22.2.17

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Foto: Summer - Pro File

 

Ontem apetecia-me gritar, gritar até não ter mais voz. Talvez porque estou farta de estar farta de tanta coisa há tanto tempo.

Se estou farta há tanto tempo, porque é que ainda não me habituei? Serei eu, afinal, uma pessoa intolerante? Terei eu levado a sério demais a teoria do conformismo que aprendi durante o ensino secundário na disciplina de Psicologia?

Sim, desde essa altura faço questão de tentar seguir as minhas ideias e não as ideias dos outros só porque sim. Penso, reflito, pondero, e escolho o caminho que pretendo seguir, mesmo que esse caminho seja o contrário do que os outros seguem.

Isto é bastante difícil… Mas deito-me todos os dias a pensar que este é o meu caminho e sei porque o escolhi.

 

Mas estou farta de tanta coisa… Mesmo do que escolhi… Ou do que acontece colateralmente ao que escolhi. Daí apetecer-me gritar, como que para aliviar o desagrado do que vou encontrando pelo trajeto.

Não é sempre que isto acontece. Ontem sim, mas hoje não. Hoje não, porque está um dia tão cinzento e com uma chuva tão ruidosa… Os pingos gritam mais alto do que eu gritaria. Hoje não, porque o meu pequeno rebento está a sofrer e tenho que me manter forte, desperta e concentrada para ele. Ele sofre mas apenas diz “Olá”, sem chorar nem gritar, quando tem todo o direito de o fazer. Apenas se ouve a sua respiração, apenas se sente a sua deslocação para um local calmo onde possa deitar-se e descansar.

 

Hoje, ao contrário de ontem, não me apetece gritar nem ouvir gritos. Só me apetece silêncio para que ele se sinta bem e melhore. Por mais escolhas que façamos, há coisas que simplesmente acontecem e temos que as aguentar sem gritar. Pelo menos hoje… Talvez amanhã, quando passar tudo outra vez, tenha aquela vontade tremenda de gritar em revolta contra a injustiça de um ser tão pequeno se sentir mal. Mas hoje não, hoje só sussurro.

 

Sónia Abrantes

 

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20.2.17

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Foto: Mount-olympus - Unsplash

 

Conta-me, quem assistiu, que o meu primeiro ato de independência, o de respirar, foi assinalado com choro e gritos. Não há aniversário meu sem que a minha mãe e a minha tia não recordem os gritos que arrebataram à calmaria aquela noite fria de janeiro. É redundante dizer que não me lembro, mas não há razão para não acreditar que tudo se terá passado conforme contam. Afinal, ainda que com pequenas variantes, não é assim que todos enfrentamos o mundo, gritando para que nos recebam, reclamando atenção e o direito à vida?

Mas, passado o momento violento da chegada, devo ter confiado rapidamente nos adultos que de mim cuidaram, porque também contam que não fui uma “má bebé” e fui uma criança sossegada.

 

Gritei, e disso já tenho memória, nos intervalos das aulas.

Ao sinal dos professores corríamos para o recreio atropelando-nos uns aos outros e, sem mais demora que o tempo era pouco para a brincadeira, escolhíamos as colegas que queríamos connosco ou contra nós a saltar à corda ou ao jogo das pedrinhas. No extremo do recreio os rapazes organizavam-se e num esfregar de olho lá estavam em grande gritaria a disputar uma partida de futebol. A pacata aldeia ganhava vida com os gritos e as brincadeiras das crianças que apenas as chuvas e os temporais de inverno interrompiam. Na invernia, as encostas dos montes viradas a norte despiam-se para os ventos, ou pelos ventos, e pareciam adormecer. Eu acreditava que descansavam para recuperar forças e exibirem, lá pela primavera, novas searas e novos frutos. Não havia vez que passasse pelo alpendre da casa que não olhasse para essa exibida nudez, tentando vislumbrar o verde, o lilás ou outra qualquer das muitas cores que haveriam de animar novamente o monte e as ruas da aldeia com os gritos da criançada.

Não se distraíam as encostas e, sem atrasos, cumpriam o ciclo. Vestiam-se de verde-claro quando as chuvas medravam as sementes e as obrigavam a rasgar a terra e a mostrarem-se. A semente esvaía-se para dar lugar às plantas que cresciam, e, grávidas de novas sementes trocavam de roupagem e passavam a usar o verde mais carregado. As searas voltavam a ter a minha atenção quando, de amarelo vestidas, ondulavam e sussurravam com a brisa, e aproximava-se junho, época de exames na escola. Mas nem por isso cessavam as correrias e brincadeiras no largo da aldeia.

Do outro lado da rua, por detrás das janelas, as silhuetas da minha mãe e da minha tia movimentavam-se livres e apressadas. Reconhecia as sombras dos meus avós para lá das cortinas por terem movimentos lentos e torpes. Confortava-me esta visão tanto como os gritos de alegria a fingir surpresa por ter sido agarrada no jogo da cabra cega, ou de contentamento por ter ganho o jogo da macaca.

 

Levaram-me um dia à cidade para lá dos montes que rodeavam a aldeia. Subi-os até ao cume e espantei-me por ver que afinal o céu não pousava neles como parecia acontecer a quem olhasse do sopé. Do cimo abriam-se horizontes. Para lá dos meus montes havia outros e muitos, e gentes e outras aldeias e outras escolas e outras crianças a brincar e a gritar nos recreios. Caminhámos durante horas e o mundo pareceu-me imenso. A grandeza da cidade, a pressa das pessoas e o movimento dos automóveis, sufocavam-me e, só por timidez não gritei, sufoquei o meu medo.

Transpus os montes com frequência e um dia não regressei à aldeia.

