1.10.13

 

Numa manhã, igual a todas as outras, apanhei o autocarro para ir para a escola, andava eu no 10º ano. Quando cheguei, vários autocarros chegaram ao mesmo tempo, descendo deles muitos dos meus colegas de escola e de turma.

O pátio de entrada estava cheio de pessoas, cruzando-se os vários olhares de sempre. Mas, naquele dia, os meus olhos cruzaram-se com dois olhos azuis que me deixaram presa por algum motivo que não entendi. Depois de uns minutos conseguimos desviar o olhar um do outro e seguir os nossos caminhos.

Passei as aulas desse dia a pensar se voltaria a cruzar-me com aquele rapaz que me encantou apenas com o olhar.

À medida que os dias foram passando, o objetivo dos intervalos era fazer com que o meu grupo de amigas preferisse sentar-se num local onde eu pudesse ver aqueles olhos novamente, mesmo sem elas se aperceberem.

Passaram-se meses até que elas percebessem que eu comunicava daquela maneira com aquele rapaz. Quando esse dia chegou, porque eu já não me esforçava para o esconder, uma delas insistiu tanto para explicar o que ali se passava que eu acabei por desvendar todo o mistério desta relação quase utópica.

Digo quase, porque não era apenas eu que olhava. Era também olhada nos meus olhos, sentindo-me invadida por ele de alguma forma que não conseguia descrever.

Várias semanas se passaram, deixando as minhas amigas cada vez mais impacientes e sem saber por que razão não nos apresentávamos um ao outro, quebrando esta barreira.

Como as amigas fazem tudo por nós, até mesmo o que não queremos, um dia montaram um esquema e fomos realmente apresentados, tendo até feito uma conversa onde trocamos apenas os nomes e um sorriso tímido, sem jeito e até de desilusão.

Depois deste dia, depois da suposta barreira ser quebrada, deixei de procurar o olhar e, quando por acaso nos cruzávamos, era agora bem mais fácil de explicar o sentimento que carregava: desilusão de ambos.

Pensar naqueles olhos, olhar para eles como algo misterioso e fora do meu alcance, tornava toda a situação apetecível, com vontade de ter mais. Depois de dar apenas mais um passo, ou seja, acrescentado palavras, todo o desejo se desmoronou, deitando fora toda a beleza e sexualidade da relação diária que criámos de forma espontânea, natural e sem compromissos.

O mistério do desconhecido tornava o desejo monstruoso, quebrado com um simples olá e com a intenção de tornar os sentimentos e vontades verbalizados.

 

Sónia Abrantes


Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 09:00  Comentar

Maputo | Moçambique

 pessoa(s) ligada(s)

Pesquisar
 
Destaque

 

Porque às vezes é bom falar.

Articulistas

> Alexandra Vaz (PT)

> Ana Martins (PT)

> Cidália Carvalho (PT)

> Ermelinda Macedo (PT)

> Fernando Couto (PT)

> Fernando Lima (PT)

> Jorge Saraiva (PT)

> José Azevedo (PT)

> Leticia Silva (PT)

> Rui Duarte (PT)

> Sandra Pinto (PT)

> Sandra Sousa (PT)

> Sara Almeida (PT)

> Sara Silva (PT)

> Sónia Abrantes (PT)

> Tayhta Visinho (PT)

> Teresa Teixeira (PT)

Outubro 2013
D
S
T
Q
Q
S
S

1
2
3
4
5

6
7
8
9
10
12

13
14
16
17
19

20
21
23
24
26

28
30
31


Arquivo
2017:

 J F M A M J J A S O N D


2016:

 J F M A M J J A S O N D


2015:

 J F M A M J J A S O N D


2014:

 J F M A M J J A S O N D


2013:

 J F M A M J J A S O N D


2012:

 J F M A M J J A S O N D


2011:

 J F M A M J J A S O N D


2010:

 J F M A M J J A S O N D


2009:

 J F M A M J J A S O N D


2008:

 J F M A M J J A S O N D


Comentários recentes
gostei muito do tema artigo inspirado com sabedori...
Não podia concordar mais. Muito grata pelo comentá...
Dinheiro compra uma cama, mas não o sono...Compra ...
Caro Eurico,O cenário descrito neste artigo enquad...
Grande artigo, que enquadra-se com a nossa realida...
Parabéns Ana Martins, uma abordagem bastante suges...
Obrigado Denise, embora sinta que tenha sido basta...
Muito bom !Explicou exactamente o que eu penso!!!
Concordo plenamente caro Dr. Sendi, o facto é que ...
Gostei muito do artigo .Estou plenamente de acordo...
Presenças
Outras ligações
Música

Dizer que sim à vida - Carlos do Carmo:

 

Dizer que sim à vida - Luanda Cozetti: