18.3.14

 

Cumpro o mesmo ritual há quase duas décadas: levanto-me às 6h30m, visto-me cuidadosamente, tomo o pequeno-almoço com a mulher e os filhos e saio para trabalhar. Conduzo, em piloto automático, até à empresa e estaciono no mesmo lugar de sempre. No caminho até à porta dou-me conta de que, nos últimos três meses, já ninguém me espera. Regresso ao carro e conduzo até ao meu recanto favorito da cidade, onde o mar revolto abafa o meu grito, e ali me deixo ficar até a noite cair e eu regressar a casa, no mesmo horário de sempre. Quando chego, a mulher pergunta, sem sequer olhar para mim, “Como correu o teu dia? Trabalhaste muito? Estás com um ar abatido.” Há três meses que ensaio o discurso: “Joana, fui despedido. Já não há emprego nem ordenado, nem a viagem aos fiordes da Noruega que te tinha prometido para este ano.” Há três meses que me criticas as gravatas enquanto me enfias as torradas à frente. Enquanto finges prestar-me atenção, ensaio mentalmente a verdade indigesta. Na minha cabeça, digo-te a verdade sem gaguejar, mas a minha boca não se abre. Saio mudo, regresso calado.

Um dia destes, a Madalena ligou-te para te contar que o Rogério tinha sido despedido. O Rogério, nosso padrinho de casamento, padrinho dos nossos filhos e um amigo inestimável de horas muito amargas, foi um homem. Sentou-se com a Madalena, pôs tudo em pratos limpos e sugeriu de imediato maneiras de economizar que seriam apenas temporárias: a Madalena podia passar a tratar da casa (visto que nunca trabalhou) e dispensavam a empregada; ele abdicaria dos fins de semana de jet ski e ela das seis vezes por semana no ginásio; ele reduziria os gastos pessoais e ela o número de operações de estética. Dessa forma, poderiam viver razoavelmente bem até ele arranjar um novo emprego. Os pratos limpos do Rogério estilhaçaram-se em mil pedaços nas mãos da Madalena. Esta tratou de lhe lembrar que lhe havia dado os melhores anos da sua vida, que tinha desistido de tudo para casar com ele e que não ia agora trabalhar, “era só o que mais havia de faltar”. E tu, Joana, apressaste-te a dizer-lhe que o despachasse, que ela tinha toda a razão e que o Rogério não passava de “um egoísta, insensível, como todos os homens”. Fiquei ali, imóvel, atrás da porta. Incrédulo. É isto tudo o que tens a dizer aos nossos amigos, casados há quinze anos? Um tipo sério, fiel, dedicado, que sempre trabalhou para o bem-estar da família, tem um azar e perde o emprego e tu aconselhas a mulher dele a virar-lhe as costas, como se ele fosse uma peça comprada nos saldos e com defeito? Pobre Rogério, como me senti solidário com ele nesse momento. Fiquei triste, sobretudo por antecipar que, em pouco tempo, também eu seria protagonista de uma história semelhante. E já tão pouca dignidade me resta, Joana… Nem fui capaz de enfiar uma bala no cérebro e resolver isto como um homem… Chorei como um menino quando senti o metal frio encostado à têmpora.

Depois do telefonema, entrei na sala e sentei-me. Sentaste-te à minha frente, colocaste as minhas mãos entre as tuas e olhaste no fundo dos meus olhos. Há muito tempo que não o fazias. Era capaz de jurar que, quando te olhei de volta, vi aquela menina doce por quem me havia apaixonado. Os teus olhos diziam-me, serenamente, “está tudo bem. Estou sempre contigo, incondicionalmente, aconteça o que acontecer, até ao fim das nossas vidas.” Mas nunca fui muito bom a ler retinas… Disparaste, “Jura que nunca me farás uma sacanice destas, Luís! Tu jura-me.” “De propósito, Joana? Nunca.”

A verdade é que eu não tenho a coragem do Rogério. Resigno-me à minha sorte e colo com cuspo esta mentira, que se vai tornando maior, dia após dia. Enquanto houver relógios para vender e tu não souberes de nada, eu aguento. Enquanto não olhares para mim como um coitadinho, continuo a acreditar que me vais amar para sempre e que serei sempre o príncipe da tua história – ainda que nem sempre saiba escolher a gravata.

Depois, bem, depois, faço figas para que o Rogério se dê bem e arranje casa depressinha, para me dar guarida quando me puseres as malas à porta.

 

Alexandra Vaz

 

Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 10:00  Comentar

Maputo | Moçambique

Pesquisar
 
Destaque

 

Porque às vezes é bom falar.

Equipa

Alexandra Vaz

Ana Martins

Cidália Carvalho

Ermelinda Macedo

Fernando Couto

Jorge Saraiva

José Azevedo

Leticia Silva

Rui Duarte

Sandra Pinto

Sandra Sousa

Sara Almeida

Sara Silva

Sónia Abrantes

Tayhta Visinho

Teresa Teixeira

Março 2014
D
S
T
Q
Q
S
S

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
12
13
15

17
19
20
22

24
26
27
29

31


Arquivo
2017:

 J F M A M J J A S O N D


2016:

 J F M A M J J A S O N D


2015:

 J F M A M J J A S O N D


2014:

 J F M A M J J A S O N D


2013:

 J F M A M J J A S O N D


2012:

 J F M A M J J A S O N D


2011:

 J F M A M J J A S O N D


2010:

 J F M A M J J A S O N D


2009:

 J F M A M J J A S O N D


2008:

 J F M A M J J A S O N D


Comentários recentes
gostei muito do tema artigo inspirado com sabedori...
Não podia concordar mais. Muito grata pelo comentá...
Dinheiro compra uma cama, mas não o sono...Compra ...
Caro Eurico,O cenário descrito neste artigo enquad...
Grande artigo, que enquadra-se com a nossa realida...
Presenças
Outras ligações
Música

Dizer que sim à vida - Carlos do Carmo:

 

Dizer que sim à vida - Luanda Cozetti: