28.10.11

 

Era mais uma das visitas que fazia por altura do Natal, como tantas outras. Sofia, encontrou o seu padrinho combalido mas sorridente, aconchegado no sofá e no calor do cobertor. A sua cabeça careca, que refletia o brilho das luzes natalícias, era estranha. Sim, é verdade que a idade já era avançada e o cabelo ia caindo, mas havia algo de anormal. Animado, o seu padrinho foi desfiando, orgulhosamente, o rol dos últimos acontecimentos e Sofia foi percebendo o quanto havia perdido com a sua ausência: dores de cabeça, mal-estar, idas ao hospital, diagnóstico, operação e recuperação. “Como foi possível? Tudo tão rápido….”. Sofia procurava recuperar do choque das notícias que recebia, ao mesmo tempo que procurava nos olhos do seu padrinho algo que pudesse não estar a ser dito em palavras. Mas tudo o que encontrou foi alegria, muita, pelo sucesso da operação, pelo Natal que passaria com a família, os filhos e os queridos netos. “Estou feliz Sofia, o pior já passou! Dá-me um abraço!”. No caminho de regresso a casa, as emoções ainda à flor da pele turvavam os pensamentos de Sofia. O alívio de que, afinal, estava tudo bem e não passara de um grande susto não era o suficiente para abrandar a tristeza de não ter estado ao seu lado a apoiá-lo, com palavras, com carinho, com a sua presença. “Mas sim, ficou tudo bem e isso é que interessa” – dizia Sofia para com os seus botões na difícil tentativa de encontrar algum reconforto.

 

O Novo Ano chegou. Com ele novas esperanças e projetos e a tristeza de Sofia ia tornando-se mais leve a cada dia que passava. Até que um dia, receou atender uma chamada. O nome que insistia piscar no visor do seu telemóvel era tão raro como preocupante e não augurava nada de bom. Os piores receios de Sofia confirmaram-se e daí foi diretamente para o hospital. Nos olhos do seu padrinho, uns meses antes, havia apenas encontrado alegria sincera. Contudo, o susto tornara-se numa certeza, irremediável e fatal, e a recuperação não passara de uma ilusão. Algumas semanas depois, o homem que visitava religiosamente já não parecia o mesmo que sempre conheceu. Não reconhecia na sua face o carinho dócil dos seus olhos e o sorriso terno de um menino. A doença flagela o corpo mas não se esquece de espezinhar a alma. Numa das últimas visitas, já só o corpo parecia marcar presença naquela cama fria. Em esforço, pediu a Sofia que se aproximasse. A sua voz era já fraca e apesar do grande esforço que fez foi apenas percetível um sussurro: “Sofia, estou a morrer…”. Encurralada entre a vida e a morte, Sofia não sabe se conseguiu conter as lágrimas que inundavam os seus olhos, enquanto lhe afagava a testa quente. Sorriu e disse “Não tenhas medo padrinho, eu estou aqui.”

 

Se é verdade o que dizem sobre os mortos viverem um pouco sempre que os recordamos, hoje trago o meu padrinho de volta à vida.

 

Liliana Jesus

 

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27.10.11

 

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25.10.11

 

Sempre gostei deste canto da casa, um refúgio junto à janela mágica, onde contemplo a planície que se estende a perder de vista. Aqui sinto paz, sempre senti. Imagino que me diluo na paisagem, escondendo-me entre os girassóis imponentes, bailando nos braços do vento quente. Evado-me da vida que queima e voo solta dentro de mim.

