28.3.16

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Foto: Two - Leshapyx

 

Este mês de março terá sido, porventura, um dos piores meses da minha vida. A sucessão de eventos e a sua gravidade fizeram com que assim o classificasse. Poupo-vos os pormenores que transcorreram os seus dias, mas digo-vos que teve despesas inesperadas, doenças e morte.

Não vos pouparei contudo ao evento que dá base a este texto. No início deste fatídico mês tive um episódio urgente do foro cardíaco. Eu, imagine-se! Não que tenha alguma vez pretendido ser imortal, mas na verdade as cogitações ligadas à saúde de cada um, aos 39 anos, não remetem para uma situação dessa ordem. Vamos lá a lugares comuns: faço desporto, não bebo álcool frequentemente, fumo um ou dois cigarros por dia (quando o faço) e tenho cuidados alimentares. Apenas isto deveria ser garante de um coração saudável. Ah! E então o histórico familiar? Pois... talvez tenha sido por ai. Dois avós e um pai com enfartes... Avancemos.

 

O Eu é pessoal e intransmissível. É talvez o núcleo da nossa constituição pensante, a salvaguarda da nossa relação com o mundo e a fonte das maiores frustrações. O Eu é imortal, na medida da nossa mortalidade. É o bocadinho que gostamos de exibir e o bocadão que, por vezes, temos de esconder.

Eu, sou um individuo. Sou o Rui, quando me perguntam o nome. “Sou eu”, quando toco à campainha e me perguntam “quem é”. Eu sou marido, sou pai, sou filho, sou psicólogo, sou português, etc., etc., etc.. Sou muitas coisas e uma só. Sou EU.

E que Eu é esse?

Acredito que uma parte desse Eu é imutável. O tempo não lhe toca e não o afina. Nasce e cresce connosco. Marca-nos e define-nos. Esse Eu transforma-nos e transforma-se no Eu. É a raiz da árvore, as condições profundas da nossa estrutura cognoscente do interior e do exterior. Porventura aí habitam as coisas más. O primitivo do humano. A inveja, o sadismo, a raiva, o orgulho, para citar alguns. O Homem nasce mau, afirmou um. As crianças são mazinhas, afirmaram muitos. Provavelmente existirá um Eu universal. Não sei... Talvez nunca se saberá.

E depois existe a outra parte. O Eu mutável. O bom. Ou também mau. Dependerá do que cada um quiser. No meu caso, do que Eu quiser.

Esse meu Eu mudou por estes dias. Foi afinado pelo tempo, pela doença e pela mortalidade. Confesso que não foi processo rápido nem intermitente. Digamos que insidiosamente já se prepararia algo do género. Nada do que aconteceu é novidade. O único facto que de facto o foi, foi o facto de me ver deitado numa cama das urgências com o coração... alterado.

Em momento algum pensei que iria morrer. Não pensei que iria deixar viúva e órfãos. Pensei sim no que ainda tenho para fazer, em quem sou e no que ainda quero ser. Prometi que iria cuidar mais de mim. Que iria ao médico mais vezes, para além daquelas que terei de ir agora para se perceber melhor o que se passou. A genética, essa cabra... O coração é apenas mais um órgão na lista de falências biológicas frequentes na família.

 

Retire-se sempre o positivo das coisas. Tenho agora, conscientemente, um novo Eu. Ou parte dele para dizer verdade. Um novo Eu que me impele na procura de uma data de lugares comuns. Ter objetivos novos de vida. Dar mais valor à família. Procurar a felicidade em tudo o que se faz. Ter mais cuidados com o corpo e por ai fora. O Eu é pessoal e intransmissível. Mas se calhar, quando em sintonia com o grande esquema da vida todos os “eu” procuram as mesmas coisas. Se calhar existe mesmo um grande Eu universal. Todos nós teremos é talvez de passar 2 dias nas urgências para o perceber.

 

Rui Duarte

 

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25.3.16

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Foto: Girls - Unsplash

 

Gosto de gente que me acrescenta valor.

Que me faz viver. Mais e melhor.

Gosto de gente que ensina sem que eu perceba que estou a aprender.

Gosto de gente que erra, que falha, que assume, se levanta e segue acima. Em frente e mais além.

 

Gosto de gente com vida. De gente vivida. De gente que pode ser sofrida mas é bem resolvida.

Que não dá lições. Gente que sabe que há aulas da vida que só se aprendem na escola da vida.

 

Sou feita de gente.

Desconheço a existência de um 'Eu' sem pessoas.

