14.10.08

 


Desde muito cedo aprendemos as regras para viver e conviver em sociedade. São-nos transmitidos os valores de uma conduta "honrada" e sem "preconceitos".

Desde muito cedo temos a capacidade de julgar, de justificar e de nos tornarmos intolerantes face a problemas a soluções que muitos não conseguem enfrentar. Somos capazes de tecer comentários e enchemo-nos de razão quando defendemos o nosso ponto de vista perante situações em que a ignorância é total, podendo-o ser, ou não, por opção.

 

Começamos por fingir que actos como o suicídio não existem nas nossas "redondezas", que nem de perto nem de longe roçam as nossas vidas e quando ouvimos falar que alguém se suicidou, pensamos de imediato que não existe nenhum problema assim tão "grande", ou tão "grave" que justifique tal acção, tão "cobarde" perante a vida. Os mais generosos podem comentar que nesse acto de "cobardia" existiu um acto de "coragem", por um ser humano ter conseguido infligir a si mesmo tamanha violência física.

Continuamos a divagar sobre os verdadeiros problemas, as verdadeiras causas e quando se divulga um qualquer suicídio, acabamos por nunca saber as verdadeiras razões e ficamos sempre a perguntar "o que estaria a passar na cabeça daquele ser humano?", ou "será que ninguém percebeu o caminho que estava tomar?", ou "é claro que só podia ter acabado em suicídio!".

 

Sempre ouvi este e aquele caso de alguém que tinha posto termo à sua vida, mas nunca parei para meditar sobre o assunto, até que de uma forma mais próxima o suicídio me bateu à porta, em forma de uma chamada telefónica, dando a conhecer que um amigo de longa data se tinha suicidado naquele dia. Não quis acreditar. Tratava-se um ser humano que sempre esteve de bem com a vida, que tinha sempre um sorriso para partilhar e que tinha um amor pela vida como eu nunca vi.

Questionei-me vezes sem conta do porquê. Depois senti imensos remorsos por nunca ter dado conta, por nunca me ter apercebido e, sobretudo, por não saber como poderia ter percebido e ter ajudado a prevenir um acto irremediável.

 

Foi nesse dia que decidi abrir os olhos, ver o suicídio como uma realidade e percebi que o conhecimento não "mata"; a ignorância é que pode deixar que alguém se mate.

 

Susana Cabral

 

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Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 13:25  Comentar

De Fernando a 27 de Outubro de 2008 às 03:25
Os nossos olhos andam muito mais fechados do que aquilo que imaginamos. Há coisas que não vemos, porque não conseguimos - talvez ainda não tenha chegado a hora, e há outras que não vemos porque não queremos.
E se há umas que não queremos ver porque nos magoam, há outras que não queremos ver porque não autorizamos a nossa sensibilidade e o nosso coração a percebê-las.
Temos de estar permanentemente atentos.

De Cidália a 14 de Outubro de 2008 às 23:03
Bonito texto Susana.
Tenho sempre muita curiosidade em conhecer os momentos reveladores de uma realidade, isto é, em que despertamos para uma realidade.
No meu caso o clique, não aconteceu quando o suicídio aconteceu em pessoas próximas, nem mesmo aconteceu quando através de um anuncio num jornal integrei um grupo de candidatos a voluntários na área da prevenção do suicídio. O clique deu-se quando a acompanhar alguém que queria morrer só me tinha a mim para o acompanhar nesse momento.

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