25.9.12

 

 

“Amar é querer estar perto, se longe; e mais perto, se perto.”

Vinícius de Moraes

 

Luís caminhava lento na pérgula, com o mar à sua esquerda - cinzento esverdeado, um pouco revolto sob uma nuvem larga e espessa, e a chuva miudinha a colar-se-lhe no rosto. Sempre gostara daquele lugar, de nele ver aquela luz parca de dia chuvoso, de ali sentir a chuva a tocar-lhe a pele e o cabelo, de a sentir escorrer-lhe pelo corpo, de encher os pulmões com o cheiro da areia molhada. Era um dos momentos em que conseguia estar longe da sua vida, retirar-se dela, e ficar apenas na sua condição de animal, ele e os elementos, rendido, seduzido e apaixonado por aquela grandeza, por aquela beleza. E quando conseguia estar assim, mano a mano com a Terra que o suportava, conseguia ter uma visão interior perfeita, observar-se e reconhecer-se com todo o rigor e pormenor – apenas sentimentos e emoções.

Descera a rampa e caminhava agora para a entrada do molhe, para renovar a visão das ondas a precipitarem-se violentamente contra o obstáculo de granito, a galgarem-no, a finalmente caírem, desamparadas, do outro lado, diluindo-se no mar, recompondo-se em si mesmo. Luís necessitava de aprender a fazer isso – diluir-se e recompor-se em si mesmo. Mas não tendo a mesma natureza fluída do mar, como consegui-lo?

Parou na entrada no molhe, em posição de ter uma visão completa, perfeita, sem o ruído de outros humanos.

Sentia estar tão longe… Quando estivera perto dela, bem perto, sentia que nunca estava suficientemente perto, ansiava por se aproximar, por estar cada vez mais perto, por se unir a ela, por se fundir com ela. Agora, sentia que estava longe e que essa distância não cessaria de aumentar, de os colocar cada vez mais e mais longe. Com igual ansiedade queria colocar um limite naquela lonjura insaciável. Queria abrandar aquela dor, aquele sentimento que o corroía, inflexível, em círculos, de dentro para fora, sem cessar.

“- Já nada sinto por ti. Estou apaixonada por outro homem. Está tudo acabado!”

Acabado? A distância, a dor, começaram agora.

No contínuo cinzento de céu e de mar, desenhou-se de repente um risco, quebrado, intenso, aceso. Uns segundos depois ficou sacudido pelo estrondo. Uma gaivota gritou, assustada.

Como colocar longe o que está tão perto? Como trazer para perto o que está tão longe? Como recomeçar?

 

Fernando Couto

Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 20:05  Comentar

Maputo | Moçambique

Pesquisar
 
Destaque

 

Porque às vezes é bom falar.

Equipa

Alexandra Vaz

Ana Martins

Cidália Carvalho

Ermelinda Macedo

Fernando Couto

Jorge Saraiva

José Azevedo

Leticia Silva

Rui Duarte

Sandra Pinto

Sandra Sousa

Sara Almeida

Sara Silva

Sónia Abrantes

Tayhta Visinho

Teresa Teixeira

Setembro 2012
D
S
T
Q
Q
S
S

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
12
13
15

17
19
20
22

23
24
26
27
29

30


Arquivo
2017:

 J F M A M J J A S O N D


2016:

 J F M A M J J A S O N D


2015:

 J F M A M J J A S O N D


2014:

 J F M A M J J A S O N D


2013:

 J F M A M J J A S O N D


2012:

 J F M A M J J A S O N D


2011:

 J F M A M J J A S O N D


2010:

 J F M A M J J A S O N D


2009:

 J F M A M J J A S O N D


2008:

 J F M A M J J A S O N D


Comentários recentes
gostei muito do tema artigo inspirado com sabedori...
Não podia concordar mais. Muito grata pelo comentá...
Dinheiro compra uma cama, mas não o sono...Compra ...
Caro Eurico,O cenário descrito neste artigo enquad...
Grande artigo, que enquadra-se com a nossa realida...
Presenças
Outras ligações
Música

Dizer que sim à vida - Carlos do Carmo:

 

Dizer que sim à vida - Luanda Cozetti: