15.1.13

 

Como habitualmente, Inês chegou cedo à empresa. Gosta de ter tempo para tomar café e dar dois dedos de conversa com os colegas antes de começar a trabalhar. Pousa o saco, tirou o casaco e liga o computador. A atualização das pastas é sempre um processo demorado, aproveita então para se dirigir à copa e tomar café. As conversas, nos últimos tempos, não variam e esgotam-se no processo de reestruturação em curso. Há sempre alguém que conhece alguém que foi contactado para rescindir amigavelmente. Os comentários, os mesmos de sempre mas ainda assim repetidos e enriquecidos com notas pessoais de indignação pela forma como decorre o processo, manifestam pesar e solidariedade para com os colegas atingidos e alívio por os presentes terem sido poupados ao drama do desemprego. Relembram-se os critérios para a seleção dos rescindidos, critérios que ninguém conhece mas que se pensa estarem ligados à antiguidade, às notas de classificação de desempenho e às ausências. Inês dá-os como válidos até porque lhe convém porque não se enquadra em nenhum deles e, com esta confiança, prepara-se para iniciar mais um dia de trabalho.

As pastas do mail já estão actualizadas; o Inbox mostra as novas mensagens por ordem alfabética. A primeira é da Direção dos Recursos Humanos. É tomada por um nervoso miudinho e por um suor frio que a invade e abala a sua confiança. Não quer acreditar. Ela não pode ser apanhada na rede dos desempregados, era demasiado mau. Mas depois de ler o mail, a clareza da convocatória não lhe deixa dúvidas, marcaram-lhe uma reunião para o dia seguinte, para discutir a possibilidade de uma rescisão amigável.

O que fazer? Que decisão tomar? Aceitar o que lhe proporão?

Segundo consta, as condições são muito generosas e muito acima do exigido pela lei. Ainda assim tem medo de encarar o futuro sem emprego.

Não aceitar e permanecer na empresa? Casos houve em que os colegas não aceitaram, mas corre a notícia que, para esses, haverá um novo plano muito mais desfavorável: o despedimento coletivo sem direito a indemnização.

Nada fazia prever que ela tivesse de encarar súbitas alterações na sua vida; não contava com isso. Mais, o que ainda é pior, exigem-lhe que seja ela a decidir como será o seu dia de amanhã, desde que essa decisão vá no sentido da vontade deles e no interesse da viabilização da empresa, claro está. Viabilização da empresa?! Cínicos! A viabilização da empresa está na força do trabalho e ela sempre teve brio profissional, sempre deu o seu melhor. A mágoa dificulta-lhe o raciocínio lógico, o que acabou de ler fragilizou-a demasiado para poder decidir se deve ou não aceitar. Que sabe ela do amanhã para tomar hoje uma boa decisão?

A dor que sente no peito obriga-a a respirar fundo. Controla-se para não gritar a sua indignação. Não sabe o que fazer, sendo certo que não se decidir é uma decisão que não é aceite. Alguma coisa terá que fazer.

Está muito nervosa e sem condições para desempenhar o que se propunha fazer naquela manhã, de resto, como em muitas outras anteriormente, trabalhar com empenho, por isso, e pela primeira vez desde que foi admitida, tomou a decisão de faltar ao trabalho. Encerrou o computador, vestiu o casaco, pegou no saco e saiu, desta vez sem se despedir com o habitual: “Até amanhã”.

 

Cidália Carvalho


Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 10:00  Comentar

Maputo | Moçambique

Pesquisar
 
Destaque

 

Porque às vezes é bom falar.

Equipa

Alexandra Vaz

Ana Martins

Cidália Carvalho

Ermelinda Macedo

Estefânia Sousa Martins

Fernando Couto

Fernando Lima

Jorge Saraiva

José Azevedo

Leticia Silva

Rui Duarte

Sandra Pinto

Sandra Sousa

Sara Almeida

Sara Silva

Sónia Abrantes

Tayhta Visinho

Teresa Teixeira

Vanessa Santana

Janeiro 2013
D
S
T
Q
Q
S
S

1
2
3
4
5

6
7
8
9
10
12

13
14
16
17
19

20
21
23
24
26

27
28
30
31


Arquivo
2017:

 J F M A M J J A S O N D


2016:

 J F M A M J J A S O N D


2015:

 J F M A M J J A S O N D


2014:

 J F M A M J J A S O N D


2013:

 J F M A M J J A S O N D


2012:

 J F M A M J J A S O N D


2011:

 J F M A M J J A S O N D


2010:

 J F M A M J J A S O N D


2009:

 J F M A M J J A S O N D


2008:

 J F M A M J J A S O N D


Comentários recentes
gostei muito do tema artigo inspirado com sabedori...
Não podia concordar mais. Muito grata pelo comentá...
Dinheiro compra uma cama, mas não o sono...Compra ...
Caro Eurico,O cenário descrito neste artigo enquad...
Grande artigo, que enquadra-se com a nossa realida...
Presenças
Outras ligações
Música

Dizer que sim à vida - Carlos do Carmo:

 

Dizer que sim à vida - Luanda Cozetti: