29.10.13

 

A Arrogância corrompe quem vem por Bem. A tal Vaidade e Petulância vêm todas da mesma Origem. De uma nascente que verte lama disfarçada, mas que se penetra em todos os cantos deste Mundo, desde o amor à Arte, Religião, Política, até à própria Vida.

Olhar para atrás e encontrar o parasita não serve para seguir o caminho de Hoje. Mas permite, muitas vezes, refletir no que não fazer daqui para a frente. Assim a vejo e assim a entendo.

Ela, a Arrogância, já esteve presente em Mim.

E agora, olhando para a estrada que se inicia a minha frente, acedi a uma portagem que outrora já tinha visitado; desta vez a minha companhia é a… talvez a Ternura?

Enquanto viajo, ela conversa comigo. Obriga-me a observar a paisagem.

Ontem, vi luxúria e gozo e o caminho era iluminado por lampiões de luzes psicadélicas, onde dancei nua, no meio da multidão. Era quase sempre noite, havia sempre gargalhadas e gritos e fumo… Recordo-me dos meus olhos brilhantes e da minha boca carnuda a perder-se por visões de perfeição e por aromas de absinto. Tudo era perfeito no turbilhão desse mesmo caminho; fiz dele minha Casa. A minha viagem, incrivelmente, seguia com o prazenteiro sentido de encontrar rigorosamente Nada. Como quando se entra num labirinto de mil cores, caminhos e destinos, terminando no ponto de partida. E ainda assim, corri pela estrada sempre vestida de vermelho, trajes curtos e êxtases transversais. Plenamente, divertida, atraindo outros caminhantes, seduzindo-os com a minha vontade imensa de voar dali para fora, sorrindo como uma puta no meio de um engate, puxando pela mão quem não quisesse fazer-me companhia.

Nessa altura, a minha mãe chamava-me de Cavalo do Monte. O sábio que sempre me acompanhava, Gata Alada. Com as minhas asas percorria o meu destino levitando. Planando. Completava-me carnalmente, deitava-me no cimento frio fazendo-o explodir quando era possuída.

Até que ela, a Arrogância, quebrou o meu percurso. Alguém me disse “ Vem comigo”. E a Arrogância ali estava, sorrindo para mim, quase tão sedutora como Eu. Piscou-me o olho e disse “ Tens a certeza?” O pedido foi de um companheiro de viagem, tão igual a mim no desejo de se fundir numa mistura de sonhos agridoces – ilusões, não é assim que se chama? E ela, de olhar de boneca: “ Tens a certeza?”. E eu respondi ao convite: e disse que não queria para mim quem era igual a mim. A Arrogância pôs o braço em cima do meu ombro e disse, fraternalmente: “ Mereces melhor.” E a minha viagem continuou.

E trouxe-me até aqui através desta Roda da Fortuna, que não é mais que a rotação do nosso Mundo. Segui viagem. Regressei.

Os anos que me acompanharam fundiram a outra companheira de viagem num passado irreversível. Hoje, caminho com a Ternura que detalha ao pormenor a estrada percorrida. É como uma estrada ainda fechada, sem nada a crescer no seu meio, na paisagem adjacente. O Silêncio reconfortante acompanha-nos. Observo apenas o branco supremo do céu, como quando se fixa o olhar demoradamente no sol e no piscar de olhos seguinte não se vê nada. Só uma luz quente.

E uma voz. A única no meio desta viagem onde nada existe e onde tudo se pode construir. Ou viver. Ou apenas Amar. A visão é invadida pelo companheiro de quem fugi Ontem. Diz-me “ Vem.”. Igual a ele mesmo. Sempre igual a ele mesmo. Olhando e sorrindo para mim. Olá.

Deito-me no chão que cheira agora a mel e deixo que ele me cubra com o seu corpo moreno e me possua em abraços, toques, desejos recônditos, prazeres repetidos e repartidos, copulando até cheirar a corpo. Corpo e Alma? Fazemos amor até o Sono me levar para o lado de lá do Atlas.