Porque eu sem elas não era eu, não era nem meio eu.

 

Joana Pouzada

 

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21.3.16

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Foto: Alone On The Beach – Emiliano Spada

 

Há algum tempo que ando a tentar descobrir quem sou. Por favor não me entendam mal, pois eu sei como me chamo, onde nasci, quando nasci, quem são os meus pais, que sou a sua única filha, onde moro, etc.. Ando a tentar conhecer-me a mim mesma pois, de alguma forma, desconheço-me. Ou conheço, mas não gosto de quem sou. Por isso, tenho procurado formas de me questionar, de refletir e de experimentar coisas novas, novas atividades, novas pessoas, pessoas que descobri pensarem como eu, quando eu achava que ninguém pensava assim. As pessoas que conheço não me interessam, não me ensinam nada. Quero pessoas que sejam melhores do que eu, que me obriguem ao esforço de aprender, de me descobrir e de evoluir. É assim que quero estar, sempre assim, nesse esforço.

 

Não sei como relacionar-me com as outras pessoas. Não recebi isso de ninguém, não aprendi, nunca me ensinaram, não sei como isso se faz, não sei o que são laços nem afetos, nem sei para que servem. E, talvez, já nem queira saber. Por isso nem quero sair de casa, não quero ver pessoas. Tenho os meus animais, que precisam de mim, que nunca abandonarei.

 

Hoje falei com um senhor que me disse que eu viva em desequilíbrio. Eu achei que ele me chamou de desequilibrada e quase me zanguei, mas depois percebi que não. Ele disse que era muito bom eu querer conhecer pessoas melhores do que eu, era bom querer melhorar e crescer como pessoa – e nem todas as pessoas querem isso. Ele chamou a isso colocar a fasquia alta. Mas depois disse que isso não bastava, que qualquer ser humano necessita de relacionar-se com os outros, de ter laços, de ter afetos. Disse que qualquer pessoa necessita de ter relações com o que está fora de si, com as pessoas e com o mundo. As pessoas precisam de ganhar mundo. E que mesmo que não goste do que encontre, necessita desse encontro, sendo necessário saber viver com o que o envolve, de ser capaz de se aproximar e de se afastar conforme o caso e o momento, de saber criar a necessária proximidade ou distância, mas sem romper com as pessoas, sem perder os laços e os afetos. Se perder isso entregar-se-á nos braços frios da solidão. Disse que se a fasquia está alta, mas não há possibilidade de relação com o que está fora de mim, estou em desequilíbrio.

 

Confesso que não entendi bem esta ideia. Não entendo a necessidade imperiosa de me relacionar com o que está fora de mim. Os meus animais necessitam de mim e isso basta-me. O que posso eu obter mais, fora de mim, na relação com as outras pessoas? Não sei, nunca tive isso, não sei como se faz. Ele disse que não tenho competências sociais – admito que não. E será que conseguirei aprender? Ele disse que sim, se me esforçar para aprender, se me abrir ao exterior, se tiver ajuda. Mas eu não sei como fazer isso. Eu até acredito nele, mas não sei fazer.

E cada vez tenho menos vontade de sair de casa…

 

Fernando Couto

 

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18.3.16

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Foto: Sem nome – Виталий Смолыгин

 

Todo o agente ativo com personalidade jurídica tem a faculdade de agir em seu nome próprio e assim promover a transformação do mundo a sua volta, com duplo impacto, movido por interesses endógenos na esfera pessoal do agente e interesses coletivos circundantes da sua esfera exógena, campo ocupado pelas outras pessoas.

Assim, pretendendo configurar o Eu para dar eficácia ao supracitado, aventa-se um protótipo de agente que ab initio possui um conjunto de necessidades e objetivos próprios, então se for de natureza humana acresce-se ao primeiro os objetivos coletivos. Adjacente à personificação está a sua identidade, que se espera que seja única e própria para distingui-lo dos outros no plano operacional, bem como na diversidade existencial do universo em que esteja inserido.

 

Perceber a natureza e complexidade do Eu não é um exercício desnecessário de alienação de recursos escassos, destarte requerer segregá-lo para perceber a sua composição, que de uma forma geral possui duas componentes complementares, o hardware que é a caixa ou o corpo que dá forma e estrutura ao sujeito, e o software que é a parte lógica, o conteúdo que forma o processo racional. Se, relativamente à primeira componente, não oferece um grau de dificuldade para formar uma ideia sobre a sua mecânica, a segunda coloca um desafio acrescido sobre a compreensão da sua lógica funcional e motivacional. Compreendidas as partes, uma análise holística permitirá reconciliar as duas componentes e assim validar os pressupostos do particular completando o puzzle.

