27.4.12

 

Tememos o cancro, o enfarto de miocárdio, o acidente vascular cerebral, a escorregadela na casca de banana, os acidentes de viação, o atropelamento e fuga. Tememos pela segurança dos filhos, dos pais, dos amigos, pela exposição virtual, pela inevitabilidade da morte; tememos por antecipação e sofremos em réplicas sucessivas e massacrantes. Receamos uma série de inimigos. E como se já fossem poucos, juntamos-lhes mais um, com nome cínico e pomposo: desemprego (leia-se: desterro, dor, dúvida, desespero, drama).

Todos os dias ouvimos e lemos notícias a esse respeito. Todos os dias há alguém cuja vida se altera drasticamente pela perda do “ganha-pão”. Nos últimos tempos, em reuniões de amigos ou de família, tornou-se o assunto em cima da mesa. Há uma atração mórbida pelos temas nefastos. Há sempre alguém que conhece alguém, que conhece alguém, que está desempregado. Há sempre uma família que perde o seu chão em face do desemprego de um (ou mais) dos seus membros. Vive-se um estado de insegurança que aumentará exponencialmente. Não parece haver esperança suficiente que nos valha, o aconchego da mentira não existe em doses homeopatas.

O fantasma do desemprego materializa-se, entra pelas frestas da alma, e instala-se na vida de todos os dias, virando-a do avesso. Sofre o desempregado, a família do desempregado, os amigos do desempregado, os que temem vir a estar desempregados. Tememos todos o inimigo de colarinho negro e ar sisudo que ceifa qualquer um de nós, sem piedade. Uns matam-se, outros bebem, deprimem e/ou drogam-se, porém, outros ainda, veem nessa mudança imposta a oportunidade de começar de novo. De renascer das cinzas e descobrir novos caminhos.

No fim de tudo, da busca, do medo, da dúvida, emerge a ironia máxima das coisas: não interessa o que nos acontece na vida mas sim a forma como reagimos aos acontecimentos. Como os sentimos, pensamos, digerimos. É essa tríade – cognição, pensamento, ação – que pode mudar o dia de amanhã. Em doses suaves ou em golfadas repentinas.

 

Alexandra Vaz

 

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24.4.12

 

Não poderiam ler o que de seguida se apresenta sem a preciosa colaboração de um caro amigo, a quem agradeço profundamente o tempo despendido na partilha do que é, no fundo, a sua vida presente e futuro imediato.

 

1. Há quanto tempo estás desempregado?

1 ano e 6 meses.

 

2. Qual é a tua área de formação profissional?

Design de Comunicação.

 

3. Quantos anos tens de experiência na tua área de formação?

9 anos.

 

4. Tens obtido resposta às candidaturas que apresentas?

Ao longo de todo este tempo respondi a dezenas de ofertas de emprego, (na prática a todas as ofertas de emprego que encontrei na minha área de formação e na minha área de residência, tendo também respondidos a algumas ofertas que me obrigariam a deslocalizar), tendo obtido muito poucas respostas. Na maior parte dos casos não obtive sequer resposta, numa dezena de ocasiões recebi um muito obrigado pela candidatura não tendo no entanto sido selecionado para entrevista e em três (isso mesmo, apenas três) situações fui selecionado para uma entrevista, não tendo no entanto sido colocado.

 

5. Tens procurado como solução para o desemprego um trabalho fora do âmbito da tua formação?

Inicialmente tal situação não me passou sequer pela cabeça, porque mantenho o desejo legítimo de continuar a trabalhar na minha área de formação. No entanto nestes últimos meses comecei a procurar trabalho noutras áreas que não a minha, o que não é fácil sobretudo para um licenciado que sempre trabalhou na sua área.

 

6. O que sentes relativamente aos apoios que são concedidos no desemprego?

No meu caso particular o apoio na prática é igual a zero. Ao longo do meu percurso profissional trabalhei em três empresas e também como freelancer. Na empresa onde trabalhei mais tempo (por sinal um gigante nacional líder de mercado em tudo o que produz), trabalhei como Designer como qualquer outro colaborador daquela empresa, mas... a RECIBOS VERDES! Conclusão: como desempregado nunca me foi concedido o subsídio de desemprego, tendo apenas adquirido o direito a receber o subsídio social de desemprego (cujo cálculo se baseia numa percentagem do salário mínimo nacional e não numa percentagem do meu vencimento).