Lá ao fundo, bem lá fundo, num inimaginável horizonte, vejo uma árvore. De frutos ou não, já não sei dizer.

 

Sofia Cruz


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27.10.13

 

Sinto-me como uma pena saída das asas de um anjo…

Que leve me encontro…

Como se não houvesse um corpo… só uma Alma!

Que intensidade…

O corpo é poderoso quando serve como instrumento para envolver duas Almas.

Que momento delicioso…

E só agora começou!

E uma nova vivência se abre para mim!

Um novo Mundo para explorar… vivenciar… e Amar…

 

Enches-me de beijos

O tocar dos teus lábios na minha pele assemelha-se a uma pena macia de um cisne branco…

Beijos com tanta sabedoria… com tanta informação… com tanta emoção

Beijos penetrantes… escaldantes… alucinantes

Beijos que me fazem sonhar e voar

Beijos que me fazem recordar o que é Amar.

 

Joana Pereira


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25.10.13

 

O presente artigo intitulado “Sexo: necessidade ou desejo?” insere-se na temática mensal do blogue Mil Razões… sobre sexualidade. A metodologia baseou-se no aprofundamento dos conceitos satisfação, necessidade e desejo, como alicerces comportamentais da natureza humana no que concerne a sua atividade sexual. A reflexão sobre as experiências vividas e criatividade racional foram os métodos que sedimentaram a ideologia contida neste texto.

A grande limitação reside no desconhecimento imposto pela complexidade do tema, embora pareça tangível e assim fácil de abordar, ignorância essa superada pelo exercício de abstração e tentativa de interpretação da sexualidade e comportamento humano no contexto das ciências económica e de gestão, facilitaram a formação desta preposição.

Esta reflexão é uma descoberta ainda que de forma tímida por respeito a diversidade e liberdade de raciocínio das pessoas, que induz a uma discussão em torno da sexualidade numa ótica tradicional (necessidade) intrinsecamente ligada a natureza das espécies em geral e humana em particular, ou numa ótica contemporânea assente na reivindicação das liberdades e direitos (desejo).

A necessidade é um estado de carência emanada pelo organismo em resultado de algum desfuncionalismo harmónico no funcionamento normal do sistema. Os órgãos de sentido encarregam-se de emitir sinais a indicarem a ânsia de obterem do meio externo alguma solução que satisfaça momentaneamento esse défice. Ao seu redor e em julgamento próprio o Homem poderá selecionar os instrumentos adequados para satisfazer tal necessidade.

À luz da pirâmide da hierarquia das necessidades, o sexo é uma necessidade básica de segundo nível, suscitada depois de satisfeitas as consideradas necessidades fisiológicas ou vitais. A sua prática contribui para o equilíbrio físico, emocional e mental, evitando situações de desconforto originadas pelo stress, ansiedade, indisposição, autoestima, beleza facial, etc.. Para além dos resultados acima descritos como benéficos da prática do sexo, embora de dimensão secundária, a reprodução destaca-se como o principal impacto da sua prática mediante condições previamente criadas para o efeito. Este facto pode induzir a constatação segundo a qual na consecução dos benefícios imediatos da prática do sexo, pode resultar a reprodução dos seres.

Enquanto que o desejo é uma decisão consentida e deliberada em como poderá ser satisfeita essa necessidade, exigindo para tal alguma racionalidade mais ou menos elaborada em função da escassez de recursos, soluções e instrumentos existentes, e eficiência requerida para otimização do seu uso com vista a obterem-se resultados bem conseguidos e conquistados. Considerando a diversidade, relatividade das opções e respetivo julgamento da ação incorrida por cada ser, observa-se o egoismo instintivamente seguido pelo agente.