Hoje não tenho os hábitos de sempre, estou tão perdida, não sei que rumo dar às horas. Dizem-me que tenho de voltar à vida mas apetece-me gritar que a única vida que conheci acabou agora, abruptamente. Hoje, a paz não me envolve. Cozinho compulsivamente, coloco o teu prato na mesa como sempre fiz, ornamento-a com flores e sento-me à tua espera. E depois choro, enchendo o copo do vinho que não vais beber, imaginando-te dentro do poço onde te encontraram duas semanas depois de teres desaparecido. Disseram-me que não foi a queda que te matou mas que morreste à fome. Gostava que me tivessem ocultado este pormenor. A imagem do teu sofrimento na minha cabeça atordoa-me. O fim. Pela primeira vez em muitas décadas desejei que tivéssemos tido filhos. Vida para além da nossa vida.

Conheci-te muito jovem. Mostraste timidamente interesse em mim e falaste com o meu pai, pedindo a minha mão em casamento. Achei o ato tão romanticamente ousado! Gostei do teu ar reservado, da tua tez morena de homem do campo, do teu corpo talhado para o trabalho, forte e frágil ao mesmo tempo. Pensei que debaixo dessa timidez inicial, se escondia um homem apaixonado, intenso, falador. Sonhei ser deslumbrada por ti, todos os dias, arrancada à monotonia de uma vida estéril e enfadonha. Desejei que me arrebatasses a alma amando-me o corpo. Demorei anos a perceber que sempre te havias mostrado tal e qual como eras. Desde o primeiro instante. Apenas a minha vontade cega de que os meus desejos se realizassem me impediu de o perceber quando devia. Ao fim de três anos de casamento, mornos -quase frios, senti-me absolutamente frustrada. Abalei para casa dos meus pais. Perguntava-me, incrédula, a minha mãe: “Ele bate-te? Trata-te mal? Bebe? Então, rapariga? Não entendo…” “Não, mãe, não. Sou infeliz. Vivo no silêncio de uma vida gritante.” Despacharam-me com um par de estalos bem assentes e o seguinte recado: “Volta para o teu marido. É ao lado dele que deves estar. Tem vergonha, tiveste mais sorte do que mereces.”

Regressei e nunca mais voltei a partir. Não me questionaste, não gritaste, não brandiste a espada do marido punitivo. Não escarneceste sequer do rabo que, nesse regresso, eu trazia entre as pernas… Adaptei-me a nós e fiz o possível por aprender a viver no teu silêncio e a decifrar as tuas nuances. Chamavas deleite a deitares-te em cima de rochas. À solidão acompanhada. Chamavas afeto às três vezes por dia em que os teus olhos encontravam os meus de forma acidental. Chamavas casamento ao ato de trazer uma aliança no dedo e de fazer amor, na maior escuridão possível, uma vez por mês, durante trinta anos. Sempre que saías de mim, deixavas-me mais vazia do que estava antes de me encheres de ti. Talvez por isso o meu útero nunca nos tenha brindado com vida. Chamavas algo a tudo menos a mim. Nunca fui “querida”, “amor”. Nunca me senti a tua metade, a minha viveu sempre incompleta. Chamavas a noite para que cessasse o dia e pudesses fechar os olhos. E eu, de tanto te chamar, fiquei cansada. Deixei de esperar para não me desiludir. Aprendi a conter o grito dentro de mim e a domar as lágrimas. De tal forma, que nem no teu funeral consegui chorar. As minhas lágrimas já não conhecem o caminho de saída para o exterior.

E agora que a tua comida arrefeceu na mesa, sento-me de novo aqui, junto da tal janela que a planície torna mágica, e dou-me conta de que sinto a tua falta e que tenho saudades de tudo que levei anos a abominar. Devia sofrer – sinto que sim - mas o reservatório da dor há muito se escoou. Estou vazia… Sofre-se até à exaustão mas depois não se sofre mais porque não há mais nada em nós que possa ser ferido.

 

Alexandra Vaz

 

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21.10.11

 

A determinação a comandar os passos. Os passos mais rápidos à vista da ponte. À vista do fim. Observa o rio que corre lá em baixo, calmo, silencioso, não fossem os reflexos prateados da lua a denunciar os leves movimento das suas águas e dir-se-ia parado. Ela, sempre turbulenta, é atraída por esta calmaria. Lá em baixo, as águas calmas e prateadas fascinam-na.