 

7. Os teus sentimentos em relação à situação que vives têm-se alterado com o decorrer do tempo?

Imenso. Sem me querer alongar, quando acabei a faculdade nunca imaginei que nove anos depois a minha situação profissional fosse esta. Como profissional qualificado que sou, estar desempregado há mais de um ano é uma enorme frustração e uma mistura de desalento e revolta, sentimentos muito negativos para com o que o futuro me reserva.

 

8. Até que ponto achas que o reverter da situação está dependente de ti?

Falando da minha área em particular (que é a que conheço), neste momento são “sete cães a um osso”, querendo isto dizer que a procura é muito maior que a oferta. Sei que sou um bom profissional, mas por sermos tantos à procura do mesmo, sei que não é fácil primar pela diferença. Tenho consciência que neste momento a cada oferta de emprego a que respondo, respondem mais cem (se não forem mais). Admito que poderia ser mais empreendedor e por exemplo tentar criar a minha própria empresa, mas a verdade é que não poderia escolher pior momento para o fazer... O país encontra-se num estado lastimável e como facilmente se compreende, a haver cortes de investimento, os primeiros são direcionados precisamente para a minha área, a área da comunicação e imagem.

 

9. Já consideraste procurar emprego fora do país?

Já. No entanto para quem sempre acreditou que poderia trilhar o seu percurso profissional no seu país e para quem gosta do sítio onde nasceu e onde por sinal já comprou casa, tudo se complica...

 

10. De que forma ocupas o teu tempo livre e quais as diferenças nesta gestão, desde o momento em que ficaste desempregado?

Um ano e meio é mesmo muito tempo! O tempo livre é tanto que a verdade é que eu deixei de ver o tempo como antes o via. Os minutos que uma hora tem passaram a ter outro significado de tempo... É óbvio que todos os dias dedico uma parte desse tempo na procura ativa de emprego e de vez em quando lá faço um ou outro trabalho como freelancer. Todo o restante tempo dou-o pura e simplesmente como perdido...

 

11. De que forma o desemprego alterou a tua vivência familiar?

A única coisa de positivo que poderei dizer no que a isto diz respeito, é que apenas para o meu cão a minha situação profissional é algo de fantástico que lhe permite passar quase todos os momentos de um dia com o seu dono...

 

12. Achas que o desemprego alterou de alguma forma a tua personalidade?

Todos os dias...

 

13. A tua situação de desemprego, em conjunto com a situação global em Portugal, redefiniram a tua visão do país e das suas políticas internas?

Pura e simplesmente deixei de acreditar num país de que me orgulhava...

 

14. Que expetativas tens do futuro próximo?

Portugal, é o que os portugueses são... Todos somos culpados (ainda que uns bem mais do que outros)! A minha expetativa é a de que os portugueses com valor e com valores ganhem o futuro aos outros... E então tudo será melhor!

 

Rui Duarte e M.

 

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20.4.12

 

O despertador toca… Esse é o início normal de mais um dia de trabalho… Está tão frio! E com os olhos ainda meio fechados retorna onde tudo começou…

Leonor acabara o seu curso superior e o primeiro emprego tardava em chegar… Talvez por não saber procurar, talvez por não procurar nos lugares certos, ou até porque tudo até então tinha sido tão fácil que não estava habituada a ter que fazer pela vida.

A primeira oportunidade surgiu, não perfeita e não como sonhara, mas não disse que não. Fazia 50 km para ir, 50 km para voltar e apenas recebia subsídio de alimentação. “Melhores dias virão”, acreditava Leonor. E sendo a melhor profissional que podia, deu sempre tudo por tudo para demonstrar o seu valor.