Tive sempre esta visão romântica da infância e, muitos anos depois, resolvi satisfazer o desejo de regresso. As pedras envelheceram e as casas tinham mingado, as ruas estavam desertas, a escola estava por terra e o recreio era um campo de ervas tristes, dobradas para a terra, envergonhadas por tamanha falta de beleza. As encostas a norte transformaram-se num matagal desorganizado e sem graça. E, por detrás das cortinas que o tempo escureceu, não se viam as silhuetas da minha mãe nem de qualquer outro ente querido. Partiram. Passaram os montes e não regressaram.

Subi de novo aos montes e o eco no silêncio aumentou o meu grito de solidão.

E, neste texto deixo um grito de saudade.

 

Cidália Carvalho

 

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17.2.17

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Foto: Child-sitting - Hans Kretzmann

 

Há alturas em que as formas da pessoa se alteram na sua essência, as cores da sua vida se transformam em tons alternadamente quentes e frios, e os passos que eram determinados são, agora, dados com muita dúvida, com medo e com esforço. Parece que o caminho é indefinido, o corpo teima em não encontrar as suas formas iniciais; o exterior (o ambiente externo ao corpo) está indefinido, incerto e não transmite confiança. Existem tentativas de reconfortar o corpo de modo a recuperar as suas formas, mas sem muito sucesso porque, as forças externas não ajudam nesse imprescindível trabalho. São forças negativas que não empurram para a frente, no sentido de evitar uma gradação de corres chocante. A vida das pessoas não precisa disto…

 

Quando as coisas nos fazem sofrer, nos causam dor, quer dentro do corpo, quer fora dele, o corpo grita; deixa de existir o silêncio dentro do corpo e fora dele, sem dor, sem sofrimento. O grito a que me refiro é esse grito, aquele que surge quando o corpo deixou de ter forma, quando o exterior empurra para traz depois de várias tentativas falhadas de seguir em frente. Encaro-o como uma forma de exprimir um sentimento; desespero; conflito… Quem o faz, fá-lo com um fim libertador. Eu compreendo assim o grito “gritado” aos ouvidos dos outros, mas os gritos silenciosos existem… Como perceber estes? Talvez também o compreenda; o seu problema é não ter som e isso pode torná-lo mais complexo.

 

Ermelinda Macedo

 

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13.2.17

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Foto: Family – LaterJay Photography

 

- Papá, o que é “experimentar”?

- “Experimentar”, filho, é fazer uma coisa nova para saber como é.

- Então, é como fazer uma pergunta?

- Não é bem isso. É mais fazer uma coisa na prática para saber como resulta, para saberes o que acontece depois dela, para saberes o que sentes. Não é só fazer a pergunta, mas será mais procurar a resposta. Entendes?

- Não.

 

- Papá, o que é “experiência”?

- Bem, quando experimentas, aquilo que fazes chama-se “experiência”. Também se chama “experiência” àquilo que ficas a saber depois de experimentares muitas coisas e saberes como elas são.

- Já fizeste muitas coisas, papá?

- Sim querido, já fiz muitas coisas.

- Então, tens “experiência”?

- Alguma…

- Em quê?

- Em várias coisas. Fui experimentando isto e aquilo, fui adquirindo experiência. Entendes?

- Não.

 

- Papá, o que é “adquirir experiência”?

- Ora, é ir experimentando, é ir fazendo experiências.

- E para que te serve isso?

- Serve para orientar a minha vida, para tomar decisões… Entendes?

- Não.

 

- Papá, temos de experimentar todas as coisas?

- Todas, todas, não, mas é bom ter muita experiência. Se tiveres muita experiência saberás mais, tomarás melhores decisões, não necessitarás de fazer tantas perguntas… E há coisas que será melhor que não experimentes.

- Mas Papá, se não experimentar, não adquiro experiência, pois não?

- Não; sim! Quer dizer… Há coisas que são perigosas de experimentar. Entendes?

- Não.

 

- Papá, sabes porque faço estas perguntas?

- Não. Olha, vem ali a Mamã.

- Que bom! Vou experimentar fazer estar perguntas a ela. Entendes papá?

- Não; quer dizer, sim! Bem, vamos ter com a Mamã.

 

Fernando Couto

 

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10.2.17

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Foto: Woman – Dieter Robbins

 

Uma querida professora minha de Yoga, uma senhora já de idade avançada, muito vivida, diz constantemente nas aulas que só quem experimenta é que SABE. Tudo o resto é apenas conhecimento, na mesma muito válido, mas um conhecimento incompleto. Ou seja, por mais que se leia sobre o Yoga e as suas posturas, efeitos, filosofias, só experimentando é que se sabe verdadeiramente o que é. A minha avó, da mesma geração, dizia o mesmo… Hoje, eu sei que é verdade.

Então deixo no ar, assim como uma pequena névoa, algumas questões; e que tal experimentar:

 

Estar deitado no chão, a olhar para o céu, durante a noite mirando intensamente as estrelas, experimentando a força do Universo?

 

Ajudar um estranho, experimentando a força da partilha?

 

Dar o que não usa mais, ou até o que usa mas não precisa, experimentando o desapego?

Tomar uma iniciativa, por mais difícil que seja, experimentado a coragem?

 

Iniciar uma atividade física, experimentando o limite e a evolução que o corpo pode ter?

 

A experiência é a um Ser Humano a viver a sua humanidade. Experimentar a vida, aprender com a experiência, é evolução.