Afasta-se do gradeamento, olha em volta. Ninguém! Foi assim toda a sua vida e é assim no seu derradeiro momento de vida. Ninguém!

Tira os sapatos e alinha-os um com o outro. Um saco com o telemóvel e o bilhete de identidade colocado ao lado dos sapatos. O alinhamento dos objetos, num momento destes, é patético de insignificante, mas continua a querer pôr ordem à sua volta.

Sobe para o gradeamento, olha novamente o rio.

Lá em baixo, as águas calmas e prateadas chamam-na. Aproximam-se. Sente a força da gravidade. Luta contra essa força. Quer recuar, sentir novamente os pés em cima da ponte, dominar os seus movimentos. Tarde de mais. Sente frio. Tem medo.

Vê as águas calmas e prateadas abrirem-se. Engolem-na!

 

Deitada no chão. O rio de águas calmas e prateadas ali ao lado. Cabeças debruçam-se sobre o seu corpo, movimentos rápidos sem som, uma luz azul a acender e a apagar. Parece-lhe estar no centro desta agitação. Fecha os olhos.

 

De volta à vida. O renascer é doloroso. Odeia-se pelo insucesso, desilude-se mais uma vez consigo mesma, zanga-se por a terem resgatado. No hospital todos se empenham numa luta para lhe salvar a vida. Uma luta na qual não quer participar. Os profissionais da saúde trocam olhares, de preocupação umas vezes, de esperança, outras. Zelam, observam, cuidam dela. Não desistiremos, garante-lhe uma enfermeira. Sente-se acarinhada. Rende-se.

Os outros doentes olham-na como se fosse diferente, comentam o seu caso, “quis pôr termo à vida”. Enganam-se. Ela também se enganou. Não se pode acabar com a vida onde ela não existe. Não quis acabar com a vida, quis acabar com a morte que havia dentro dela. Enganou-se quando pensou que a vida se esgotava nas contrariedades, nas angústias e tristezas que tantas vezes a assaltavam, ou na solidão que se lhe impunha. Enganou-se quando optou, obsessivamente, por se magoar mortalmente. Não se recorda de alguma vez se ter esquecido de si e ter olhado à sua volta. Nunca cativou ninguém, não conheceu a gratidão, o amor, a amizade.

Interiormente, tem muito trabalho para fazer e, quer fazer, porque não lhe salvaram partes do corpo - salvaram-lhe a vida.

 

Cidália Carvalho

 

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18.10.11

 

Era o teu 2º aniversário, e estava desejosa para chegar a casa e poder passar o resto do dia contigo... Estava a chover e o trânsito estava ainda mais louco que o habitual. Em poucos segundos deixei de ter noção do que se passava, reinava o caos. Dei por mim deitada no frio do asfalto e adormeci. Algo se tinha passado, mas não tinha forças para questionar... Vieram as ambulâncias, os bombeiros e eu apenas deixei levar-me em silêncio, sem perguntas nem choros.

 

Passaram-se horas, dias, não sei quanto ao certo... Quando acordei estava deitada numa cama de hospital. Era essa a altura de me questionar, de questionar sobre o que se tinha passado. Olhei em redor e não havia ninguém. A sensação que percorria o meu corpo não era boa, sentia-me perdida em mim, apenas desconhecia ainda a verdadeira razão. Foi quando chegou o médico, observou-me e começou a contar-me o que eu não me lembrava: Tinha tido um acidente com um camião e tinha sido projectada do carro. Passado pouco tempo cheguei inconsciente ao hospital, fui operada mas infelizmente não tinham conseguido travar as lesões da coluna e estava agora paraplégica. - "Como??" - Gritei. Fechei os olhos com toda a minha força. "Foi um sonho mau", pensei e fiquei assim por muito tempo. Quando abri os olhos estava novamente sozinha. Tentei contrariar tudo o que me diziam mas sabia que seria uma tentativa em vão... Tirei os cobertores e olhei para o meu corpo assim sem vida... Era este o meu final, um corpo deitado à mercê dos outros...