O seu trabalho era, principalmente, procurar pessoas para trabalhar. Empresas contactavam-na com ofertas de emprego e ela tinha que responder a esses pedidos encontrando perfis adequados à função. Rapidamente percebeu que o ideal “Pessoa certa para a função certa”, na maioria dos casos era utópico. Depois de 15 ou 20 chamadas, o desespero aumentava... “Mas será que ninguém quer trabalhar?” E as desculpas choviam e variavam… O maior inimigo do trabalho: o subsídio de desemprego… “Raios, mas será que o governo não vê que está a deseducar essa gente?”…

Passados 3 contratos Leonor efetivou. “Afinal o bom profissionalismo compensa!”

A luta diária é a mesma: fazer com que as pessoas queiram trabalhar.

Leonor ainda acredita que melhores dias virão… sempre e para todos aqueles que querem e aceitam trabalhar.

 

Ana Lua

 

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17.4.12

 

Poderemos dizer que estar desempregado é muito mau, mas se pensarmos bem, tem mais vantagens do que desvantagens! Sim, ao escrever isto também me soa a brincadeira... Porém, o que vivo hoje não é brincadeira, mas sim um desemprego que só o é porque recebo o subsídio de desemprego, porque entro nas estatísticas dos milhares de desempregados, porque tenho muitas horas vagas para fazer muita coisa que não seja ir para um emprego com horário pré-estabelecido.

Desde Agosto de 2010 estou desempregada, de facto por opção, mas também porque a vida assim o desenhou. Antes de o ser pensava “Como poderei sobreviver dia a dia sem ter o que fazer, acordar sem objetivos diários como ir para o local de trabalho e desempenhar as funções que alguém espera de mim?”, ou seja, “como ficar acordada se não serei útil para ninguém durante um dia inteiro?” O problema era só esse e não o dinheiro, pois quem trabalha o suficiente para ter direito ao subsídio de desemprego, tem problemas maiores com o desemprego do que meros euros no final do mês, principalmente depois de uma década a trabalhar naquilo que se gosta.

Foram esses problemas que me deixaram a pensar o que seria de mim... Até que me lembrei dos tempos em que procurava o primeiro emprego, quando tudo era um campo novo por explorar, quando a adolescência dava lugar à juventude e o mundo era “meu”. Peguei nesse espírito e imaginei algo que gostaria mesmo de fazer. Era agora ou nunca! E foi!

Sem compromissos com instituições a nível de presença física, apenas com compromissos financeiros e pessoais que podiam ser adaptados, parti para outro país numa missão humanitária. Se não fosse quando estava desempregada, quando poderia ser? Até ir, continuei a fazer a procura mensal de emprego, obrigatória por lei, mesmo sabendo que passado alguns meses iria partir. Como as coisas acontecem quando menos esperamos, foram algumas as respostas positivas à candidatura e, por ironia do destino, tive que recusar, pois uma nova missão esperava por mim.

Fui para África e voltei, recomeçando desde o primeiro dia a procura de emprego, desta vez, mais a sério, sem ser apenas por obrigação legal. Claro está que as respostas positivas escassearam, ou então eram propostas não compensatórias face ao subsídio. A velha história “Mais vale ficar em casa quieta e não gastar do que pagar para trabalhar.” Isto é muito inteligente financeiramente mas não psicologicamente. Qual a solução para fazer face a este conflito, viável financeira, pessoal, profissional e psicologicamente? É aqui que vejo a grande vantagem do desemprego: temos muito tempo para pensar e refletir. Depois de muitos dias a inventar o que fazer, parei e fiquei realmente desempregada.

Finalmente acordei, já com objetivos traçados e, por surpresa, chegaram também as respostas positivas a candidaturas de emprego, tendo até a possibilidade de ser desempregada a part-time. Trabalhar a part-time, no que gosto de fazer e para o qual estudei, e ainda continuar a ser subsidiada como desempregada, na legalidade.

Hoje, já com 1 ano e 8 meses de desemprego, percebo que isso não passa de um rótulo, pois o nosso estado de espírito comanda as nossas ações e se continuarmos a mexer, a pensar, a inventar, a traçar objetivos, estamos sempre com a mente empregue em alguma coisa muito nossa, que não depende de subsídios ou patrões. E, melhor ainda, ao optar pelo não pacifismo, não sei que força é ativada, mas as respostas positivas a candidaturas de emprego e a projetos por nós pensados começam a surgir, e o desemprego deixa de ser a palavra certa para nos caraterizar.