 

Sara Almeida

 

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6.2.17

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Foto: Girl - Unsplash

 

Como já diz o ditado popular: “Se conselho fosse bom, não se dava, se vendia”. Quantas vezes deixamos de ouvir os conselhos de nossos pais ou avós, por considera-los antiquados e desnecessários? E talvez eles realmente fossem em dada altura. É com a nossa própria experiência que aprendemos. Não é por acaso que experiência deriva de experimentação, de conhecer algo novo. Vivenciar, experimentar... É com os riscos da vida e tentativas que acumulamos conhecimento.

É normal um estudante de línguas sentir-se frustrado após estudar alguns anos e quando vai usar seus conhecimentos linguísticos pela primeira vez, sente-se inseguro ou julga não saber nada. A linguagem é um aprendizado dinâmico e somente com prática, com erros e acertos, desenvolvemos as nossas capacidades, também é assim na vida.

 

Ouvir a experiência do outro também faz parte do aprendizado, mesmo que seja para fazer as coisas de uma forma totalmente diferente. No entanto a experiência, como tudo, tem um lado negativo. Quando deixamos de tentar arriscar a fazer algo por conta de uma experiência negativa vivida anteriormente. Temos que aprender com os nossos erros e não simplesmente deixar de arriscar e aprender.

Se algo correu mal, usaremos a nossa experiência para refletir e identificar o motivo. Para que uma experiência seja realmente válida ela deverá ensinar algo, ainda que seja: não se deve fazer assim, procure outro caminho.

 

Leticia Silva

 

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3.2.17

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Foto: Attractive - Pexels

 

Já não devia acontecer. Porque, ao longo dos anos, vai-se ganhando resiliência, capacidade de encaixe, ou até uma certa indiferença perante determinadas realidades.

E, no entanto, continua a repetir-se: as palavras vêm, inesperadas (a sério que não as esperavas?!), e ferem lá no fundo da alma. Ridículo!

E, apesar da experiência vaticinar que é mesmo assim e que não se pode esperar que seja diferente, lá vem o aperto no peito. E a seguir uma lágrima a querer romper, tonta.

Mas porque razão dar tanta importância às palavras? Afinal, se a importância que tem para uns não tem para outros…

 

De que servem os ensinamentos da vida se permanecemos na ingenuidade de imaginar que vivemos num conto de fadas, em que todos são simpáticos, preocupados em agradar os outros, promovendo a felicidade do próximo só porque sim?

 

Sandrapep

 

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30.1.17

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Foto: Gym-room - Janeb13

 

Experiência é uma palavra de vários significados e de abrangência enorme. Tem maior peso consoante o contexto e o seu valor pode variar da insignificância, até algo de conclusivo no processo de vida de alguém. Quando era miúdo, experiência significava algo colado à ciência. Experiência, ou experiências, remetiam para o Professor Pardal e um universo imaginário de coisas fixes e batas brancas. À medida que fui crescendo, a palavra experiência foi ganhando outras dimensões. A experiência foi somando capítulos e fui aprendendo. Não o conhecimento de carteira de escola, mas lições da vida, muitas delas ou quase todas relacionadas com a relação com os outros. As experiências interpessoais foram sendo integradas e integradoras.

Não é nesta fase, contudo, que rapidamente se aprende que existem dois polos de experiência. Não conto com a “experiência assim-assim”, do ponto de vista de quem a vive, dado que esta às vezes é até rapidamente esquecida, logo não integrada. Remeto sim, para as boas e más experiências. Todos sabemos que no primeiro caso existe o impulso natural para a sua repetição, enquanto, no caso oposto, o evitamento será o caminho. Contudo, são muitas as variáveis que poderão mudar a regra do jogo, ou seja, o ser humano tem a capacidade de transgredir o que é expetável, e porque não, normativo. Seja lá o que isso for.

 

No outro dia fumei um cigarro. Daqueles que dá mesmo prazer, com o café pós-almoço. Não sei como aconteceu mas fiquei enjoado e maldisposto. Claro que a seguir ao jantar fumei outro.

No outro dia fui ao ginásio. O treino correu bem, deu para fazer banho turco e, no final, senti-me mesmo bem. Hoje tenho a possibilidade de ir mas está frio e vou ficar por casa. Percebem o que quero dizer?

A experiência é uma palavra maltratada. No nosso léxico de coisas importantes, se calhar, não aparece muitas vezes. Amor, família, trabalho, carinho, filhos, pais, abraços, beijos, dinheiro, saúde, etc., são os argumentos principais de uma vida feliz. São a cerca branca que toda a gente quer ter à volta da casa. Mas, na verdade, qual destas palavras não joga com a experiência? A experiência pode muito bem ser a base para o amor do presente. As relações com os pais, irmãos e filhos são baseadas na experiência conjunta durante anos. A forma de obter dinheiro e de o gerir, tem por base experiência pessoal e profissional.

Admito então que a experiência é um elemento base da nossa existência. O segundo sopro de vida já é experiência. O primeiro é novidade. O primeiro passo é experiência acumulada de esquemas motores mais simples até lá se chegar. O primeiro beijo é a experiência de esperar pela pessoa e momento certos.

