10.12.08

 



 


Existem manuais que identificam todo o tipo de doenças mentais, descrevendo sintomas e características que ajudam a traçar diagnósticos através de comportamentos, atitudes e tendências.

 

São já muitos os que falam de doenças mentais e com facilidade os mais leigos identificam que "aquele não regula bem da cabeça", por ter comportamentos com desvios dos padrões "normais". Na minha opinião, são cada vez mais aqueles que se enquadram num perfil de uma normalidade comportamental, padronizada com regras definidas e aceites pela sociedade, sem que isso seja, necessariamente, o melhor.

Debatemo-nos com esses "desvios", com as fragilidades daqueles que não estão aptos a conviver numa sociedade "normal", e procuramos corrigir e dirigir os "doentes" que se tornam marginais e que vivem fora de um círculo definido pelos "normais".

 

Pois a mim choca-me, cada vez mais, estes "normais" terem atitudes que não são consideradas nem demências nem loucuras.

Atitudes que não estão descritas nos compêndios da sabedoria mental.

Loucuras escondidas que impedem o nosso conhecimento.

 

Vivemos num mundo que hoje nos abraça e amanhã, se assim for o caso, descarta-nos sem remorsos nem piedade. Na cadeia da sociedade somos mais um género de “fast-food”aqui, agora e já! O depois, a continuidade, logo se vê.

O que nos torna seres paralisados, com medo de dar, de nos abrirmos e de expor as nossas fragilidades, com receio de sermos devorados, porque no final, acaba por acontecer a todos, dedicar sentimentos e distribuir afectos a pessoas que sugam a oportunidade de, com egoísmo, desfrutar de um interesse em particular.

 

Caminhamos para o afastamento gradual, por parte de todos, em relação aos outros, àqueles que nada nos são e que se traduzem num rosto incógnito que se atravessa no nosso horizonte.

 

Porque é que não podemos apaixonar-nos por tudo e por todos e dizer à boca cheia, "gosto de ti", mesmo quando isso possa ser despropositado?

 

Terá de ser loucura querer bem ao mais "detestável" dos seres humanos, só porque este não se enquadra nos ditos padrões normais?

 

Porque não, gostar só por gostar?

Sem limites, gostar de um sorriso, de um olhar, ou de uma cara feia.

Querer gostar sem medos, onde as palavras desconfiança e desilusão existam apenas no dicionário.

 

Não ter de aprender a ler todos os sinais, ou indícios, que este ou aquele "normal" tem no seu olhar e que nos previnem, instintivamente, vendo apenas o que queremos ver, o que precisamos de encontrar e o que acreditamos ser a verdade.

 

Darmo-nos gratuitamente, apenas por considerarmos alguém merecedor de afecto, de carinho e de amor, mesmo quando isso se venha a revelar um enorme e doloroso erro, será loucura?

Talvez, mas contínuo a querer ser "louca" e a gostar por gostar, mesmo que isso signifique mais uma ferida, ou mais uma desilusão. No meio de tantos "normais" com atitudes verdadeiramente dementes, existe sempre aquele ser humano que faz valer a pena e que dá razão e brilho à nossa existência.

 

Susana Cabral

 

Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 00:19  Comentar

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