29.3.09


 


As grandes concentrações urbanas, cada vez mais, criam sem-abrigo, pessoas sem tecto, sem família, sem amigos, sem afectos, enfim sós... numa praça, num banco de jardim, na entrada de prédios e lojas, em contentores de lixo, ou simplesmente na rua, já nos fomos habituando a estes elementos paisagísticos... Ainda que à primeira vista pareça escandalosa esta afirmação, a verdade é que os transeuntes passam, olham, por vezes reparam e sentem desconforto, mas na maior parte das vezes são indiferentes...

Pessoas marcadas por rupturas familiares e relacionais, por doenças graves, por comportamentos aditivos, por ausência de uma casa para viverem, pela falta de emprego, moram na rua... rodeados de centenas de outras pessoas, de sons, de movimento e ao mesmo tempo tão sós... as relações afectivas significativas são muitas vezes inexistentes. O conforto, o calor humano de um abraço, o sorriso sincero de um amigo, de um familiar, o aconchego de um sofá, um programa de televisão, uma refeição quente... não existem... como se sentirão estas pessoas? Miseráveis, digo eu...

Gente rica de experiências anteriores, de histórias da família, dos amigos, do emprego... e agora? Restam-lhe memórias... que não se partilham... apenas restam lembranças...

Naturalmente estas pessoas andam a passos largos por caminhos de tristeza, sombra, e solidão. Bateram no fundo de todo e qualquer processo de exclusão.

 

Há alguns anos atrás, numa praça da cidade do Porto, conheci um senhor que costumava permanecer por ali... parecia ter meia idade. Era alto, de aspecto grotesco. Tinha barba e cabelo compridos. Costumava falar com ele próprio e por vezes em alta voz... os transeuntes reparariam nele por estas razões. Foi também isso que me chamou a atenção. Um certo dia vim a conhecer a sua História da Vida e tive oportunidade de ter conversas muito interessantes e despertadoras da consciência. Afinal ele tinha uma voz doce, meiga, apesar de carregada de tristeza, um discurso eloquente, uma consciência e uma lucidez incríveis, contrariando as primeiras impressões.

Foi uma pessoa que passou parte da vida a formar-se, a criar uma família, mulher, filhos, amigos, a construir uma carreira, enfim aquilo que a maioria de nós tenta fazer e faz de alguma forma. No entanto, a dependência alcoólica e do jogo, começaram por corroer, destruir aquele lugar... Após várias tentativas de tratamento, sem sucesso, a família desistiu, afastou-se, abandonou-o... No emprego, foi despedido... Sem rendimentos, deixou de pagar a casa... foi despejado... passou a morar na rua… só. Desde aí tem andado de cidade em cidade, de praça em praça, de rua em rua... nunca mais falou com a mulher e os filhos... Pensa todos os dias neles... tem saudades, muitas. Sente vergonha e frustração. Para não voltar a desiludir nem defraudar aqueles que tanto ama, mantém-se na rua, com ele só.

Os comportamentos relacionados com a dependência alcoólica agravaram-se e outros problemas de saúde associados vão aparecendo, físicos e mentais. Até quando durará a lucidez e a consciência que tanto me surpreenderam? E as memórias, até quando ficam? Sim, porque o resto já se extinguiu há muito...

As condições adversas a que progressivamente foi sendo sujeito e que culminam numa ruptura total com todos os sistemas de pertença, formais ou informais, tornam-no num excluído, no sentido mais grave que a expressão possa ter.

 

Será que cada um de nós alguma vez pensa que estas pessoas deixam atrás de si Histórias, experiências e vivências tão idênticas às nossas? Será que achamos que nasceram no abismo em que as vemos e que sempre foi assim, para eles? E que nós estamos muito longe de chegar àquela condição? Não criemos ilusões... 

 

JM

 
Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 18:27  Comentar

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