 

Rui Duarte

 

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27.1.17

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Foto: Holiday – Oscar Castillo

 

Podia iniciar este artigo com uma breve definição de experiência, mas como sabem, eu não sei como não imprimir um cunho pessoal aos meus artigos. Falta-me o talento da boa escrita, baseada no distanciamento da terceira pessoa. Um dia, talvez…

Não tenho a pretensão de ter já uma enorme experiência de vida, apenas aquela que a vida achou necessário impor. Mas dessa experiência, eis algumas lições, que partilho:

 

- A qualquer altura pode-nos desabar o teto, e já agora, toda a casa em cima, sem aviso, sem premonição, sem sinais…;

- O sofrimento extremo em alguma situação, não nos deixa imune aos sofrimentos que ainda vêm pelo caminho;

- O melhor da vida são as mesas: a mesa com a família em volta e a mesa com os amigos;

- Há amigos para toda a vida e outros que são apenas conhecidos, com quem vamos convivendo, que vêm e vão, conforme as marés;

- A base de tudo, o princípio de tudo, o pilar de tudo, é o amor e esse, assimilei-o na família onde tive a bênção de nascer. A família é para sempre, tal como o amor;

- Expetativas são ervas daninhas e os “e se” são uma enorme perda de tempo. Não obstante, estes ainda são, de facto, os meus grandes inimigos, porque mesmo já os tendo identificado, às vezes, deixo-me agarrar;

- Mesmo não aceitando o mal que nos acontece, também não vale a pena perder tempo a questionar;

- O tempo tem o maior dos poderes curativos, porque nada há mais catártico que o passar do tempo para avaliar e tirar conclusões;

- Às vezes, no pior dos momentos, a esperança chega. Pode não acontecer sempre, mas há uma luz que se vislumbra ao fundo, até porque só não tem solução a morte!

 

A vida, por entre perdas e ganhos, ensinou-me, principalmente, o poder da cristalização dos momentos e esse já ninguém mo tira. Não há nada que me faça melhor à alma do que simplesmente parar e olhar à minha volta, absorver os rostos, os gestos, os sorrisos, os afetos. Essa é a melhor das experiências. Experimentem!

 

Ana Bessa Martins

 

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23.1.17

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Foto: People - Leroy Skalstad

 

- Dá-me lá um cigarrinho! Dás-me um cigarrinho, amigo?

 

Subitamente desperto de um lânguido torpor. Levanto os olhos da cerveja e sou atingido por um olhar profundo e vibrante. Uns brilhantes olhos negros fitam-me expetantes pela minha resposta. Estendo-lhe o maço e o isqueiro e convido-o a sentar-se comigo na esplanada. Senta-se e com um sorriso deleita-se a saborear a cerveja e o cachorro quente que entretanto lhe serviram.

 

- Sabes, amigo, eu estava ali a observar-te há mais de uma hora e percebi que és um bacano. Tens a inquietação dentro de ti, o mundo corrói-te as entranhas, mas mesmo assim, insistes em fazer a diferença, em o mudar. E aqui estou eu sentado na mesma mesa que tu, sem dinheiro e a banquetear-me à tua custa!

 

As rugas na pele escurecida pelo relento, acentuam-se e sorriem genuinamente.

 

- São muitas dezenas de anos a observar as pessoas. Vejo-as passar por mim, a desviarem-se, a ignorarem-me… através dos seus rostos sisudos vejo-as por dentro, as suas angústias, os seus medos, as suas alegrias e ambições… Sempre vivi na rua e observar o mundo, observar as pessoas, posso dizer que é o meu trabalho!

 

Estivemos horas a fio a conversar sobre o estado do mundo, sobre a alienação humana. Descobri um homem que mal sabe ler e escrever, dotado de uma sabedoria imensa, um iluminado. O conhecimento acumulado de anos de estudo dificilmente atingiria este saber. O conhecimento é um amontoado de informações, é racional e sem vida. São as emoções que, articuladas com os conhecimentos, lhes dão vida. Conhecer este erudito sem-abrigo, cidadão do mundo, tornou claro para mim que sabedoria é a experiência adquirida ao longo de uma vida vivida em pleno, rica em emoções, conhecimento e sensibilidade.

 

Tayhta Visinho

 

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20.1.17

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Foto: Alzheimer Portraits #38 – Alex Ten Napel

 

Pele enrugada, olhar perdido, o vazio, a sensação de confusão e de embaraço que transparecem pelos trejeitos do corpo, a expressão de desconhecido expressa no rosto…

Diz-se que nós somos as nossas experiências. Por outras palavras, “toda a nossa experiência é dedicada ao desenvolvimento da nossa personalidade”. Quem o afirmou foi Alex Ten Napel.

Alex é um fotógrafo holandês que retratou 40 idosos, de uma residência sénior, que padecem da doença de Alzheimer. No seu ensaio fotográfico procurou mostrar a sensação de “esvaimento” e de desaparecimento espelhada nos rostos dessas pessoas. Retratada não estava apenas a perda da memória em si, mas também a progressiva falta de dignidade e o que significa viver nesta condição.

 

“O que nos resta sem a memória da experiência?”

“Todos nós conhecemos sentimentos de tristeza, medo, desespero, depressão, alegria e as pessoas com Alzheimer sentem tudo isso da mesma maneira”, explica o fotógrafo holandês. No entanto, a principal diferença é que o registo dessas emoções ou experiências não perdura. A doença de Alzheimer destrói o ser interior: personalidade, emoções, sentimentos, experiências, memórias.

“O confronto com pessoas que sofrem de demência é assustador, porque nos faz questionar a nossa própria vida. Elas mostram-nos que a nossa vida pode evoluir num sentido diferente daquele que esperamos”. A doença do esquecimento acaba por afetar não só o doente, mas também cuidadores, familiares e amigos, que assistem ao desaparecimento interior do ser, apesar da sua permanência física.

 

Há uma frase de Alex Ten Napel que resume, e bem, o ensaio fotográfico a que se propôs: “A doença de Alzheimer limita-se a mostrar-nos a existência humana sem qualquer adereço”.

 

Sandra Sousa

 

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18.1.17

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Foto: Human - Petra

 

Diz o povo que a experiência é sabedoria. E eu concordo. É saber, é conhecimento, feito de experiência, de vivências. Pode não ser erudito, pode não ser livresco, pode não ser aceite como cultura elevada, mas é profundamente válido e importante por quem o constrói baseado na sua vida.