A orientação de cada indivíduo desponta como o padrão comportamental que rege a sua interação com os outros inseridos na respetiva sociedade. O padrão de companheirismo que se compadece com cada um será reflexo das suas opções induzidas pela equilíbrio entre procura e oferta que se verificam nesse mercado.

Voltando-se a hierarquia das necessidades humanas que estabelece a matriz das necessidades seguidas pelas pessoas, embora seja cético quanto ao rigor de sua sequência a partir de um certo nível, um adequado equilíbrio na concretização das necessidades anteriores e posteriores são elementos preponderantes para um bom desempenho da necessidade sexual. Uma alimentação adequada, observância do sono, estilo de vida, prática de exercícios regulares, sucesso profissional e condição financeira, são alguns desses fatores que condicionam a eficácia e eficiência da atividade sexual.

 

António Sendi


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22.10.13

 

Bate a chuva cinzenta de um dia molhado na janela respirada de desejo. Amarfanhados, os lençóis brancos, denunciam a dança de dois corpos, envolvidos na loucura consentida de um amor não correspondido. Fixam o teto, enquanto as bocas ainda expiram ao som de um coração potente de sangue jorrado em êxtase. Branco é o silêncio, do corpo leve, mas de alma pregada à cama.

São dois os corpos, com suas peles, há instantes unidas como uma só, mas não num só corpo. Muito menos, numa só alma!

Mesmo ainda com toda a vibração presente, afastam-se lentamente. Não, não conseguem sentir a tal união que o sexo, supostamente, traz a um casal. Estão ali, tal instrumentos necessários a uma tarefa quotidiana, mas que depois da função exercida, quase se abandonam como se nunca tivessem existido ou alguém reparado sequer que existiam.

Nu, segue ele, encostando a cabeça à janela, desejando ser chuva que escorre vidro fora. Engole em seco. Seca está já a sua alma diante tamanho dilúvio.

Na cama, ela recolhe-se, abraçando os joelhos, outrora abertos de prazer, para fechar-se em si.

Fora tamanha a humidade que povoara aquele quarto. Ninguém o pode negar. Porém, tal como um aguaceiro, rápida foi a passagem da sua intensa presença. Ficou apenas a densidade que acompanha os dias de chuva, como um nevoeiro pesado. Que não deixa ver mais além. Aquele nevoeiro que traz incerteza. Que não deixa prosseguir. Só com apalpadelas. E por mais desejo que haja de saber o que vai para lá, cega os olhos de quem tenta conhecer mais e mais. E paira. Sem desaparecer, o nevoeiro.

Viam-se assim, envoltos, num nevoeiro sem igual. Partilhavam a mesma angústia de não serem mais do que uma cama em comum.

Perdidos, revestiram a pele e fugiram-se dos olhos. Mesmo que se olhassem, não veriam mais que o nevoeiro. Preferiram admirar o que os olhos não podiam contestar. Aqueles corpos apetecíveis, aqueles desenvoltos movimentos, sexuais sem intenção. Era tudo o que lhes restava.

Despediram-se, como quem já sai da festa mais desgastado que a euforia.

E, enquanto isso, a intimidade, essa, fazia fronteira, sem visto de entrada. Só de saída.

 

Cecília Pinto


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18.10.13

 