 

De repente, entraste naquele espaço. Reconheci a tua gargalhada, a tua expressão contrastava bem com o meu estado de espírito... Olhei-te em silêncio, o meu pensamento foi de desilusão... "Que raio de mãe foste tu arranjar? Que desilusão serei para ti?" Mas tu olhaste para mim e disseste aquela palavra mágica: "Mamã!" Vieste para o meu colo e sorriste. Sorriste para mim como sempre o fizeste. Naquele momento senti que não poderia deixar-me abater, que não poderia deixar de lutar... Por ti simplesmente não podia! E foi assim que se deu a minha iniciação para uma luta eterna, uma luta por um gesto meu, por muito pequeno que fosse...

 

Hoje, passados tantos anos, a vida vai correndo ao sabor de pequenas vitórias. Hoje sou independente dentro da dependência. A minha vida não voltou a ser a mesma, mas tentei minimizar os danos daquele momento que nunca me consegui lembrar... Guardo em mim aquele sorriso que me deste, aquela força, aquele amor desmedido, e é esse amor que me move... em cada momento deste regresso à vida.

 

Cátia Azenha (articulista convidada)

 

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17.10.11

 

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14.10.11

 

Para os mais distraídos e para que não haja dúvidas, o melhor é dizê-lo de uma só vez: vamos todos morrer! É uma das maiores certezas desta vida e também uma das mais democráticas: toca a todos por igual e não contempla exceções.

Provoca algum transtorno, sim. Mas é inevitável, principalmente no fim da vida.

Já decorreram milhares de anos desde que começou a morrer gente e continuamos a saber muito pouco sobre este fenómeno. É como se fosse um departamento do conhecimento universal vedado ao Homem, um espaço de sabedoria sem janelas, um lugar de acesso altamente restrito.

Entender a morte parece-me, no entanto, mais simples que entender a vida, até porque é mais fácil falar daquilo que julgamos estar distante de nós. E tal como percebemos melhor o frio se experimentarmos o calor, talvez encontremos o sentido da vida se nos aproximarmos da morte.

Plagiando uma ilustre conhecida dos nossos tempos, "estar vivo é o contrário de estar morto". A vida deve ser, em teoria, tudo aquilo que a morte não é. Assume-se que a vida e a morte ocupam pólos opostos, entretanto, são as duas faces da mesma moeda.

Há pessoas que estão vivas mas não se nota nada. Outras, porém, que já morreram há muito mas ainda se fazem presentes.

Não sei o que é estar morto, logo, também não sei o que é estar vivo. Só sei que a vida se compõe por muitas mortes, como se todos os dias fossemos morrendo um pouco mais. Nascemos, crescemos, tornamo-nos autónomos e às tantas traçamos para nós um plano, uma rota, uma série de caminhos que queremos trilhar: ser saudável, estabilizar as contas, constituir família, envelhecer em paz, por aí fora. Mas não há caminhos sem obstáculos. Uns maiores que outros.

Viver é seguir caminho. A cada obstáculo deixamo-nos morrer. Vamo-nos aproximando gradativamente da morte final através de experiências menores de morte: quanto de nós morre quando parte algum dos nossos? Quanto vivos ficamos depois de um desastre amoroso? Quantas vezes morre uma mãe até que o filho se endireite?

Viver é seguir caminho, de novo. De cada vez que recuperamos de uma dificuldade, a vida continua. Mas entretanto a vida ficou adiada.

Gostaria de perceber qual é a utilidade da morte. De que me serve a finitude? Ter essa espada sempre por cima da cabeça cansa e não me traz qualquer vantagem. Pior: para que me serve ir morrendo aos poucos se posso fazê-lo de uma só vez?