Certamente que este exercício não é trivial, pois a soma das partes nem sempre é igual a dois, tornando ainda mais interessante esta disputa. Sob o ponto de vista do objeto, sendo um agente mutável não vai pretender facilitar, nem ser caçado e se o destino assim desejar, evitará ser considerada uma presa fácil. A dinâmica dos processos induzida pela rotina enriquece a informação genética das gerações vindouras e também aprimora as boas práticas propaladas pelos antecessores.

 

De facto a mutação do modus operandi é uma necessidade decorrente da sustentabilidade das espécies que, num horizonte de longo prazo, adaptam paradigmas próprios para saber lidar com os desafios recorrentes e também enfrentar os novos. Mais uma vez a componente lógica entra em ativação contínua para desenvolver os conteúdos necessários que alimentam um processo decisório cada vez mais complexo.

Para reivindicar qualquer mudança sobre o mundo externo é preponderante que a primeira mudança seja operada por nós e recaia sobre nós próprios. Entretanto, para incorrer ao processo de gestão da mudança, implica compreender o quê, como e por que mudar, sendo a resposta para esta preocupação à necessidade de nos conhecermos a nós próprios, o que rompe por completo com o circuito e remete-nos ao ponto de partida. Conhecer a nós próprios, num sentido ousado do termo, implica sairmos de nós próprios e irmos ao nosso encontro com auxílio de uma mão invisível, aproximação essa somente possível quando o estado de espírito está sossegado e sem compromissos avultados. A agenda central desse encontro gravita em torno de três questões intimamente relacionadas, designadamente, rever o passado para compreender o presente e assim visionar com clareza o futuro.

 

Quando se consegue atingir esse ponto de equilíbrio adquire-se certo poder de conquista de objetivos de longo prazo, motivado pela vontade altruista de fazer a diferença, manifestado pela capacidade de persuasão e influência sobre outros, bem como o poder de autocontrolo ou mediação do incessante diálogo entre as expetativas traçadas e os resultados observados.

 

António Sendi

 

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16.3.16

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Foto: Hintergrund – Kai Stachowiak

 

Olho o reflexo do meu rosto sulcado pelo tempo, replicado nos vários pedaços do espelho caído. É como se a minha vida fragmentada estivesse representada naqueles pedaços: pedaços de alegrias, amores, conquistas, desilusões, tristezas, desamores, vitórias e derrotas.

O meu pai foi o primeiro a perceber que algo de errado se passava comigo, culpando a minha mãe disso. À medida que eu crescia ele ia percebendo que eu me distinguia do meu irmão, assemelhando-me mais da minha irmã. Eu abandonava as brincadeiras do meu irmão, um ano mais velho que eu, com os carrinhos e as pistolas. Ai como eu detestava brincar às guerras e às lutas! Deleitava-me sim, com as fantasias e brincadeiras mais tranquilas da minha irmã, dois anos mais velha. Partilhávamos os nossos sonhos e ambições personificando-os nas aventuras das “nossas” bonecas.

Sim, sofri, foi terrível ter que me confrontar com as transformações do meu corpo, este meu corpo trocado ao qual estava aprisionada. A voz subitamente tornou-se grave, as evidências fenotípicas masculinizadas foram se acentuando. Não reconhecia o meu eu neste corpo estranho de homem jovem. Eu era uma mulher, eu sentia-me uma mulher encarcerada num corpo masculino. Deprimi, despersonalizei-me, confundi-me, tentei fugir definitivamente deste corpo, libertar-me dele. Simultaneamente a esta luta desesperante por me encontrar, por me integrar neste corpo que me pertencia, mas eu não reconhecia, família e amigos afastaram-se, abandonaram-me. Não! Não fiquei totalmente só. A minha irmã, eterna companheira de aventuras, meu espelho de afetos, minha alma gémea, foi minha mãe, minha apoiante, mentora, minha reparadora de todos os meus pedaços quebrados.

Detenho-me nos fragmentos de espelho que refletem o meu olhar. É um olhar sereno, feliz, envolvido por um belo rosto feminino, contudo marcado por uma vida cheia e desafiante.

 

Tayhta Visinho

 

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14.3.16

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Foto: Crazy Hair – Petr Kratochvil

 

Por estes dias sou quem não sei que sou, não me reconheço de todo. Nem a pensar, nem a agir, nem a ser, nem a fazer que sou.

