12.5.09


 


Numa tela em branco, pincelada após pincelada, vai-se dando formas a um estado de alma traduzido em cores, traços e riscos.

Carregando-se mais no azul para que se possa percepcionar a agitação das águas que se tenta recriar. O preto serve para dar formato as âncoras que se vêem presas a uma silhueta humana. Preto e mais preto agarrado a cada membro de um corpo demasiado franzino para segurar tanto peso.

A vida tumultuosa e imprevisível é representada por um mar revolto e encrespado, os constantes e permanentes obstáculos ganham o contorno de ondas.

Sob a aparência de uma pequena e discreta “mancha” consegue-se vislumbrar o lugar que se pretende alcançar. O possível oásis onde se possa saciar a sede, matar a fome e conquistar a tranquilidade.

 

Com tons pálidos, o esboço de um ser humano salienta-se, um rosto sem definições, sem características particulares. Vê-se o significado da sobrevivência, traduzida em braçadas constantes para conseguir manter um corpo demasiado fraco, com demasiado peso, à tona. Esse rosto, esse corpo pode ser de qualquer um, pode ser meu, teu, dele ou daquele! Quantos de vós já se sentiram a afogar, a perder a força e a querer desistir?

Já alguma vez se sentiram no meio de um oceano, sabendo que para sobreviver teriam de nadar sem parar, vencer o cansaço, o medo, e ainda suportar o peso de âncoras amarradas a cada uma das pernas e cada um dos braços? Tiveram de boiar e descansar para recuperar forças, fôlego, para logo em seguida, após algumas braçadas fortes, se sentirem novamente cansados e impotentes para prosseguir um milímetro mais.

A solução foi-vos dada pela razão: tinham apenas de desamarrar as âncoras e deixarem-nas escorrer até as profundezas. A indecisão foi-vos ditada pelo coração, quando continuaram e persistiram em alcançar a tal “mancha” sem se desfazerem do peso de uma âncora que fosse. A teimosia, o orgulho, a estupidez, a inocência, o carinho, o amor foram verdadeiros ditadores!

Debateram-se mais e com mais força que a própria fúria de Neptuno num dia de tempestade! Resistiram e persistiram estoicamente, sentiram que nadavam em círculos, sabiam que perdiam tempo e mesmo assim continuaram em insistir? Insistiram em não abrir mão de pesos que já se encontravam mortos e a possibilidade de os salvar há muito tinha-se extinguido!

Tudo porque teriam que admitir que perderam, que se perderam - a vida, o conteúdo, o valor, o significado, o sentimento que aquelas âncoras representavam!

 

Sem saberem distinguir se o sabor a sal que sentiam na boca seria das lágrimas ou da água que vos ameaçava afogar, tiveram de largar, de desistir, e de esquecer os motivos que vos levaram a tentar salvar a todo o custo umas âncoras que, um dia, tiveram a forma de um bonito sentimento e os contornos de um sonho.

Sentimentos, sonhos que poderão ter a forma de âncoras para mim, para ti, para ele ou para aquele.

 

Numa última pincelada termina-se a tela com todas as cores, todos os traços e riscos que representam um estado de alma quando se termina uma história.

 

Susana Cabral

(Imagem: Barcos Holandeses na Tempestade, de J. M. W. Turner)

 
Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 01:10  Comentar

De susana cabral a 16 de Maio de 2009 às 23:54
Nunca em circunstancia alguma deveremos deixar de lutar para alcançar a "mancha" de sermos e estarmos felizes.
Apenas, na tomada de consciência , que estamos no caminho errado, não deveremos mudar o nosso objectivo (ser feliz) mas talvez alterar o caminho para lá chegar.

De Filipa Rocha a 16 de Maio de 2009 às 19:01
Todos os obstáculos que encontramos no nosso caminho, que nos querem roubar os sonhos e objectivos, são batalhas que depois de vencidas adoçam o sabor da conquista. E no final as recordações, boas ou menos boas, ficam guardadas e transformam-se em lições de vida que nos moldam ao longo do tempo...

De liliana a 14 de Maio de 2009 às 14:27
De facto a vida tem por vezes momentos em parece que estamos num verdadeiro oceano revolto, em que temos de nadar incessantemente para conseguirmos sobreviver. As forças começam a falhar e passa-nos pela cabeça simplesmente parar de lutar.

De PRM a 12 de Maio de 2009 às 13:30
Eu sei bem o que transmite este retrato porque eu já passei já senti tudo o que esta a descrever. E chego à conclusão que a vida é um retrato de sentimentos umas vezes bons outros mais desagradáveis.

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