Este procedimento padrão de morrer sempre que se vive é muito estranho. Faz-me pensar que se vamos morrer, então mais vale não me dar ao trabalho de viver. Mas aí começo a equacionar as desvantagens de morrer, que devem corresponder às vantagens de viver, e concluo que ainda não me apetece falecer.

Afirmar que os obstáculos fazem parte da vida parece-me poético. Os obstáculos fazem é parte da morte. Para viver temos que estar sempre a contornar, a enganar e a fugir à morte. Voltamos à vida tantas vezes quantas as vezes que morremos, e o mais certo é essa nova vida ser diferente da anterior.

Em função desta definição é provável que encontremos mais gente morta que viva, porque quase ninguém escapa aos obstáculos. Os conceitos de vida e de morte podem afinal não ser tão opostos quanto se julga. Estar vivo pode não ser o contrário de estar morto. Pode a morte ter sentido se não incidir sobre a vida? Então a vida só fará sentido se for vivida em função da morte, nos momentos em que nos autorizamos a escapar-lhe.

 

Joel Cunha

 

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11.10.11

 

Luís já cumprira seis anos da pena a que fora condenado. Esteve todo aquele tempo no mesmo estabelecimento prisional, na mesma cela. Os seus companheiros de cela foram mudando. E houve mais mudanças, algumas que o Luís observou, outras, lá fora, que nem consegue imaginar. Ia ter agora a sua primeira saída, o seu primeiro fim de semana a tocar a liberdade, dois dias entre pessoas que não fazem parte do seu mundo atual.

Nos primeiros três meses de prisão recebeu algumas visitas, do irmão e de um amigo de infância. Subitamente, desapareceram e não teve mais notícias nem visitas. Revoltou-se, culpou-se, resignou-se e habituou-se ao seu novo mundo, um mundo diferente, um mundo bem pequeno, com poucas caras.

A reeducadora não conseguiu encontrar o irmão, único familiar que conseguia referenciar. Para sair, tinha de ter uma referência, tinha de ter onde ficar. Mas quem referenciar? Mas onde ficar? Nos últimos seis anos só tivera os seus companheiros de cárcere e o pessoal prisional, só conhecera aquela cama dura onde deixava o cansaço da longa espera e a angústia da vida interrompida. A sua solidão, o seu isolamento, o seu abandono, pareciam querer contrariar todo o esforço de bom comportamento. Mais uma vez a reeducadora deu uma ajuda e conseguiu uma vaga n’A União. Estava tudo combinado: o Luís ficaria num quarto durante a sua saída.

No Luís, a ansiedade e a confusão debatiam-se. Tudo lhe parecia novo. O sorriso do guarda, sair o portão, ter dinheiro no bolso, entrar num autocarro, dirigir-se a um destino, com um papel na mão com uma morada escrita. Os carros, como estavam diferentes... mais redondos, mais coloridos. E as pessoas… as roupas eram diferentes.

N’A União mostraram-lhe o quarto. Era simples, mas parecia-lhe cheio de coisas e de conforto. Luís estremeceu de surpresa quando lhe entregaram a chave do quarto. Há tanto tempo que não pegava uma chave… Procurou na memória um momento como aquele, em que guardava uma chave que era sua, na algibeira; já não consegui encontrar.

Luís tinha fome. Sentiu vontade de, ao fim de seis anos, comer sozinho, longe da presença de outras pessoas. Saiu à rua procurou uma loja onde pudesse comprar comida para levar para o quarto. Encontrou um supermercado e entrou. Espantou-se com cada expositor, com cada prateleira, demorou-se a contemplar e a analisar cada artigo. Encontrou coisas que já não recordava existirem, de que há muito deixara de necessitar. Ficou ansioso por ter de escolher, mas escolheu, com brilho nos olhos e alegria no coração por de novo poder fazer as pequenas e quase inocentes escolhas do dia a dia.