Quero sair deste corpo e desta cabeça, desta carcaça que me representa e apreciar quão louca estou, ou se sempre fui. Se estou viva até, ou se morri e fiquei num limbo alucinante. Se mereço o inferno ou, depois de uma boa e robusta passagem pelo purgatório, posso ousar esperar algo mais.

Se hoje me serrassem a meio a cabeça, em vez de sair alguma coisa, aconselho vivamente a utilização de um microscópio para ver uma obra completa do Maurits Cornelis Escher, com vários “eus” a subir e a descer e a entrar e sair por parte nenhuma. E a ajudar, obras de Miró, Dali e Rothko a pairar por toda a parte, num espaço onde nada é imóvel e tudo é desprovido de sentido.

 

É do tipo “onde esta Wally”, sendo que o Wally sou eu e todos são o Wally e nenhum é. E agora. Agora há aquelas partes de mim a querer recuar no tempo, outras a querer avançar, outras basicamente a querer queimar tudo e renascer. Outras só mesmo a querer queimar tudo. Parece a Sagração da Primavera mas no infinito, sem princípio nem fim.

Por acaso sempre achei que ia acabar louca e parece que se calhar, aqui cheguei. Internem-me por favor.

Depois há uma mesma figurinha lá no meio, também eu, a querer resistir e sair e renascer, totalmente nova, pura, sem defeitos, consciente porém dos erros do passado e sem falsas modéstias nem orgulhos parvalhões e descabidos. Sem máscaras. Estamos provavelmente no campo da mitologia.

 

Esqueçam tudo o que escrevi. Esqueçam tudo. Não estou a pedir ajuda. Já não sei se existo, e vocês também não.

 

Laura Palmer

 

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11.3.16

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Foto: Man Thinking – Peter Griffin

 

No “Eu” de cada um de nós há sempre mais do que um “Eu”. O conceito de “Eu” não se reduz apenas a um só, uma vez que pode variar em função da realidade que o envolve, interior e exteriormente. Nessa perspetiva, podemos considerar, pelo menos, três tipos constitutivos do “Eu”, a saber: o material, o social e o espiritual. O material identifica-se com a realidade física do próprio individuo. O seu corpo, enquanto ente biológico, sempre o mesmo e sempre diferente enquanto existe, muda conforme determina a interação entre as predisposições internas, genéticas e as condições ambientais que formam o espaço em que o organismo vive. A condição de ser um organismo vivo impõe ao individuo alimentar-se, beber, repousar, reproduzir-se, enfim, o conjunto de atividades cuja finalidade é sustentar a continuidade de sua vida. Igualmente, é essa condição que obriga o “Eu” material a conservar-se, a proteger a sua integridade de condições nocivas, ambientais ou impostas por outros organismos. No “Eu” material inclui-se assim tudo que a ele é necessário, nomeadamente, as suas roupas, a sua casa, os seus bens e objetos pessoais. Quando, porém, exacerbado e excessivo, cioso da posse de bens e a eles agarrado com avidez, alimenta um sentimento de egoísmo do individuo. Daí a necessidade de refrear essa tendência, orientá-la para outros fins, se possível, altruístas, numa palavra: sublimá-la.

 

O segundo elemento constitutivo do “Eu”, considerado de índole social, como tal designado, tem a ver com a identificação do próprio individuo na comunidade em que está inserido e por esta aceite. A sua identidade como fator de reconhecimento na sociedade depende da aprovação, ainda que tácita, e das críticas a ele dirigidas no seio da comunidade. Se ignorado por pessoas a quem dedicava o seu maior apreço e afeição, pessoas tidas por importantes para ele, fica diminuído na sua autoestima. O mais específico do “Eu” social de alguém reside na mente da pessoa que ele ou ela ama. A ausência, ou a não correspondência de afetos, abala profundamente a identidade social do individuo. Os seus efeitos são avassaladores sobre um individuo que se vê confrontado com os sinais ambivalentes da pessoa que ama. No “Eu” social, também entram a fama, honra e desonra, como fatores que determinam e influenciam as decisões e atitudes do individuo, servindo de base, ou não, à reafirmação do seu status quo na sociedade. No “Eu” social podemos deparar com vários “eus” sociais, partes do mesmo “Eu”, consoante os grupos em que o individuo neles se integra, deles se afasta ou deles é excluído.