A respiração calma e profunda denuncia que o marido se rendeu ao sono. O facto, só por si, não é nem anormal, nem bom, nem outra coisa qualquer que não seja proporcionar-lhe, a ela, um momento de libertação. Como sempre, depois da luta corpo a corpo, em que ele se esforça por exibir técnicas e performances habilidosas para lhe mostrar como é bom naquilo em que se empenha, no caso, possui-la, acaba por se render ao esforço e adormece. A luta dela é diferente, deixa-se possuir mas com grande esforço para não deixar transparecer o quanto é violentada. A ela o esforço não lhe dá sono, tira-lho. É então nesse momento, em que ele dorme e ela desperta, que pode livremente entregar-se aos seus pensamentos e à sua dor sem ter que justificar o seu silêncio com perguntas aborrecidas: “em que pensas?” “porque estás tão calada?” “pareces zangada, o que tens?”. Tem-se controlado nas respostas, uma palavra só tem sido suficiente para encerrar um diálogo que nunca o foi: “nada”. Mas, e se um dia ceder à insistência do marido e lhe revelar que não o ama, que nunca o amou e que se enganou ao pensar que o casamento seria a razão maior para esquecer a paixão por outro homem!... Como reagirá ele a esta verdade? E se cair na tentação de ser sincera e lhe disser como ele é ridículo a contorcer-se de prazer enquanto ela espera que o ato sexual acabe depressa e ele adormeça ainda mais depressa!... Como acomodará ele esta revelação? E se um dia, num gesto de pura ingenuidade, abrir o coração e lhe contar como se sente miserável neste engodo que ela própria armou!... Como ficará ela?

Afasta-o. Finca a perna no colchão e impulsiona o corpo para se sentar na cama. Ele mexe-se, dá meia-volta na sua direção e deixa cair o braço em cima dela num abraço sem sentido. Olha-o pelo canto do olho, verifica com alívio que ele continua a dormir. Repugna-lhe aquele braço forte e peludo a impedir-lhe os movimentos. Quer ignorar esta repulsa, silenciá-la mas não consegue, todo o seu corpo se retrai. Quer sentir aquele prazer que de insaciável se torna desesperante, mas é impossível, todo o seu corpo se fecha na intimidade do ato sexual.

Não é justo! Tudo é desencontro e desamor. Ela, alimentando a ideia de que um dia, sim, um dia ainda será feliz nos braços daquele que sempre a ignorou, não se vê como vítima das suas próprias fantasias e recusa outra realidade que não a idealizada. Ali mesmo ao seu lado, o marido, com a certeza de ter tudo controlado, dorme com a tranquilidade que a ignorância lhe permite.

 

Cidália Carvalho


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15.10.13

 

Era uma vez uma mente sem sexo que vivia num corpo sensual. Sua sensualidade transcendia o mero prazer lascivo dos corpos que se esbarram. Insinuava-se quente, atrevida, repleta de desejo, buscando a fusão sublime por duas almas que se querem. E muito!

Ah! Mas como lhe escapava a sua essência… agora nebulosa pelo arfar do orgasmo.

Ora doce, ora ambígua…

A pessoa da mente sexuada queria mais… agora insatisfeita… pela ausência do prazer.

Sofre o preconceito por viver e expressar tão intensamente suas emoções, sua sexualidade latejante… empolgante… viciante… despertando ainda mais, qual rebelde, o poderoso ensejo da transgressão. Mas sem nunca experimentar a inebriante sensação de ser uma mente livre.

Ah! Mas como é bom!

Seu desejo, suas preferências, seus excessos condensaram o fulgor da sua “injulgável” manifestação.

Não! Não lhe queiram tolher a liberdade de poder expressar- se loucamente, não lhe imponham culpas, vergonhas, nem grilhões morais.

Ah! Mas como é bom!

Mas sem nunca se permitir ser uma mente livre, apesar de esta mitigar-lhe gritantemente.

Morreu…

A pessoa da mente assexuada que se julgava sexual apaga a luz da consciência terrena, serra as portas quentes numa madrugada agora fresca. Sem culpas, sem vergonhas, nem grilhões morais.

Relampejava “quero-te”, “quero-vos”, “vem”.

A pessoa da mente assexuada não tinha mais corpo, não tinha mais sexo!

 

Marta Silva


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11.10.13

 

Que grande jogo vai ser!