De regresso ao quarto, experimentou deliciado um jantar a sós consigo mesmo, escolhido por si. Esticou-se na cama, fechou os olhos e sorriu. Não lhe pesava o passado. Ainda não lhe pesava o futuro. Sentiu a chave cair-lhe do bolso, para o colchão e o baixo ruído metálico rodopiou na sua cabeça. Sorriu. Percebeu que voltava à vida. Como mais ninguém, naqueles momentos, compreendeu os sinais de vida que, subtis e despercebidos, há em cada gesto, em cada objeto. Pouco depois adormecia, embalado pelo calor das suas descobertas. Dormiu o sono dos justos.

 

Fernando Couto

 

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7.10.11

 

Como qualquer ser vivo, me intriga a morte. O que acontece depois? É verdade que voltamos, ou talvez não, se o nosso comportamento não estiver de acordo com o esperado? É verdade que voltamos na mesma família, com os mesmos amigos, até superar diferenças?

Não tenho a menor ideia do que acontece. Nunca tive nenhum tipo de experiência, dessas que a pessoa vê um túnel e sai em direção a ele.

O que me atormenta é o que dizem. Nós só levamos o que vivemos, mais nada. Não temos como levar nem um pouco do perfume que mais gostamos. Penso muito nisso, porque como muita gente estou despreparada. Já me falaram que rola um julgamento, onde não existe argumento, você é obrigado a assistir toda a tua vida e será julgado pelas coisas que não fez, não pelas que fez. Também me falaram que o filme da vida é dividido em duas partes. A primeira parte são as coisas ruins, pode levar eternidades para assistir e ver como você lidava com isso e a outra parte, muito rápida, são os momentos bons, felizes, plenos, essa parte dura segundos e isso determina que tanto você aprendeu na vida.

Me sinto despreparada porque não fiz até agora as coisas como deveriam ter sido feitas. Desde que nasci me perdi em problemas de peso, dietas malucas e ideias imbecis sobre o que é bonito ou não. Tenho doutorado nisso, em mutilação, tortura, fome, remédios para emagrecer e milhões de coisas picaretas. Sei tudo isso de cor, posso em segundos falar quantas calorias existem em milhões de coisas. Mas não vou levar o meu corpo ou seja, todo esse trabalho, toda essa dor, no fim não me servirá de nada. Trinta anos jogados no lixo e ainda desconfio que alguém lá em cima vai me dar uma bronca. E não sei se dá para juntar segundos de felicidade, para a segunda parte do filme. Isso também me atormenta. Sempre fui boa aluna aqui, não sei como será chegar lá e ficar ouvindo um monte. Minha única defesa é que eu não fui avisada. Ninguém me disse que os padrões estéticos do mundo não são reais, nem que a felicidade era uma coisa simples, nem que sentimentos ruins tem que ser domesticados, controlados e isolados, como doenças contagiosas.  Ninguém me avisou que eu poderia ser feliz sem muitas ambições, só seguindo o que eu quero, não o que me dizem para seguir. Ninguém me disse que minha vida ou a de qualquer um, poderia ser harmoniosa como a de uma borboleta, respeitando os ciclos e voando só por um motivo, não por milhões deles.

Espero ter tempo de reverter isso, mudar o filme, editar as partes ruins e colocar mais boas . Espero ter tempo de agradecer meu corpo por tudo de bom que ele fez e por todas as torturas que ele suportou em silêncio. Espero ter tempo, gostaria de chegar lá e saber que ninguém me avisou como era a vida aqui, mas ainda assim eu soube viver. Gostaria de pensar isso, talvez já morri um dia, mas agora estou de volta à vida.