Falar de experiência remete-nos, portanto, para um sujeito ativo que aprende e ensina fazendo, o que dá ao conhecimento um cunho inestimável e muito mais poderoso do que aquele saber aprendido de forma passiva. Assim, a experiência acrescenta ao aprendido a credibilidade, a confiança, a aceitação que outras formas de aprendizagem não são merecedoras. Por outro lado, aprender pela e com a experiência, implica uma rotinização de ações, de questões e de respostas na busca de soluções que sedimentam as hipóteses que colocamos no nosso quotidiano. Daí que esta aprendizagem credibiliza, reforça e qualifica as soluções então construídas.

 

A experiência enquanto vivência profissional cobre múltiplos aspetos da vida. É multidimensional na medida em que contribui para moldar a identidade, a personalidade, a credibilidade, o conhecimento, o saber-estar, o saber-fazer e, sobretudo, o saber-ser do indivíduo. Dá ao ser humano a dimensão crítica e reflexiva que o saber livresco por si só não dá.

Por fim, a experiência não se reduz a uma aceitação, a uma acomodação sistémica da existência humana perante os fenómenos da vida que o cercam. Não se reduz a uma sobreposição linear de receitas prontas a usar de forma acrítica pelos indivíduos, ou, da soma de conhecimentos práticos adquiridos com o tempo e a serem seguidos. É, sim, um verdadeiro conhecimento que deve ser respeitado, enobrecido e conceituado pela sociedade.

 

Fernando Lima

 

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16.1.17

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Foto: Roasted Chestnuts - Cristina Pechirra

 

“Vá, não te lamuries mais, serve-te aqui de umas palavrinhas, que ainda estão quentinhas (ai, se não fosse eu a acudir-te os gritos!).

Está bem, o raio da vida que te calhou não é flor de se cheirar. Mas já que a (es)colheste e a puseste em jarra tipo sempre-em-pé, que queres? Limpa lá os vestígios da água entornada, antes que o tampo da mesa-de-cabeceira fique corroído do sal e serve-te aqui de umas palavrinhas, vá…

Está bem, não te queixes! Sei que hoje as tirei tarde demais do forno e ficaram assim um bocadinho a amargar de queimadas. Mas sempre aconchegam o estômago e dão-te sustento.

 

Mas quem te manda a ti querer da vida o que tu própria não te dás? Olha, rapariga, devias ouvir mais a minha voz. Estou farta de te dar lições, será que é tão difícil aprenderes? Eu até acredito que és inteligente, aprendeste muito bem na escola, caem-te muito bem as palavras à-la-crème-de-la-crème sem perderes a delicadeza de gostares das minhas, caseiras, simplórias, às vezes ázimas (que se me esquece sempre de comprar fermento), cozidas em forno de pedra e às três pancadas (ou mais!).

Mas dizia eu que devias dar-me um bocadinho mais de crédito. Ouvir os meus conselhos. Lembrar-te das águas passadas que, apesar de já não moverem moinhos, guardam a memória do trigo e do suor do moleiro. Às vezes, quando calha, até do sangue do moleiro. Parece impossível, tu, sempre tão esperta para aprender teorias e tão burra para as por a bulir! Corrigir-te, digo eu. Olha que vale mais quebrar que torcer! Mas já não vais lá. Eu sei, estás fraquinha de forças, os danos já são irreversíveis. Não é brincadeira, toda a tua vida deixaste-te minar por maleitas, sem ires ao doutor, agora, olha… Ó rapariga, pronto, não ias ao doutor, ias à bruxa, caraças! Principalmente assentavas bem o que eu te digo, cadernos não te faltam, que andas sempre por aí a escrevinhar pelos cantos! E até acho que escreves bem, lês ainda melhor; o que te falta é saber ouvir-me. É que não dá para entender, valha-me Deus!

Ai, não venhas agora tu pedir-me que pare de te azucrinar. Trata do corpo e da memória, rapariga! E não me venhas com essa que se não morresses da doença, morrerias da cura! - olha, e achas que tu ainda estás viva? Sei lá, às vezes duvido. Não é que eu ache que pena te ajude em nada; penas têm as galinhas. Mas, pronto, às vezes tenho pena de ti.

Tanto te aconteço, tanto te moo o juízo, tanto te trago à lembrança golpes sem perdão, palavras vãs e promessas de lobo disfarçado de cordeiro. Já era tempo de emendares a tua fé e remendares o teu hábito. Ou, como quem diz, mandares às favas quem te não merece.

Olha que é a experiência que to diz, pau que nasce torto jamais endireita!

...

Vá, serve-te de mais umas palavrinhas.

Pronto, deixa lá, vá... Amanhã a ver se faço uma receita nova, com mais açúcar, e a ver se não as deixo esturricar.”.

 

Teresa Teixeira

 

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13.1.17

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Foto: New-Year - WSilva

 

