não quer nada comigo. Ah, desespero… Desisto…)

 

- Mãe, vamos ao verniz: a tua cor habitual?

 

Alexandra Vaz

 

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27.2.17

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Foto: Kettle - KenBoyd

 

Está no ponto. Percebe-se à distância que está na hora de colocar o chá na água fervente. Não precisamos de nos queimar nem de estar longos e pasmados minutos a olhar para a chaleira. Ela avisa-nos.

À distância sabemos, como ao longe o farol grita para o marinheiro, dá- lhe referências, orienta- o e permite-lhe evitar os perigos daquela costa.

Bons gritos.

 

Um berreiro, alarido, discussão descontrolada, feroz, animalesca, é sinal de má educação, falta de respeito, mais que descontrolo, tentativa de, pela força da voz ameaçadora, dominar, subjugar os outros.

Maus, péssimos, gritos.

 

Não devo, não posso ordenar, nem discutir à base do grito. O grito é estúpido, impede-me de ouvir, sequer de compreender o outro. Estou a ferver água e não tenho mesmo chá nenhum. Nem de pequenino, nem de crescidinho!

 

Sou confrontado pela tragédia pessoal, que cai sobre mim sem aviso, sem preparação, tem uma dimensão medonha, descomunal, desumana, impossível. Perco o chão, falham-me as referências. A dor é imensa, insuportável, terrível, funestíssima... Grito!

Grito humanamente, seja ou não em surdina. Choro e grito. Preciso de dar liberdade à dor insuportável e sem controlo.

Preciso de escape, para conseguir serenar e poder, depois, sofrer de forma socialmente aceitável. Pessoalmente aceitável.

 

Jorge Saraiva

 

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24.2.17

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Foto: Pissed-off - Macmao

 

Os gritos podem ser emitidos por razões diferentes, sendo certo que contêm sempre um fundo de sobrecarga emocional. Não será excessivo afirmar que há gritos para todos os gostos e desgostos, como se apercebe no dia-a-dia. Em gritos exprimimos muitas das nossas emoções positivas ou negativas; com gritos espantamos as nossas sensações; em gritos evitamos que o silêncio nos consuma; com gritos podemos afastar certos perigos. O grito pode afinal ter um efeito libertador do espírito e da mente. Mesmo nos animais, também eles, irracionais como são, perante um perigo iminente e quando vítimas de sofrimento físico, emitem gritos dilacerantes. Mas o grito é da essência do ser humano, pois só ele, ao emitir gritos, desabafa as suas emoções de medo, de angústia, de pânico e frustração em certos momentos da sua vida.

 

Nem sempre, porém, o grito encerrará uma carga negativa, como acontece em momentos de alegria, de euforia e de contentamento ou deslumbramento, com significado de vitória, cujas emoções excessivas e incontidas, desencadeiam gritos de gáudio e de satisfação desmedida. Com o grito se descarrega, pois, toda a carga emotiva perturbadora que provém do fundo da alma, cujo movimento interior nos pode levar a fazer ou deixar de fazer algo de importante como sinal de vida intensa.

 

José Azevedo

 

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22.2.17

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Foto: Summer - Pro File

 

Ontem apetecia-me gritar, gritar até não ter mais voz. Talvez porque estou farta de estar farta de tanta coisa há tanto tempo.

Se estou farta há tanto tempo, porque é que ainda não me habituei? Serei eu, afinal, uma pessoa intolerante? Terei eu levado a sério demais a teoria do conformismo que aprendi durante o ensino secundário na disciplina de Psicologia?

Sim, desde essa altura faço questão de tentar seguir as minhas ideias e não as ideias dos outros só porque sim. Penso, reflito, pondero, e escolho o caminho que pretendo seguir, mesmo que esse caminho seja o contrário do que os outros seguem.

Isto é bastante difícil… Mas deito-me todos os dias a pensar que este é o meu caminho e sei porque o escolhi.

 

Mas estou farta de tanta coisa… Mesmo do que escolhi… Ou do que acontece colateralmente ao que escolhi. Daí apetecer-me gritar, como que para aliviar o desagrado do que vou encontrando pelo trajeto.