Pode ser um jogo grande ou podem ser – cúmulo dos cúmulos – os Jogos, que por serem tão grandes e tão importantes só acontecem, na sua era moderna, de quatro em quatro anos. Para quem gosta de desporto há um antes, a antecipação e projeção do que pode vir a ser, a ansiedade com que se espera que chegue a hora (e o tempo que não há maneira de passar!); há um durante, aqui cabe a entrega total, o isolamento de tudo o resto, que às vezes nem sequer atinge um plano secundário, pura e simplesmente não existe mais nada, a entrega é total e absoluta, um sentimento de plenitude; e há um depois, um cansaço feliz, quando para além de toda a imaginação ainda fomos mais longe e conseguimos um momento que pode tornar-se eterno, ou, ao contrário, um vazio, um amargo de boca que a frustração do falhanço traz.

E depois? Bem, depois o melhor é deixar carregar as baterias e começar de novo.

[estou a referir-me ao desporto na perspetiva do amador, não do profissional, é claro]

 

Vem isto a propósito de quê? De nada e de tudo. Sendo honesto, vem a propósito da sexualidade, portanto de tudo! Pois se ainda não nascemos, estamos no ventre da mãe, e já somos sujeito da pergunta sacramental: é menino ou menina? Ainda não sabemos quem somos, o que somos e já exercitamos e brincamos com o nosso sexo, os nossos genitais (que geram, que dão o ser, in Dicionário Priberam).

 

O meu ponto é, portanto, que a sexualidade é tudo, comanda a nossa vida. Com idealizações, memórias, partilha, conquistas, falhanços, amor, ternura, direta ou indiretamente o rumo da nossa vida é comandado pela sexualidade.

 

Assim que posso dizer sobre a sexualidade, sobre tudo? Nada!

 

O melhor é vivê-la, conviver com ela sem deixar que me subjugue, que me complexe e, no limite, me bloqueie. A quimera é que cada um possa viver em plenitude a sua sexualidade, as suas opções; mas e a sociedade, o politicamente correto, a ética, a moral? Ontem foi diferente de hoje e com certeza vai ser diferente de amanhã.

 

Haja fair-play, respeitemo-nos a nós e ao(s) outro(s) e, como se diz noutro tipo de divertimento, façamos o nosso jogo, sempre com cuidado para não cair no vício.

 

Jorge Saraiva


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8.10.13

 

Minha filha tão querida:

 

Quero falar-te sobre sexualidade. E, como este tema tem tanto de importante como de delicado, escolhi este meio de comunicação já em desuso para “conversar” contigo.

Adivinho já o rótulo de “antiquada” que me estás a pôr, tendo eu o Facebook à mão para te mandar uma mensagem. Mas uma carta é um objeto físico, que poderás guardar ou levar para onde quiseres, e o objetivo é mesmo esse, que a tenhas sempre por perto, e que, como com um livro, a possas ler várias vezes, e a cada nova leitura, possas daqui retirar uma mensagem diferente.

E não te abespinhes já a pensar que vais ler aqui um discurso moralista acerca das virtudes da virgindade ou alguma patetice do género! A abstinência sexual não é, em si, saudável. Mas, como eu te costumo dizer noutras ocasiões, há um lugar e um tempo certos para tudo!

E, sendo que a sexualidade engloba as preferências mas, sobretudo as experiências sexuais, tu terás uma vida inteira para desenvolver a tua sexualidade, filhota!

Sabias, por exemplo, que quando eras ainda uma bebé viveste as tuas primeiras experiências sexuais aninhada no meu colo, agarrada à minha maminha? Sim, estavas a alimentar-te mas, também a obter prazer. É Freud quem o diz, não é maluquice minha!

E nessas que foram as tuas primeiras manifestações de desejo, apoiei-te incondicionalmente!

Agora, não me peças para te apoiar em preferências como a que manifestaste ontem, quando saíste do provador da loja vestida com aqueles calções e top que pareciam 3 números abaixo do teu tamanho. Sabes que tipo de experiência vivem miúdas como tu, vestidas daquela maneira? Serem alvo de pensamentos (e quando se ficam por pensamentos…) libidinosos da pior espécie por parte das pessoas erradas.