“Como vai ser o teu Natal? E, planos, para a passagem do ano? Tens de ter uma passagem de ano inesquecível! Tens de fazer coisas malucas e entrar com o pé direito no novo ano, a ver se a coisa corre bem.” Ah, os meus amigos, preocupados, esperançosos, depois de um ano particularmente difícil, desejando que eu passasse as festividades num processo de purga e renascimento. Algures ali entre Pompeia e Sodoma e Gomorra. Recebi mil dicas, mil maneiras diferentes de sair de um ano e entrar no outro, para garantir tudo de bom nesse recomeço no calendário. Todas, claro, com a garantia pessoal de sucesso, relatadas na primeira pessoa. “Não sei se funciona contigo mas, olha, comigo, desde que comecei a fazer isto, a minha vida mudou. Completamente. Nunca mais tive um ano de azar. Experimenta, não perdes nada.” Ou, “Anda, vai estar muita gente! Tens é de entrar no novo ano a conhecer malta nova, falar horas a fio, beber e comer, dançar muito, mesmo que não te apeteça. Estar ocupada, é isso, tens de estar ocupada.” Ou ainda, “O meu ritual? Coisinha simples de executar: pões-te em cima de uma cadeira Luís XV, levantas o braço direito a 65º, o esquerdo balanceia suavemente, enquanto o relógio faz a contagem decrescente. A faltar cinquenta e sete segundos para o final do ano, penduras um archote entre o mindinho e o anelar da mão esquerda, suspendes a perna direita em mariposa e cantas uma musiquinha, que te vou cantar a seguir. A bater a meia-noite, com a mão direita, comes as passas, abres o champanhe com toda a classe e desces da cadeira como se o mundo fosse teu, sem nunca largar o archote. E assim se tem um grande ano! É garantido. Fala-te a voz da experiência.” Pois… Talvez. Só vos digo que passei a admirar ainda mais as pessoas: elas sobrevivem a rituais incríveis, ano após ano, em busca da harmonia, do amor, da esperança, da prosperidade, dignos dos maiores acrobatas do planeta.

Passadas as festividades, escrevi, finalmente, aos meus amigos da alma, um texto comum, relatando a minha entrada neste novo ano:

 

“Meus queridos amigos, o Natal foi um momento de verdadeira partilha, tranquilo e com muito amor. Passei-o com parte da família, com serenidade, com mais alegria pelas presenças à mesa do que tristeza pelas ausências. Feito o balanço, agradeci cada um desses sentimentos, pela paz com que nos brindaram.

A passagem do ano, bom, foi diferente de todas as que já tive na vida. Não fiquem tristes por não a ter passado convosco, apesar dos vários convites que gentilmente me fizeram. Teria sido maravilhoso, estou certa disso, mas este ano, passei-a com alguém também muito especial. Sei que ficarão curiosos mas ainda é cedo para vos contar tudo. Estou a conhecer alguém novo, esperem, corrijo: não é alguém novo mas que vejo agora, pela primeira vez, com “olhos de ver”. Alguém em quem eu nunca tinha reparado devidamente ou dado grande importância, mas que agora sinto, intensamente, debaixo da pele. Parece que foi tudo muito repentino mas, na verdade, já sentia as suas raízes em mim há algum tempo. A terminar o ano, apeteceu-me muito abraçar essa pessoa, cozinhar para ela, partilhar com ela cada minuto daquela noite, mimá-la e escutá-la, de dentro para fora. Que pessoa tão bonita! Como não havia reparado nela antes?

Amigos, não tenho ainda um relato longo para vos fazer mas que se tranquilize o vosso coração: estou bem, feliz e em paz. Entrei em 2017 na melhor das companhias, grata, profundamente grata por um momento verdadeiramente mágico que me encheu de amor e de esperança. E, sim, estou a apaixonar-me perdidamente por esta pessoa. Algo me diz que pode ser a maior das bênçãos: parece ter vindo para ficar.

Gratidão, também a vós, pelo vosso carinho e pela partilha das vossas experiências. Sei que o fizeram de coração, mas permitam-me que vos fale do meu coração. Diz-me a minha experiência que nem sempre as multidões nos fazem esquecer o que dói, nem sempre permitem distrações suficientes para fingirmos que está tudo bem nas nossas vidas e anestesiarmos os sentidos. Fujo dessas multidões como o diabo da cruz: nunca me senti tão só como no meio de muitos outros. Odeio a solidão acompanhada. Odeio quem me lembra que sentir-me só não é, nunca foi, estar só: é estar vazia.

Este ano quero entregar-me, sem medo, a esta pessoa. Quero conhecê-la sem mais delongas. O meu sonho? Gostava que ela se sentisse verdadeiramente amada por mim, tão protegida, tão forte, quanto alguém se possa sentir. Conto com os dias menos fáceis também, com as fragilidades humanas que nos levam a magoar quem mais amamos, mas sei que a quero mais do que alguma vez quis alguém. E, pasmem, descubro agora que ela sempre me esperou. Todos os dias de todos os anos, vividos e por viver. Sem exceção.

Façam figas por mim, amigos, e prometo que, muito em breve, vos ponho a par dos pormenores da maior história de amor da minha vida.”.

 

Escrevi tudo isto aos meus Amigos e pretendia enviá-lo mas, diz-me também a experiência, que talvez deva guardar para mim, um pouco mais, esta história. Afinal, quem vai realmente entender que passei o Réveillon, feliz, plena, comigo própria?

 

Alexandra Vaz

 

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11.1.17

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Foto: Microphone - Unsplash

 

Chegado aqui, com tanta coisa vista, feita, falhada, falada, ouvida, repetida…, chegado aqui, como dizia o outro, o que fazer? Nada? Está tudo feito, dito, visto? Entrámos em modo permanente de déjà vu?

Com tantos amores e desamores, com inícios e fins, esperanças e desesperos, repetidamente tanto que era e agora já não é, expetativas e desilusões, com a memória tão preenchida, como é que posso ser ingénuo (também é bom), intuir além de deduzir? Como estar disponível para me iludir, entusiasmar-me? Ainda posso improvisar?

 

Felizmente a memória falha, mesmo somando a consciente com a, digamos, inconsciente. A sabedoria acumulada pela experiência está lá (cá), mas deixa lugar à inovação, ao entusiasmo repetido e renovado, à recriação.