Não é sempre que isto acontece. Ontem sim, mas hoje não. Hoje não, porque está um dia tão cinzento e com uma chuva tão ruidosa… Os pingos gritam mais alto do que eu gritaria. Hoje não, porque o meu pequeno rebento está a sofrer e tenho que me manter forte, desperta e concentrada para ele. Ele sofre mas apenas diz “Olá”, sem chorar nem gritar, quando tem todo o direito de o fazer. Apenas se ouve a sua respiração, apenas se sente a sua deslocação para um local calmo onde possa deitar-se e descansar.

 

Hoje, ao contrário de ontem, não me apetece gritar nem ouvir gritos. Só me apetece silêncio para que ele se sinta bem e melhore. Por mais escolhas que façamos, há coisas que simplesmente acontecem e temos que as aguentar sem gritar. Pelo menos hoje… Talvez amanhã, quando passar tudo outra vez, tenha aquela vontade tremenda de gritar em revolta contra a injustiça de um ser tão pequeno se sentir mal. Mas hoje não, hoje só sussurro.

 

Sónia Abrantes

 

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20.2.17

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Foto: Mount-olympus - Unsplash

 

Conta-me, quem assistiu, que o meu primeiro ato de independência, o de respirar, foi assinalado com choro e gritos. Não há aniversário meu sem que a minha mãe e a minha tia não recordem os gritos que arrebataram à calmaria aquela noite fria de janeiro. É redundante dizer que não me lembro, mas não há razão para não acreditar que tudo se terá passado conforme contam. Afinal, ainda que com pequenas variantes, não é assim que todos enfrentamos o mundo, gritando para que nos recebam, reclamando atenção e o direito à vida?

Mas, passado o momento violento da chegada, devo ter confiado rapidamente nos adultos que de mim cuidaram, porque também contam que não fui uma “má bebé” e fui uma criança sossegada.

 

Gritei, e disso já tenho memória, nos intervalos das aulas.

Ao sinal dos professores corríamos para o recreio atropelando-nos uns aos outros e, sem mais demora que o tempo era pouco para a brincadeira, escolhíamos as colegas que queríamos connosco ou contra nós a saltar à corda ou ao jogo das pedrinhas. No extremo do recreio os rapazes organizavam-se e num esfregar de olho lá estavam em grande gritaria a disputar uma partida de futebol. A pacata aldeia ganhava vida com os gritos e as brincadeiras das crianças que apenas as chuvas e os temporais de inverno interrompiam. Na invernia, as encostas dos montes viradas a norte despiam-se para os ventos, ou pelos ventos, e pareciam adormecer. Eu acreditava que descansavam para recuperar forças e exibirem, lá pela primavera, novas searas e novos frutos. Não havia vez que passasse pelo alpendre da casa que não olhasse para essa exibida nudez, tentando vislumbrar o verde, o lilás ou outra qualquer das muitas cores que haveriam de animar novamente o monte e as ruas da aldeia com os gritos da criançada.

Não se distraíam as encostas e, sem atrasos, cumpriam o ciclo. Vestiam-se de verde-claro quando as chuvas medravam as sementes e as obrigavam a rasgar a terra e a mostrarem-se. A semente esvaía-se para dar lugar às plantas que cresciam, e, grávidas de novas sementes trocavam de roupagem e passavam a usar o verde mais carregado. As searas voltavam a ter a minha atenção quando, de amarelo vestidas, ondulavam e sussurravam com a brisa, e aproximava-se junho, época de exames na escola. Mas nem por isso cessavam as correrias e brincadeiras no largo da aldeia.

Do outro lado da rua, por detrás das janelas, as silhuetas da minha mãe e da minha tia movimentavam-se livres e apressadas. Reconhecia as sombras dos meus avós para lá das cortinas por terem movimentos lentos e torpes. Confortava-me esta visão tanto como os gritos de alegria a fingir surpresa por ter sido agarrada no jogo da cabra cega, ou de contentamento por ter ganho o jogo da macaca.

 

Levaram-me um dia à cidade para lá dos montes que rodeavam a aldeia. Subi-os até ao cume e espantei-me por ver que afinal o céu não pousava neles como parecia acontecer a quem olhasse do sopé. Do cimo abriam-se horizontes. Para lá dos meus montes havia outros e muitos, e gentes e outras aldeias e outras escolas e outras crianças a brincar e a gritar nos recreios. Caminhámos durante horas e o mundo pareceu-me imenso. A grandeza da cidade, a pressa das pessoas e o movimento dos automóveis, sufocavam-me e, só por timidez não gritei, sufoquei o meu medo.

