13.9.13

 

Uma senhora, cujos cabelos de prata denunciam a avançada idade, aproxima-se, timidamente, da Pessoa.

- Desculpe… não queria incomodar, mas… tenho tanta fome… será que não me poderia arranjar alguma coisinha para eu comprar o que comer?

Os seus modos são humildes, a sua indumentária simples mas elegante, e os seus cabelos exemplarmente penteados e apanhados atrás.

A Pessoa estremece enquanto vai conversando com a senhora sobre os porquês, os comos e as possíveis soluções para um problema que não se resolverá com o que quer que a Pessoa possa oferecer naquele momento. Estremece por pena, por culpa, por revolta, por um sentimento de atroz impotência.

Ao lado, Outra Pessoa assiste à conversa.

Entretanto, a Pessoa revolve a carteira. Depois, revolve o porta-moedas, deserto de notas e com poucos vestígios de moedas. E, por mais que vire, e revire entre talões e ganchos e outras insignificâncias, tudo o que consegue reunir são 50 cêntimo… que deposita, envergonhada, na mão da senhora.

- Não dá nem para uma sopa! – responde a senhora com franca desolação.

A senhora estabelece agora contacto com a Outra Pessoa, que ali está, desde o início em enfadado silêncio:

- Talvez me possa arranjar mais qualquer coisa?...

A Outra pessoa não estremece. Nem procura na carteira.

- Procure ajuda junto das Instituições criadas para o efeito. É para isso que pago os meus impostos.

A Outra Pessoa age de forma defensiva, imune a sentimentalismos baratos e gastos. Detesta o facilitismo que a sociedade permitiu criar para estas pessoas viverem às custas, não do Estado, mas de outras pessoas, que já cumprem o seu papel de cidadãos, e de que maneira!

E sacode a Pessoa com o intuito de a chamar à Razão e pôr termo a este encontro incómodo.

A Pessoa despede-se em silêncio da senhora, com um abraço forte e quente, daqueles que dava aos seus avós como prova de um afeto sem fim.

 

Muitos dias depois, a Pessoa ainda pensa na senhora, com um desejo secreto de a voltar a encontrar, desta vez com uma carteira mais recheada, ou, melhor ainda, de a encontrar melhor, salva da injustiça social a que não pôde escapar.

A Outra Pessoa nunca mais pensou na senhora, porque o Estado é que tem essa função, e a sua mente deve ocupar-se de assuntos úteis, práticos e com resultados e benefícios. É isso que fazem os vencedores.

 

Uma Pessoa e uma Outra Pessoa, ambas expostas ao mesmo evento, respondem de forma diferente. Porquê?

Porque a inFormação (ou, mais claramente, a Formação individual) é diferente.

Resulta de um percurso de vida, da absorção de inFormação recolhida e filtrada a partir de diversas fontes. É uma espécie de Cartão do Cidadão interno, que prima pela singularidade, pois cada pessoa é única.

Mas tem um certo grau de transmissibilidade, já que cada pessoa pode enriquecer a sua inFormação a partir do contacto com outras pessoas.

Ou, mais desafiante ainda, uma pessoa pode modificar a sua inFormação a qualquer momento, pondo em perspetiva inFormações dissociantes e fazendo prevalecer a melhor, mesmo que isso implique uma mudança radical na sua forma de ser, estar, pensar.

Evoluir.

    

Sandrapep


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