Nunca nada é absolutamente igual, as circunstâncias não se repetem (mesmo que tal fosse possível, eu próprio já estou diferente, noutro “sítio”, com outro enfoque, outro olhar). A experiência enquadra-nos, põe-nos em perspetiva, permite-nos perceber o que foi e estar desperto e mais aberto e disponível para o que há de novo.

 

Humano que sou, experiente de anos passados e vividos que sou, tenho assim o privilégio de melhor poder improvisar, inovar, criar de acordo com as circunstâncias, o momento! Adaptar o modo.

Mesmo quando estamos reduzidos a algo quase que meramente mecânico, há que fazer: 1, 2, 3 – Experiência!

Uma e outra vez. Sempre!

Nada está adquirido, totalmente.

 

Jorge Saraiva

 

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9.1.17

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Foto: The Adventures Of Tintin – Benny1900

 

Esta é uma história de vida, uma amarga, mas salutar experiência vivida por duas crianças, na sua meninice, na zona histórica da cidade do Porto. Nessa experiência são protagonistas dois irmãos, com as idades de apenas 8 e 6 anos.

 

O mais velho, João Pedro, era ativamente irreverente, sonhador mas já com enorme gosto pelos livros, especialmente pela leitura de qualquer texto que o fizesse sonhar e imaginar. Fascinava-o tudo o que fosse de leitura, pois nela se deleitava e dava largas à sua fantasia. O mais novo, Pedro João, que o acompanhava nessa propensão para a leitura era, porém, menos irreverente, mais pacato e comedido. O mais velho estava sempre à frente nas ações a empreender nas suas brincadeiras de criança e era sempre ele que tomava a iniciativa, talvez por ter mais “rasgo”, ser mais audaz na prática dos atos mais temerários. Por isso, com frequência se magoava nas pernas e nos braços, resultante do ardor das brincadeiras em que participava com outras crianças. Dir-se-ia ser normal andar com escoriações naquelas partes do seu corpo. A sua irreverência afligia e preocupava muito os seus pais por terem um filho tão rebelde e temerário nas suas brincadeiras de criança, mais por recearem que ele se magoasse ou magoasse alguém com gravidade. Normalmente, para onde ia um irmão, ia o outro. Calcorreavam juntos as artérias da cidade, nas proximidades da sua residência, já que não deviam afastar-se muito da sua casa de família para não incorrerem em desobediência aos pais.

 

Certo dia, à tardinha, numa das suas digressões pelas ruas da cidade, ao passarem junto da porta de um armazém de recolha de pano e papel velhos (conhecido vulgarmente por farrapeiro), repararam que na soleira se encontravam espalhadas algumas folhas velhas de um livro de banda desenhada da conhecida coleção “Tintin”. O João Pedro, ao reparar nessas folhas, não se conteve, não quis perder a ocasião de ficar com algo tão importante para si, para se deleitar com a sua leitura, que julgava não terem qualquer valor senão para si. O João Pedro abeirou-se, então, da porta do estabelecimento e, sorrateira e disfarçadamente, sempre acompanhado pelo seu irmão a curta distância, pegou num pequeno monte dessas folhas. Ato contínuo, porém, já quando o João Pedro ia prosseguir o seu caminho tentando escapulir-se, seguido de perto pelo irmão, foi autenticamente sacudido pelo farrapeiro que o perseguiu e, sem mais, lhe arrancou todas as folhas das suas mãos. O João Pedro ficou estupefato pela atitude inusitada e inopinada do homem, mais até pelo valor que este terá dado àquelas meras folhas que não passavam de papel velho. Mas logo pensou: “se calhar teria sido preferível pedir-lhe as folhas do que ter tentado apropriar-me delas; o farrapeiro terá considerado abusivo pegar nas folhas sem a sua permissão”. Os meninos regressaram a casa já ao final do dia, convencido o João Pedro que tudo aquilo não passara de um mero incidente e que o mesmo estaria sanado.

 

Só que, quando o pai chegou a casa regressado do seu trabalho, o irmão mais novo resolveu não ficar calado e contar tudo o que se passara com o irmão mais velho. O pai, ao ouvir o relatado pelo filho mais novo, ficou fora de si, furioso e sem conter a sua indignação, esbofeteou severamente o João Pedro que já nem jantou e foi deitar-se. Na cama, refletiu sobre tudo o que se passara naquele dia. Sentia-se arrependido pelo ato praticado, mas achou demasiado pesado o castigo que lhe fora infligido pelo pai; mais por este não o ter ouvido. Mas perdoou-lhe aquele excessivo castigo que, afinal, segundo crê, apenas visou cortar, desde logo, cerce, qualquer inclinação do seu filho para a prática de atos ilícitos e reprováveis. Foi esta uma triste experiência que o João Pedro viveu um dia na sua infância; mais tarde, porém, acabou por reconhecer ter sido uma grande lição de vida.

 

José Azevedo

 

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6.1.17

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Foto: Adult – Sasin Tipchai

 

Por mais que tente não consigo…

Não consigo prever tudo mesmo que tenha passado por certas situações vezes sem conta. Há sempre algo novo, alguém que deixa a sua marca e muda tudo o que eu tinha previsto.

A experiência de viver tem-me ensinado que a experiência que temos serve para sabermos lidar com imprevistos. Dá-nos cada vez mais ferramentas para o que der e vier. A minha mala de ferramentas está repleta de peças para boas e más situações da vida. Vivo sempre a pensar que o dia que começou é uma nova experiência que tenho que vivê-la ao máximo e da melhor forma que conseguir. Não penso que tudo sei porque já passei por aquilo ou porque li sobre isso ou porque sei de alguém que já viveu algo semelhante. Muito menos penso que aquilo só me acontece a mim por isso “Eu é que sei...”. Pego sim nesses conhecimentos e tento ultrapassar o que a nova experiência me traz.

