11.2.11

 

J. J. Russeau (1712-1778) refere "O homem nasce livre, e em toda parte é posto a ferros. Quem se julga o senhor dos outros não deixa de ser tão escravo quanto eles."
 
Reclusão poderá ser privação de liberdade. Que liberdade? A do movimento físico? Ou poderá ser o espartilho, o condicionamento de todas as escolhas que fazemos forçados? Poderá dizer respeito a toda a frustração inerente a cada decisão que fazemos? Seremos nós reclusos?
Dentro ou fora da instituição, qualquer que ela seja, podemos sentir-nos, vermo-nos como um ser sem liberdade ou um ser completamente livre e feliz.
Teremos evoluído? O que mudou? Ontem enclausuravam-se os “loucos” em instituições de reclusão, hoje faz-se exactamente o mesmo. Retira-se a capacidade de escolha ao homem em minutos e institucionaliza-se o “louco”.
Por quanto tempo? Depende do tipo de resposta que o desviante dá à sociedade e depende de quanto tempo isso demora. E quando o afastamento dura tanto que parece já não haver outra realidade? E depois? Será que o inadaptado quer regressar ao outro lado? O que o espera lá fora? Ali é a sua casa, o seu mundo. Lá fora não tem nada…. E voltam a dizer-lhe o que fazer, o que comer e comprar, como comportar-se e viver a sua vida e, inclusive, o que pensar… Enfim, não muito diferente do hospital psiquiátrico ou de um qualquer estabelecimento prisional.
Ouvimos desabafos sobre o tormento de viver o quotidiano, numa sociedade cada vez mais egoísta e individualista. Assistimos a uma intransponível incomunicabilidade do ser humano que se fecha em si. 
Liberdade ou reclusão pode ser um sentimento puramente interior, um estado de espírito. Perdido, terrivelmente só, preso em nós mesmos, nos nossos próprios pensamentos, ou refém de uma multidão, de uma cultura, ou de valores morais. Ou livre, magistralmente livre, num qualquer espaço de cinco metros quadrados?
A reclusão é muitas vezes uma indescritível solidão. Às vezes é uma necessidade premente de fugir desse insistente ruído. Pode ser sinónimo de paz, reunião e união interiores. E quando este movimento, este caminhar, é realizado numa só direcção? Podemos assistir à alienação total do ser ou da realidade circundante. Por outro lado, estes estados temporários podem traduzir-se por um fluir de reflexões, por um eterno retorno, por um entrar e sair, por um pasmar na linha do horizonte alternado por um olhar atento ao ser.
Quero silêncio, quero afastar-me, ouvir os meus pensamentos… longe deles e daquilo. E, às vezes, imensas vezes, vezes sem conta, quero ser escutado, sentido e amado, estar no meio e com todos e quero rir, rir muito com eles.
 
Álvaro de Campos, in "Poemas", em “Esta Velha Angústia”, escreve: 
(…) Um internado num manicómio é, ao menos, alguém,
Eu sou um internado num manicómio sem manicómio.
Estou doido a frio,
Estou lúcido e louco,
Estou alheio a tudo e igual a todos:
Estou dormindo desperto com sonhos que são loucura
Porque não são sonhos.
Estou assim... (…)
 
Ana Teixeira
 
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