Transpus os montes com frequência e um dia não regressei à aldeia.

Tive sempre esta visão romântica da infância e, muitos anos depois, resolvi satisfazer o desejo de regresso. As pedras envelheceram e as casas tinham mingado, as ruas estavam desertas, a escola estava por terra e o recreio era um campo de ervas tristes, dobradas para a terra, envergonhadas por tamanha falta de beleza. As encostas a norte transformaram-se num matagal desorganizado e sem graça. E, por detrás das cortinas que o tempo escureceu, não se viam as silhuetas da minha mãe nem de qualquer outro ente querido. Partiram. Passaram os montes e não regressaram.

Subi de novo aos montes e o eco no silêncio aumentou o meu grito de solidão.

E, neste texto deixo um grito de saudade.

 

Cidália Carvalho

 

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17.2.17

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Foto: Child-sitting - Hans Kretzmann

 

Há alturas em que as formas da pessoa se alteram na sua essência, as cores da sua vida se transformam em tons alternadamente quentes e frios, e os passos que eram determinados são, agora, dados com muita dúvida, com medo e com esforço. Parece que o caminho é indefinido, o corpo teima em não encontrar as suas formas iniciais; o exterior (o ambiente externo ao corpo) está indefinido, incerto e não transmite confiança. Existem tentativas de reconfortar o corpo de modo a recuperar as suas formas, mas sem muito sucesso porque, as forças externas não ajudam nesse imprescindível trabalho. São forças negativas que não empurram para a frente, no sentido de evitar uma gradação de corres chocante. A vida das pessoas não precisa disto…

 

Quando as coisas nos fazem sofrer, nos causam dor, quer dentro do corpo, quer fora dele, o corpo grita; deixa de existir o silêncio dentro do corpo e fora dele, sem dor, sem sofrimento. O grito a que me refiro é esse grito, aquele que surge quando o corpo deixou de ter forma, quando o exterior empurra para traz depois de várias tentativas falhadas de seguir em frente. Encaro-o como uma forma de exprimir um sentimento; desespero; conflito… Quem o faz, fá-lo com um fim libertador. Eu compreendo assim o grito “gritado” aos ouvidos dos outros, mas os gritos silenciosos existem… Como perceber estes? Talvez também o compreenda; o seu problema é não ter som e isso pode torná-lo mais complexo.

 

Ermelinda Macedo

 

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13.2.17

Family-LaterJayPhotography.jpg

Foto: Family – LaterJay Photography

 

- Papá, o que é “experimentar”?

- “Experimentar”, filho, é fazer uma coisa nova para saber como é.

- Então, é como fazer uma pergunta?

- Não é bem isso. É mais fazer uma coisa na prática para saber como resulta, para saberes o que acontece depois dela, para saberes o que sentes. Não é só fazer a pergunta, mas será mais procurar a resposta. Entendes?

- Não.

 

- Papá, o que é “experiência”?

- Bem, quando experimentas, aquilo que fazes chama-se “experiência”. Também se chama “experiência” àquilo que ficas a saber depois de experimentares muitas coisas e saberes como elas são.

- Já fizeste muitas coisas, papá?

- Sim querido, já fiz muitas coisas.

- Então, tens “experiência”?

- Alguma…

- Em quê?

- Em várias coisas. Fui experimentando isto e aquilo, fui adquirindo experiência. Entendes?

- Não.

 

- Papá, o que é “adquirir experiência”?

- Ora, é ir experimentando, é ir fazendo experiências.

- E para que te serve isso?

- Serve para orientar a minha vida, para tomar decisões… Entendes?

- Não.

 

- Papá, temos de experimentar todas as coisas?

- Todas, todas, não, mas é bom ter muita experiência. Se tiveres muita experiência saberás mais, tomarás melhores decisões, não necessitarás de fazer tantas perguntas… E há coisas que será melhor que não experimentes.

- Mas Papá, se não experimentar, não adquiro experiência, pois não?

- Não; sim! Quer dizer… Há coisas que são perigosas de experimentar. Entendes?

- Não.

 

- Papá, sabes porque faço estas perguntas?

- Não. Olha, vem ali a Mamã.

- Que bom! Vou experimentar fazer estar perguntas a ela. Entendes papá?

- Não; quer dizer, sim! Bem, vamos ter com a Mamã.