Pela minha vida, e tendo isso agora como linha orientadora, sei que o que vivi é muito diferente daquilo que irei viver e só posso controlar uma coisa: o momento. Essa ferramenta eu tenho comigo, o controlo do momento. Faço-o antes, durante e depois desse momento, mas a verdade é que só no próprio instante é que o controlo é feito. Quer seja porque a preparação que fiz bateu certo com o previsto, quer porque toda a ponderação vai por água abaixo e tenho sempre planos B, C, D, … Depois dele acontecer, guardo bem essa experiência na minha mala e sigo viagem sem lamúrias, pois essas, não me fazem falta para novos momentos.

 

Sónia Abrantes

 

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4.1.17

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Foto: Writer – Yerson Retamal

 

Diz-me a experiência que se o momento não é de inspiração não devo insistir em pôr cá fora o que não tenho e que o teclado tão pouco me pode dar. Insistir na ideia de comunicar quando não tenho nada para dizer, também me diz a experiência que não é muito sábio porque o mais certo é ninguém ler. E a experiência é isto mesmo, capacidade de prevenir, tendo por base um conhecimento que advém da recolha de informações vindas do exterior.

Se o que acontece à minha volta não acontece simplesmente, mas é consequente e deixo que me aconteça e me toque, estou a experienciar, significando isso que estou a armazenar conhecimentos. O que eu fizer com esses conhecimentos fará de mim uma pessoa sábia, ou não. A esta altura, pela experiência e pela sabedoria que provavelmente não tenho, eu já deveria ter desistido de escrever sobre o tema, porém, e porque entendo que a experiência não pode ser sempre uma desculpa para os seres de pouca imaginação, e inibidora da criatividade, ainda aqui me mantenho a tecer considerações sobre o tema. E, se a esta altura tu ainda me lês, então a experiência é uma forma de conhecimento, mas sem grande precisão e assertividade.

 

Cidália Carvalho

 

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2.1.17

Women-SergeyKlimkin.jpg

Foto: Women – Sergey Klimkin

 

Eu prefiro falar de experiências de cada um. Entendo como fundamental compreender como a pessoa vivencia as experiências, ou seja, a sua verdade das coisas. Inspirei-me um dia quando li Pio Abreu (1997, p. 15) que a determinada altura, afirma que “Para entender o doente (ou outra pessoa) não importa a realidade objetiva, as coisas em si que ele vive e percebe, mas o modo como ele as vivencia, a sua vivência das coisas, a sua verdade sobre o mundo”. Embora ligada à saúde, e de forma particular à saúde mental, aproveitei as palavras colocadas entre parênteses “ou outra pessoa”, de modo a tentar aplicar esta ideia ao(s) meu(s) viver(es). De facto, quando se procura alguém para se falar de um qualquer assunto, (de uma experiência), o que conforta mesmo é que aquilo que se sente, a sua verdade subjacente, seja compreendido nesse encontro.

As experiências são permeáveis a (micro)mundos morais, a (micro)mundos económicos, a (micro)mundos afetivos, a (micro)mundos relacionais e outros (micro)mundos e, por isso, o paradigma compreensivo é aquele que mais informação nos permite obter dessas experiências. Arrisco dizer que no(s) nosso(s) viver(es) essa compreensão só é possível se estivermos atentos a tudo o que nos é fornecido pelo outro, e esta forma de atenção exige habilidade pessoal e clínica. Nesta perspetiva, quando se trata de experiências de doença (às vezes da mesma doença), parece ser importante, investigar que pessoa a doença tem e, nem tanto, que doença a pessoa tem. Compreenderemos melhor aquela pessoa com a sua doença? Não foi intencional escrever sobre doença, mas o pensamento levou-me aqui…

 

Ermelinda Macedo

 

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23.12.16

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Foto: Tub – Domenico Mattei

 

Ter ou não esperança depende de cada pessoa, do seu momento e do estado em que se encontra. Esperança no sentido de que acredita que aquilo que deseja seja atingido com mais ou menos dose de fé. Ter esperança é crer ser possível atingir um desígnio, um objetivo, uma meta. Portanto, ter esperança parte sempre da crença emocional na possibilidade de se concretizar determinados sonhos ou de conseguir determinados fins.

Ter esperança é ter um ato de fé nos propósitos e nas intenções. É acreditar em si próprio e nos seus talentos, acomodados por uma boa dose de esforços pessoais. Ter esperança é não desanimar ao primeiro sinal de frustração de expetativas; é não atirar a toalha ao chão à menor dificuldade; é não abdicar do objetivo à primeira contrariedade. Ter esperança exige perseverança, exige convicção, exige autoestima, exige lutar por algo que se deseja. Ter esperança é ter trabalho, esforço e dedicação a uma causa. É estar cheio de emoções, sensações e energias positivas. É acreditar em si próprio, no seu trabalho, no seu esforço, na sua dedicação, na sua utopia.

 

Nos dias que correm, fala-se pouco da palavra esperança. Vivem-se tempos de desconfiança, no próprio e no próximo, vive-se para dentro de si próprio, fechado no seu ninho, no seu mundo. O homem não é uma ilha. Por tal, perante a insensibilidade e falta de caridade que se semeia, dever-se-ia propalar os valores da solidariedade, da amizade, da compreensão, da paz.

No combate à guerra, à fome, à miséria, à violência, quem de direito deveria usar todos os meios no sentido de dar esperança a quem daqueles males sofre. Ter esperança é ter a coragem de remar contra a maré, é ajudar sem receber nada em troca, é defender os indefesos, é fazer com que aconteça.

Ter esperança é viver e fazer viver.

 

Fernando Lima

 

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