10.5.13

 

O mais perto que estive de um ambiente violento foi há uns anos, quando uns amigos me convidaram a assistir a um jogo da Liga entre o Sporting e o Benfica, e a caminho do estádio fomos surpreendidos pelas claques benfiquistas escoltadas pela polícia.

Mesmo sem termos qualquer elemento exterior que nos identificasse como adeptos de futebol, foi-nos pedido, por alguns agentes policiais, que nos recolhêssemos na entrada de um dos prédios da rua perpendicular à que seguíamos e por onde passariam as claques, cujas vozes se ouviam a aproximar.

Disseram-nos que era para evitar confusões. Fizemos o que nos pediram, tendo optado por um prédio com uma entrada mais recolhida, mas de onde podíamos assistir à passagem de uma multidão compacta que desfilava gritando palavras de ordem (leia-se palavrões contra tudo e contra todos) e entoando cânticos de apoio ao clube.

O meu coração que em criança se tornou vermelho apenas para “provocar” o meu pai que era sportinguista ferrenho, batia aceleradamente enquanto eu murmurava: “Será que vou ser “chacinada” aqui? Por causa do futebol e por aqueles que supostamente deveriam estar do meu lado?”

Os meus amigos riam-se de mim, mas nesse dia tive a certeza de que não fui feita para estas aventuras.

Durante a infância não tive qualquer contacto com a violência, embora tenha brincado com uma mini-pistola e umas algemas, ambas prateadas, que eu tirava ao meu irmão sempre que me ele não via. Nunca as usei para brincadeiras agressivas, pelo contrário, usava a mini-pistola como adorno feminino em brincadeiras de fazer toiletes e as algemas, que tinham um fecho de segurança bem forte, serviam de jogo que era ganho por quem as conseguisse tirar mais rapidamente.

Hoje em dia, as coisas estão diferentes e é impossível dizer que a violência não faz parte das nossas vidas.

Se não o faz diretamente, a verdade é que indiretamente convivemos com ela.

As notícias que vimos ou lemos falam-nos de guerras, ataques terroristas, homicídios, assaltos, violência doméstica, abusos a menores, maus-tratos a animais, crimes contra o meio ambiente, bullying, raptos, torturas, pressões psicológicas, violações… já para não falar da violência das palavras.

E mesmo que nos recusemos a seguir as notícias, basta-nos sair à rua para sermos confrontados com as mais diversas formas de violência.

Entro no café e ouço as histórias mais mirabolantes de violência: o M é um malandro, chegou a casa com os copos e a pobre da V é que levou… o pior é que ela não quer fazer queixa dele… ou a Sra. G, coitadinha, fez tudo pelos filhos e agora aquele malandro do filho mais velho rouba-lhe tudo e ainda a anda a ameaçar que a vai pôr na rua…

Saio do café, entro no carro e lembro-me do comentário de um amigo que é enfermeiro, quando assistiu à valente buzinadela que dei a um condutor que desrespeitando um stop quase nos abalroou. Na altura, ele referiu que o número de entradas nas urgências devido a discussões relacionadas com o trânsito tem aumentado significativamente, aconselhando-me a moderar o ímpeto de utilizar a buzina.

De carro, chego ao centro da cidade e procuro estacionamento. Dois arrumadores correm na minha direção aparentemente exaltados a reclamarem para si o lugar e a eventual moeda que raramente dou. Enquanto eles discutem entre si, ameaçando-se mutuamente, estaciono, saio do carro e afasto-me a pensar se o meu carro estará intacto quando voltar.

Enquanto caminho, passo à porta de um talho e vejo algum aparato policial e não resisto a cuscar. O que se passou? Veja bem filha, – relata-me uma senhora de preto que por ali andava - a mulher pediu um quilo de carne e o vigarista pesou-lhe menos, mas queria que ela pagasse o quilo. Começaram a trocar palavras e o dono do talho que estava lá dentro a desmanchar um porco, veio perguntar o que se passava e a mulher começou a chamar-lhe nomes, daqueles nomes que não se chamam a ninguém… o homem não aguentou e atirou-lhe com o lombo que tinha na mão! A mulher pegou no telemóvel e ligou para o marido que estava no café da esquina a tomar um aperitivo… e lá veio o marido com os amigos… entretanto, tinham chamado a polícia… a esquadra é mesmo ali… e agora estão a resolver as coisas…

Vou à escola buscar os meus filhos e fico a saber a história do miúdo que bateu no outro porque se julga o maior… a direção da escola chamou os pais que não aceitaram as críticas ao filho, porque o outro miúdo é que era um provocador… os pais do outro contestaram, até porque toda a escola sabe que o filho nunca se mete em confusões... discutiram, mas depois concluíram que afinal a culpa era da professora que se julgava uma iluminada e foram procurá-la para a ameaçar… e no final disto tudo, um dos pais, muito arreliado por ter sido chamado à escola em vão, dá um estalo a um dos miúdos mais crescidos, porque o ouviu comentar que o filho era muito provocador, mesmo para os colegas mais velhos… chamaram os pais do miúdo agredido, que entretanto chamaram a polícia, acabando tudo na esquadra.

E poderia continuar a narrar outros episódios do dia-a-dia, alguns mais castiços, outros nem tanto, mas todos marcados por traços de violência.

É impossível dizer que a violência não faz parte das nossas vidas!

Ela existe e encontramo-la um pouco por todo o lado.

A violência foi banalizada ao ponto de, por vezes, lhe sermos indiferentes!

Numa crónica intitulada “Reportagem dos Suicídios”, publicada no Diário de Notícias de 17 de Julho de 1903, assinada por L. Mano (Cousas&Lousas) pode ler-se o seguinte: “A profilaxia do suicídio por contágio está evidentemente na ocultação do facto. A imprensa diária é incontestavelmente o veículo mais importante para a sua propagação.”

Fazendo uma analogia talvez forçada entre o suicídio e a violência, fiquei a pensar ao ponto de me questionar sobre se a violência se pode propagar por contágio.

Estando expostos a diversas formas de violência, não será possível tornarmo-nos nós próprios pessoas violentas?

E no caso de a violência ser efetivamente contagiosa, será possível falar de uma profilaxia da violência?

Estas questões incomodam-me bastante, particularmente numa altura em que os especialistas afirmam, cada vez com mais certezas, que todos, mesmo os que dizem não o ser, somos “homicidas” em potência, bastando sermos colocados perante determinadas circunstâncias e sujeitos a fatores específicos para nos tornarmos homicidas de facto.

Durante a adolescência fui coleccionando frases que guardava num pequeno caderno e me serviam de inspiração para o dia-a-dia. Mantive o hábito de o abrir em momentos distintos da vida. Ultimamente, dou por mim a abri-lo com mais frequência e a demorar-me em algumas frases como esta, de Martin Luther King: “Uma das coisas importantes da não-violência é que não busca destruir a pessoa, mas transformá-la.” Noutro dia, acrescentei a lápis uma frase de Dalai Lama, retirada de um site da Internet: “Violência não é um sinal de força, a violência é um sinal de desespero e fraqueza.”

Será a violência realmente contagiosa?

Sendo-o, será possível uma profilaxia da violência?

Não sei!

Sei que vou continuar a abrir o meu livrinho, inspirar-me nas palavras que ele guardou todos estes anos e sorrir à vida, na esperança de nunca me ver perante as tais circunstâncias que os peritos dizem poderem levar qualquer homem à violência!

 

Cristina Vieira (articulista convidada)


Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 09:00  Comentar

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