 

Iara De Dupont (articulista convidada)

 

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4.10.11

 

Quem estiver interessado no tema (desconfio se não tiver uma costela masoquista), encontrará de certeza na Internet textos e textos de conselhos para um retorno são às funções laborais. Eu com certeza não o fiz, nem o farei. Já explicarei porquê. Repare o leitor que utilizei o termo “são” mas poderia ter utilizado um termo que não se envolvesse na dicotomia ausência de doença – doença, ou até não ter utilizado um termo adicional de todo. Fi-lo propositadamente porque a minha experiência me diz que no início de setembro, quando por coincidência terminam as minhas férias, tenho uma “tendência” natural para ficar doente. Logo, não são. É evidente que quando fico doente, não remeto esta condição para a parte física da coisa. Se tanto, primeiro fico doente psicologicamente e tal, como consequência, leva-me inevitavelmente para a questão meramente física. Antes se tratasse de uma gripe apenas que em 3 dias estava resolvido...

 

É evidente que tenho as minhas estratégias que visam minorar o impacto da transição praia / cama / horários livres / família, para escritório / secretária / horários rígidos / chefe. Aconselho todos a fazerem o mesmo. Dai não ter ido à Internet procurar qualquer tipo de informação. Tenho uma “receita caseira” que me vai mais ou menos servindo e que se vai transmutando de ano para ano. Não sei se por uma questão de idade (minha) ou idade das minhas funções no local. Vou partilhar a receita deste ano, mas não a tentem replicar dado que não se garantem resultados e que a mesma poderá sofrer alterações, sem aviso prévio, para a próxima temporada.

 

1 – No primeiro dia de férias interiorizo o facto de que as mesmas terminarão brevemente;

2 – No primeiro dia de férias continuo a interiorizar o facto de que ganhar o euromilhões envolve probabilidades que não estão ao alcance da minha matemática, pelo que levar o resto da minha existência sem trabalhar mais, provavelmente não irá acontecer agora;

3 – No primeiro dia de férias dou graças ao facto de poder passar tempo com a família sem estar preocupado com horários de trabalho ou escolas. É claro que também interiorizo o facto que tal tem uma duração limitada, mas que é melhor “curtir” o momento do que estar a sofrer pelo seu término;

4 – No primeiro dia de férias decido que mesmo que caiam o Carmo e a Trindade, não vou gastar 2 minutos a pensar no que ficou por fazer no trabalho;

5 – No primeiro dia de férias inicia-se a tradição de (excepto em caso de indiscutível necessidade, evidentemente) não contactar nenhum colega de trabalho. Eles sabem que não podem levar a mal, dado que passo com eles 11 maravilhosos meses de companhia;

6 – No primeiro dia de férias decido que só voltarei a pensar em voltar à vida de trabalho no último dia de férias;

7 – No último dia de férias deito-me tarde, por forma a adormecer de tão estourado que não me permito dar voltas à cama a fazer contas – “faltam 7 horas para ir trabalhar”, “agora faltam 6”, “porreiro, 5 horas”, “será que vale a pena dormir por 4?” e geralmente acabava por aqui e dormia 3;

8 – No primeiro dia de trabalho não inicio nenhuma tarefa complicada. Acho mais simpático rematar pontas soltas de atividades do ano anterior e esperar que tal dure mais um ou dois dias, antes de oficialmente na minha cabeça iniciar um novo ciclo;

9 – No primeiro dia de trabalho interiorizo o facto de que se não fosse pelo meu emprego não conseguiria fazer e ter as coisas que faço e tenho quando saio do mesmo;

10 – No primeiro dia de trabalho não olho sequer para o calendário de atividades do ano. Se me perguntarem quando é o próximo feriado, dou-vos um exemplo: soube hoje, domingo, que vai ser na próxima quarta.

 

E pronto, aqui ficam 10 ingredientes da minha receita. Com certeza até serão mais mas na verdade não consigo pensar de momento nos outros, dado que após o ter escrito, de facto ainda não consegui interiorizar o ponto 2.

 

Rui Duarte

 

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