Que satisfação terias tu em saber que o motorista do 903, o porteiro da tua escola, o mecânico aqui da rua, se excitariam com as curvas visíveis do teu corpo e sonhariam com as que a roupa mal cobriria?

Nesta altura, imagino-te a pôr a tua típica cara de enojada e, se assim for, pela primeira vez parece-me bem adequada.

Vai chegar um momento em que tu vais querer mostrar partes ou a totalidade do teu corpo a alguém, mas esse momento deverá ser vivido de forma íntima, a dois.

E que esse e outros momentos sejam decididos por ti, com plena consciência do seu significado!

Por isso, se algum dia, apesar de mil vezes repetidos os meus conselhos, te encontrares embriagada ou drogada (Deus te livre, rapariga, que eu nem sei o que te faço!), podes ter a certeza de que esse não é de todo o momento indicado para tomares essa (ou qualquer outra) decisão.

E que todas as decisões que tomes nesse âmbito sejam livres de comparações ou de pressões de grupo: se a Joana já beijou ou se a Sara já sentiu, as experiências são delas, é a vida delas e a tua vida tem um percurso próprio. Não existe uma idade limite para se dar linguados ou para receber apalpões!

Quando as coisas tiverem que acontecer, vão acontecer; naturalmente, sem pressões, vão saber-te muito melhor, filhinha.

Em suma, se viveres a tua sexualidade de forma plena e equilibrada, vais ser mais feliz.

Por isso, é importante que dês um passo de cada vez, que desfrutes de cada etapa sem pressa de passar à próxima ou de “saltar degraus”.

E um dia, já adulta, munida de toda a informação teórica e prática sobre este assunto, não deixes de te esforçar em ter a tua sexualidade em dia. Às vezes, as rotinas, os filhos, o trabalho, o stress, fazem-nos votar para 2º plano os apelos da líbido; nada mais errado!

Mas bem… para essa etapa da tua vida, talvez tenha que te escrever uma outra carta…

Esta termina por aqui, mas se me quiseres perguntar sobre como se fazem os bebés, para que servem aqueles comprimidos que eu tomo todos os dias, ou qualquer outra pergunta, não te esqueças de que a tua mamã já cá anda há mais tempo que qualquer das tuas amigas e, por isso, tem mais conhecimentos para te poder esclarecer.

 

Adoro-te e estarei sempre a teu lado.

A mãe.

 

Sandrapep


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4.10.13

 

É inacreditável o progresso do mundo em algumas coisas. Mas em outros ainda parecemos presos a ideias medievais e assustadoras. É natural para muitos o avanço da ciência e das coisas que pareciam impossíveis, mas diante da sexualidade as pessoas parecem se congelar.

E o que nos dá tanto medo nisso? Difícil saber, mas crescemos cercados, durante séculos, de conceitos errados e religiosos. Tudo que tem a ver com a sexualidade é escondido, dito em voz baixa e um tom neutro.

Não conseguimos ainda superar as coisas sem sentido que envolvem o assunto. É assustador como as pessoas consideram um transplante de órgão uma coisa natural e fácil de fazer, mas na hora de falar sobre sexualidade essa espontaneidade desaparece.

O único motivo que eu encontro é a questão cultural, fomos educados para não falar sobre isso, nem sentir nada a respeito, mas mesmo assim não existe no mundo um assunto que desperte mais nossa curiosidade do que esse.

É o simples que virou complicado. Não tem nada na sexualidade que não possa ser dito, mesmo assim não dizemos. E não perguntamos. De pessoas próximas, às vezes sabemos até quanto ela tem no banco, mas de sua vida íntima, do exercício de sua sexualidade não vamos saber nunca. Com isso concordo, ser discreto é fundamental, o problema é que estendemos esse comportamento a nós mesmos, não falamos da nossa sexualidade para ninguém, mas também não sabemos nada dela, porque ficamos com vergonha de procurar saber.