 

Fernando Couto

 

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10.2.17

Woman-DieterRobbins.jpg

Foto: Woman – Dieter Robbins

 

Uma querida professora minha de Yoga, uma senhora já de idade avançada, muito vivida, diz constantemente nas aulas que só quem experimenta é que SABE. Tudo o resto é apenas conhecimento, na mesma muito válido, mas um conhecimento incompleto. Ou seja, por mais que se leia sobre o Yoga e as suas posturas, efeitos, filosofias, só experimentando é que se sabe verdadeiramente o que é. A minha avó, da mesma geração, dizia o mesmo… Hoje, eu sei que é verdade.

Então deixo no ar, assim como uma pequena névoa, algumas questões; e que tal experimentar:

 

Estar deitado no chão, a olhar para o céu, durante a noite mirando intensamente as estrelas, experimentando a força do Universo?

 

Ajudar um estranho, experimentando a força da partilha?

 

Dar o que não usa mais, ou até o que usa mas não precisa, experimentando o desapego?

Tomar uma iniciativa, por mais difícil que seja, experimentado a coragem?

 

Iniciar uma atividade física, experimentando o limite e a evolução que o corpo pode ter?

 

A experiência é a um Ser Humano a viver a sua humanidade. Experimentar a vida, aprender com a experiência, é evolução.

 

Sara Almeida

 

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6.2.17

Girl-Unsplash.jpg

Foto: Girl - Unsplash

 

Como já diz o ditado popular: “Se conselho fosse bom, não se dava, se vendia”. Quantas vezes deixamos de ouvir os conselhos de nossos pais ou avós, por considera-los antiquados e desnecessários? E talvez eles realmente fossem em dada altura. É com a nossa própria experiência que aprendemos. Não é por acaso que experiência deriva de experimentação, de conhecer algo novo. Vivenciar, experimentar... É com os riscos da vida e tentativas que acumulamos conhecimento.

É normal um estudante de línguas sentir-se frustrado após estudar alguns anos e quando vai usar seus conhecimentos linguísticos pela primeira vez, sente-se inseguro ou julga não saber nada. A linguagem é um aprendizado dinâmico e somente com prática, com erros e acertos, desenvolvemos as nossas capacidades, também é assim na vida.

 

Ouvir a experiência do outro também faz parte do aprendizado, mesmo que seja para fazer as coisas de uma forma totalmente diferente. No entanto a experiência, como tudo, tem um lado negativo. Quando deixamos de tentar arriscar a fazer algo por conta de uma experiência negativa vivida anteriormente. Temos que aprender com os nossos erros e não simplesmente deixar de arriscar e aprender.

Se algo correu mal, usaremos a nossa experiência para refletir e identificar o motivo. Para que uma experiência seja realmente válida ela deverá ensinar algo, ainda que seja: não se deve fazer assim, procure outro caminho.

 

Leticia Silva

 

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3.2.17

Attractive-Pexels.jpg

Foto: Attractive - Pexels

 

Já não devia acontecer. Porque, ao longo dos anos, vai-se ganhando resiliência, capacidade de encaixe, ou até uma certa indiferença perante determinadas realidades.

E, no entanto, continua a repetir-se: as palavras vêm, inesperadas (a sério que não as esperavas?!), e ferem lá no fundo da alma. Ridículo!

E, apesar da experiência vaticinar que é mesmo assim e que não se pode esperar que seja diferente, lá vem o aperto no peito. E a seguir uma lágrima a querer romper, tonta.

Mas porque razão dar tanta importância às palavras? Afinal, se a importância que tem para uns não tem para outros…

 

De que servem os ensinamentos da vida se permanecemos na ingenuidade de imaginar que vivemos num conto de fadas, em que todos são simpáticos, preocupados em agradar os outros, promovendo a felicidade do próximo só porque sim?

 

Sandrapep

 

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30.1.17

Gym-room-Janeb13.jpg

Foto: Gym-room - Janeb13

 

Experiência é uma palavra de vários significados e de abrangência enorme. Tem maior peso consoante o contexto e o seu valor pode variar da insignificância, até algo de conclusivo no processo de vida de alguém. Quando era miúdo, experiência significava algo colado à ciência. Experiência, ou experiências, remetiam para o Professor Pardal e um universo imaginário de coisas fixes e batas brancas. À medida que fui crescendo, a palavra experiência foi ganhando outras dimensões. A experiência foi somando capítulos e fui aprendendo. Não o conhecimento de carteira de escola, mas lições da vida, muitas delas ou quase todas relacionadas com a relação com os outros. As experiências interpessoais foram sendo integradas e integradoras.

