23.11.10

 

Há três semanas atrás acordei assim. No Hospital. Primeiro não percebi bem onde estava e ainda menos o que se passava; depois percebi, e ri-me. Ri-me tanto... de ódio, de raiva, de frustração. E por ser tão patético.
Quer dizer, nem consigo matar-me. E agora?
Tenho dias em que me sinto tão culpado por ter tentado. Afinal tenho uma família.
Noutros dias sinto-me apenas envergonhado porque penso que vão ver os cortes nos pulsos e fazer comentários. Quer dizer, cortar os pulsos é coisa de gaja. Um homem não faz isso. Um homem a sério mete uma caçadeira na boca ou atira-se para debaixo de um comboio. Mas eu havia logo de tentar cortar os pulsos... e falhar, claro.
Mas pensando bem há muito tempo que não me sinto um homem a sério. Por isso, só podia ter sido mesmo assim, à moda das mulheres e sem sucesso.
 
Falando de mulheres, a minha diz que preciso de ajuda mas eu não quero ajuda. Não quero nada e muito menos ajuda. Ela já não me diz nada e o mundo não me diz nada e quero que fiquem longe, muito longe. Houve uma altura em que ainda dei luta porque sentia dor mas julgava que a podia vencer. Enfrentei tudo sozinho e calado, como os verdadeiros homens fazem, sem chorar nem me queixar. Ajuda? Vou-me sentar à frente de alguém que não me conhece e chorar como um mariquinhas? E é isso vai resolver os meus problemas?
Eu fui educado como um bom católico e lembro-me do Padre me dizer que os suicidas vão para o Inferno e que são almas perdidas. Eu penso, ao menos será um Inferno diferente. Porque com este já não posso mais. E quanto a serem almas perdidas, mais perdido do que eu já estou não me parece possível.
 
E depois vem a minha mulher e pergunta-me num tom acusador:
- Fizeste isto para me magoar? Para me causar sofrimento, angústias?
Não, digo eu, baixinho. Fiz isto para deixar de me magoar. Para deixar de ter sofrimento e angústias. Tu? Tu não podias estar mais longe do meu pensamento. 
Talvez se eu ficar aqui deitado, sem me mexer, acabe por deaparecer. Por me dissolver numa nuvem de pó, sem ninguém reparar.
 
Dora Cabral
 
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