E hoje se sabe que uma sexualidade reprimida, escondida, leva a pessoa a uma série de doenças, inclusive mentais. Exercer sua sexualidade é uma peça importante na saúde integral, não apenas na parte física, aquilo é necessário emocionalmente e mentalmente.

Saber da própria sexualidade é se conhecer e ao fazer isso automaticamente podemos rejeitar comportamentos errados ou situações que nos ferem. Com pouca informação estamos nos acostumando a ver a sexualidade de uma maneira distorcida, longe do que é a realidade. Filmes, comerciais estão criando uma sexualidade de plástico, artificial, sem vida e perigosa. E o pior é que absorvemos isso como se fosse natural e não chegamos nem a saber quem somos e como somos. Estamos recebendo uma realidade modificada e aceitando como se fosse normal.

Mas o normal é o simples, não o criado. A sexualidade é um terreno livre e pessoal, mas somos nós que temos que procurar o caminho, sem usar mapas alheios. É essa viagem que todos devem fazer para chegar a um ponto de autoconhecimento. Infelizmente poucos embarcam, são logo seduzidos pela outra realidade artificial, que promete caminhos mais curtos e mais prazerosos. O caminho para se conhecer não é dos mais fáceis mesmo, por isso tantos desistem, mas é o único que traz recompensas, porque se conhecer e exercer sua sexualidade fazem a vida valer a pena, e isso é mais do que podemos imaginar.

 

Iara De Dupont


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1.10.13

 

Numa manhã, igual a todas as outras, apanhei o autocarro para ir para a escola, andava eu no 10º ano. Quando cheguei, vários autocarros chegaram ao mesmo tempo, descendo deles muitos dos meus colegas de escola e de turma.

O pátio de entrada estava cheio de pessoas, cruzando-se os vários olhares de sempre. Mas, naquele dia, os meus olhos cruzaram-se com dois olhos azuis que me deixaram presa por algum motivo que não entendi. Depois de uns minutos conseguimos desviar o olhar um do outro e seguir os nossos caminhos.

Passei as aulas desse dia a pensar se voltaria a cruzar-me com aquele rapaz que me encantou apenas com o olhar.

À medida que os dias foram passando, o objetivo dos intervalos era fazer com que o meu grupo de amigas preferisse sentar-se num local onde eu pudesse ver aqueles olhos novamente, mesmo sem elas se aperceberem.

Passaram-se meses até que elas percebessem que eu comunicava daquela maneira com aquele rapaz. Quando esse dia chegou, porque eu já não me esforçava para o esconder, uma delas insistiu tanto para explicar o que ali se passava que eu acabei por desvendar todo o mistério desta relação quase utópica.

Digo quase, porque não era apenas eu que olhava. Era também olhada nos meus olhos, sentindo-me invadida por ele de alguma forma que não conseguia descrever.

Várias semanas se passaram, deixando as minhas amigas cada vez mais impacientes e sem saber por que razão não nos apresentávamos um ao outro, quebrando esta barreira.

Como as amigas fazem tudo por nós, até mesmo o que não queremos, um dia montaram um esquema e fomos realmente apresentados, tendo até feito uma conversa onde trocamos apenas os nomes e um sorriso tímido, sem jeito e até de desilusão.

Depois deste dia, depois da suposta barreira ser quebrada, deixei de procurar o olhar e, quando por acaso nos cruzávamos, era agora bem mais fácil de explicar o sentimento que carregava: desilusão de ambos.

Pensar naqueles olhos, olhar para eles como algo misterioso e fora do meu alcance, tornava toda a situação apetecível, com vontade de ter mais. Depois de dar apenas mais um passo, ou seja, acrescentado palavras, todo o desejo se desmoronou, deitando fora toda a beleza e sexualidade da relação diária que criámos de forma espontânea, natural e sem compromissos.

O mistério do desconhecido tornava o desejo monstruoso, quebrado com um simples olá e com a intenção de tornar os sentimentos e vontades verbalizados.

 

Sónia Abrantes


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