 

Sónia Abrantes (articulista convidada)


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13.4.12

 

Sentado à sua frente, numa posição descontraída e ligeiramente inclinado para ela, escuta-a e encoraja-a a falar. Ela vai ganhando confiança. Talvez seja desta...

Desde que se licenciou que a sua prioridade tem sido arranjar emprego. O seu dia começa cedo, consulta os anúncios de emprego nos jornais, navega pelas bolsas de emprego na Internet, envia o curriculum, vai a entrevistas. Começou por selecionar as ofertas dentro da sua área de formação, rapidamente se deixou de ideologias - o emprego já não é um meio para o seu desenvolvimento pessoal e profissional, é muito mais do que isso, é a única forma de sobrevivência. Percebeu que tem mais hipóteses se for a todas.

Preparou esta entrevista ao pormenor. Seguiu à risca as “dicas” do guia sobre como arranjar emprego. Apresenta-se de vestido azul, para inspirar confiança e seriedade. Senta-se muito direita na ponta da cadeira. Controla o ímpeto de falar muito e depressa, termina as frases numa entoação correta.

Sim, desta vez está a correr bem. O entrevistador parece impressionado. Mostra interesse em saber mais sobre ela. O interesse dele não a intimida; vai ganhando mais confiança. Exibe o diploma da licenciatura, os certificados das pós-graduação, fala da facilidade com que se adapta à mudança, do gosto pelas novas tecnologias, da sua ambição. Sim, desta vez vai pintar.

 

Não deu pelo tempo passar. Olhou o relógio já sentada no pequeno café em frente ao edifício que acabara de deixar e onde entra para se refazer da frustração que a invade. Mais uma hora perdida. Tempo é coisa que não lhe falta. Não é a sensação de tempo perdido que está a destruí-la por dentro. O que lhe dói, é que não sirva para aquele emprego por ser demasiado qualificada. Já foi rejeitada por tudo e por nada, nunca a tinham rejeitado por ser demasiado boa para o lugar.

 

O café está vazio, ninguém para testemunhar a sua frustração. O empregado encostado ao balcão não repara nela, a notícia que passa na televisão chama-lhe a atenção, põe o som mais alto, o locutor anuncia: Na Grécia, um homem de 50 anos, desempregado, suicidou-se em frente ao parlamento...

Paga a água que bebeu e sai para a rua. Não sabe que direção tomar, a notícia que acabou de ouvir bate dentro da sua cabeça. Está desorientada...

 

Cidália Carvalho


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10.4.12

 

Procurar gatos pretos em quartos pretos onde não há gatos pretos… E encontrá-los!

 

Uma palestra de Miguel Gonçalves em Braga, no TEDx Youth@Braga, em 19 de Novembro de 2011.

 

Meia hora de pura inspiração…

 

 

Joel Cunha


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6.4.12

 

Desde que escolhi artes cênicas sempre teve alguém para me dizer: Mas quando vai arranjar um emprego?

Eu trabalhava em produção teatral, mas isso para os outros não era emprego. Dedicava meus dias e minhas noites, não tinha fins-de-semana, mas ninguém acreditava que isso era um meio de vida.

O que é emprego? Um lugar onde se trabalha e se ganha para isso. Gosto da parte de ganhar, como todo mundo, mas quero mais do que um emprego. Quero ser feliz, quero me realizar neste planeta.

E logo me dizem, mas quando acabar a peça você vai ficar desempregada! É verdade. Mas isso poderia acontecer com qualquer um.

Os tempos mudaram, os empregos também. Hoje exigem mais e dão menos. A vida é mais cara, a cidade mais longe, o custo das coisas triplicou. Temos mais coisas que comprar e por isso parece tudo mais difícil. No meio de tanta crise pessoas aceitam todo o tipo de emprego, as empresas sabem e exploram isso.

Emprego ideal não existe. Na produção de teatro ganhava pouco e não havia plano de carreira nem direitos trabalhistas. Mas eu era feliz, gostava de fazer aquilo. Tive que procurar outros meios, já que não fui educada para ser feliz, mas sim para ter um bom emprego e jamais ficar desempregada. Meu avô sonhava em me ver trabalhando em um banco, ou pelo menos alguma de suas netas. Todas tiveram asas grandes. Foram para a cozinha, pintura, teatro, profissões conhecidas por não serem empregos fixos.