Não é nesta fase, contudo, que rapidamente se aprende que existem dois polos de experiência. Não conto com a “experiência assim-assim”, do ponto de vista de quem a vive, dado que esta às vezes é até rapidamente esquecida, logo não integrada. Remeto sim, para as boas e más experiências. Todos sabemos que no primeiro caso existe o impulso natural para a sua repetição, enquanto, no caso oposto, o evitamento será o caminho. Contudo, são muitas as variáveis que poderão mudar a regra do jogo, ou seja, o ser humano tem a capacidade de transgredir o que é expetável, e porque não, normativo. Seja lá o que isso for.

 

No outro dia fumei um cigarro. Daqueles que dá mesmo prazer, com o café pós-almoço. Não sei como aconteceu mas fiquei enjoado e maldisposto. Claro que a seguir ao jantar fumei outro.

No outro dia fui ao ginásio. O treino correu bem, deu para fazer banho turco e, no final, senti-me mesmo bem. Hoje tenho a possibilidade de ir mas está frio e vou ficar por casa. Percebem o que quero dizer?

A experiência é uma palavra maltratada. No nosso léxico de coisas importantes, se calhar, não aparece muitas vezes. Amor, família, trabalho, carinho, filhos, pais, abraços, beijos, dinheiro, saúde, etc., são os argumentos principais de uma vida feliz. São a cerca branca que toda a gente quer ter à volta da casa. Mas, na verdade, qual destas palavras não joga com a experiência? A experiência pode muito bem ser a base para o amor do presente. As relações com os pais, irmãos e filhos são baseadas na experiência conjunta durante anos. A forma de obter dinheiro e de o gerir, tem por base experiência pessoal e profissional.

Admito então que a experiência é um elemento base da nossa existência. O segundo sopro de vida já é experiência. O primeiro é novidade. O primeiro passo é experiência acumulada de esquemas motores mais simples até lá se chegar. O primeiro beijo é a experiência de esperar pela pessoa e momento certos.

 

Rui Duarte

 

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27.1.17

Holiday-OscarCastillo.jpg

Foto: Holiday – Oscar Castillo

 

Podia iniciar este artigo com uma breve definição de experiência, mas como sabem, eu não sei como não imprimir um cunho pessoal aos meus artigos. Falta-me o talento da boa escrita, baseada no distanciamento da terceira pessoa. Um dia, talvez…

Não tenho a pretensão de ter já uma enorme experiência de vida, apenas aquela que a vida achou necessário impor. Mas dessa experiência, eis algumas lições, que partilho:

 

- A qualquer altura pode-nos desabar o teto, e já agora, toda a casa em cima, sem aviso, sem premonição, sem sinais…;

- O sofrimento extremo em alguma situação, não nos deixa imune aos sofrimentos que ainda vêm pelo caminho;

- O melhor da vida são as mesas: a mesa com a família em volta e a mesa com os amigos;

- Há amigos para toda a vida e outros que são apenas conhecidos, com quem vamos convivendo, que vêm e vão, conforme as marés;

- A base de tudo, o princípio de tudo, o pilar de tudo, é o amor e esse, assimilei-o na família onde tive a bênção de nascer. A família é para sempre, tal como o amor;

- Expetativas são ervas daninhas e os “e se” são uma enorme perda de tempo. Não obstante, estes ainda são, de facto, os meus grandes inimigos, porque mesmo já os tendo identificado, às vezes, deixo-me agarrar;

- Mesmo não aceitando o mal que nos acontece, também não vale a pena perder tempo a questionar;

- O tempo tem o maior dos poderes curativos, porque nada há mais catártico que o passar do tempo para avaliar e tirar conclusões;

- Às vezes, no pior dos momentos, a esperança chega. Pode não acontecer sempre, mas há uma luz que se vislumbra ao fundo, até porque só não tem solução a morte!

 

A vida, por entre perdas e ganhos, ensinou-me, principalmente, o poder da cristalização dos momentos e esse já ninguém mo tira. Não há nada que me faça melhor à alma do que simplesmente parar e olhar à minha volta, absorver os rostos, os gestos, os sorrisos, os afetos. Essa é a melhor das experiências. Experimentem!

 

Ana Bessa Martins

 

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