Apesar de tudo reconheço que meu avô tinha uma certa razão. Até para ser feliz precisamos de um pouco de paz, coisa essa que o dinheiro e a estabilidade trazem.

Mas emprego e desemprego não definem a vida de ninguém, são coisas que temos na vida, perdemos e logo recomeçamos. Somos mais do que um trabalho remunerado, nossa passagem no planeta é maior do que isso e podemos ir além.

No meio da crise mundial todos sabemos da importância de ter um bom emprego, principalmente aqueles que são chefes de família. Mas não existe meios de saber que tão estável é nosso emprego, então melhor ficar nele sem pensar muito, caso a corda arrebente, bom, começamos do zero novamente. É outro dia, outra oportunidade de melhorar, nunca sabemos quando será nosso dia de sorte. Mas ele chega, e chega mais rápido se esperamos ele com alegria e certeza que um dia estamos bem, mas podemos estar melhor, e perder o emprego não significa morrer, é apenas ter que recomeçar. Mas não é isso que fazemos todos os dias?

 

Iara De Dupont (articulista convidada)

 

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3.4.12

 

Passamos muitas horas do nosso dia no trabalho e são essas horas que sustentam todas as restantes da nossa vida. São horas de atividade, de produção, frequentemente de ansiedade e de pressão, por vezes também de alegria e de conquista, em alguns casos de desespero e até de histeria. São horas longas ou curtas para mostrarmos o que valemos, somos valorizados (ou não) por aquilo que fazemos, se somos pontuais, assíduos, empenhados, respeitadores dos códigos impostos, se desempenhamos bem as nossas funções e de preferência mais alguma coisa. Os desafios nas tarefas e nas relações profissionais, ao ritmo das quais os jogos de cintura se vão sucedendo, obrigam-nos cada dia a estar mais atentos. Ter como qualidade o dom de adivinhar é certamente uma mais-valia muito útil para saber de antemão qual será o humor do chefe, antecipar que o colega se vai esquecer de fazer aquilo que pedimos, ou perceber que o nosso interlocutor afinal não entendeu nada daquilo que acabámos de dizer, apesar de querer parecer o contrário. Sucedem-se por e-mail as expressões “com muita urgência” ou “p. f. leia esta informação com a maior atenção” que de tão gastas se apagam no olhar do nosso leitor. Os incontornáveis “a.s.a.p.” (*) e “f.y.i.” (**) lembram-nos que não podemos perder tempo com pormenores supérfluos, porquê escrever tudo quando a mensagem já passou? Existe igualmente a expressão, não tanto usada por escrito: “isto não é comigo” que taxativamente significa: “não sei se houve asneira, mas se por ventura houve, não fui eu que fiz! E na eventualidade de haver no futuro, também não terei sido eu!”. Essas horas desafiam os mais elevados graus de paciência quando temos que repetir dez vezes a mesma informação à mesma pessoa que, para manter a postura, faz aquele ar de quem está a ouvir tudo pela primeira vez. Nestas alturas respiramos fundo e, das duas uma: ou nos visualizamos a dar uma valente tareia a esta personagem que está à nossa frente (o que poderá suscitar em nós uma certa vontade de rir que nem sempre será bem interpretada pelo outro lado); ou resolvemos acenar lentamente com a cabeça com o ar pensativo de quem acabou de fazer uma grande revelação ao mundo. E continuamos a desempenhar as nossas tarefas, às vezes melhor outras pior, como sabemos, como podemos, como nos deixam.


No final do dia, com o sentimento de um comprido dever cumprido não percebemos por que razão nos parece termos sido atropelados por um camião, quando nem sequer saímos da cadeira. Ficamos tão moídos pelas longas horas que pensamos então no euromilhões que temos absolutamente de registar. Apesar de tudo, sabemos que são estas horas que, felizmente, sustentam todas as restantes horas da nossa vida.

 

Estefânia Sousa

 

(*) - as soon as possible

(**) - for your information

 

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