 

O terceiro elemento constitutivo do “Eu”, de caráter espiritual, deve ser visto como algo que reside no interior de cada indivíduo, que o envolve e que nele se reconhece. O “Eu” espiritual é sentido da mesma forma que sente o seu corpo, com a diferença de que é no seu espaço de intimidade interior que encontra a capacidade de refletir e a faculdade de se analisar interiormente. O “Eu” espiritual deve ser considerado como o ente interior, subjetivo, em que o individuo se reconhece, assim como reconhece as suas faculdades psíquicas. O “Eu” espiritual é sentido da mesma forma que sente o seu corpo, com a diferença de que é no seu espaço de intimidade interior que encontra a capacidade de refletir e a faculdade de se analisar interiormente. É através dessa análise que o indivíduo se conhece a si próprio como objeto pensado.

 

Os três aspetos constitutivos do “Eu”, aqui descritos, revelam a diversidade deste conceito, qualquer que seja a sua análise, segundo vários ângulos. Dá para pensar: quando o “Eu” pensa, nunca está sozinho, pois outro “Eu” sempre o acompanha.

 

José Azevedo

 

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9.3.16

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- Indecisa, inflexível, incompreendida, inconstante, incompreensível, impulsiva, indeterminada. Eu não sei bem… Uma imensidão de “in”. Que se acabem os “in”.

 

Paro de escrever. Leio o que escrevi. O que leio não é bem o que escrevi, ou o que queria escrever. Eu sou tu? Tu és eu?

 

- “Uma pessoa nunca é só uma pessoa mas a tal pequena multidão mais ou menos desarrumada”.

 

Eu: o meu próprio mundo onde ninguém entra.

 

- Cada um, uma espécie de mundo: eu não vejo o que os teus olhos veem, ignoro o que sabes, não sofro a tua dor, não sou a tua pele.

- A nossa pele confundiu-se alguma vez? Chego a ti de que forma? Construo pontes, passagens secretas, caminhos subterrâneos? É assim que ligo o meu mundo ao mundo dos outros? Ao teu mundo? Sei eu relacionar-me com os outros? Acho que vivo num mundo só meu. Intransponível. Acabaram-se os “in”. Sou feita de “in”.

 

Contigo, o ritmo abrandava, desacelerava. A leveza era o bem mais precioso.

 

- Era eu um ser leve como uma pena?

 

Percebi que o teu mundo era tão inóspito quanto o meu. Também tu não sabias as respostas, tão pouco sabias fazer as perguntas.

 

- Ficamos a meio do caminho? Conhecemo-nos, soubemos quem era o outro?

- Só conheceste o meu “eu” virtual, não o “eu” real. Quem é o “eu” real? Não sabes, pois não?

- Não.

- Nem eu! O eu atrás de um ecrã é aquele mais fácil de conhecer, de se dar a conhecer.

- Sim, ficamos a meio do caminho.

 

Onde é que ficaram os gestos, as expressões, o tom da tua e da minha voz?

 

- Pelo caminho. Não somos a solução um do outro.

 

Não sei se foste tu que me viste a mim ou se fui eu que te vi a ti.

 

- Sou pouco e pouco sei. Não penso muito ou penso demasiado. Dá-me respostas.

- Não consigo. Andámos os dois à deriva.

- És tu quem eu esperava que me dissesse quem eu era, na diversidade de todas as outras que me escondem: o ser mais leve.

- Não somos a solução um do outro.

 

As relações entre as pessoas são labirintos: fáceis de entrar, difíceis de sair.

 

- Entramos num jogo. Quisemos jogá-lo: dois jogadores natos.

- O jogo da descoberta de quem eu sou, de quem tu és?

- Um jogo perigoso. Sempre perigoso. Caso contrário, não valeria a pena. Caso contrário, não teríamos lançado jogada após jogada.

- As meias palavras.

- Um jogo onde não podes voltar atrás. Recomeças pelo começo.

- Vezes sem conta. Demasiadas vezes. Até não poder mais recomeçar.

- Um jogo que não dominamos, cujas regras não conhecemos. Jogos sem saída. Jogos por acabar.

- O nosso já acabou? Quando nos encontramos para nos conhecermos?

 

Escrevi. Li o que escrevi. O que li não é o que escrevi ou o que queria escrever. Continuo sem saber as respostas. Fiz eu bem as perguntas?

 

Sandra Sousa

 

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7.3.16

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Foto: Young Girl Smiling – Anna Langova

 

Segundo a Janela de Juari, a nossa personalidade divide-se em quatro partes:

- aquilo que nós e os outros sabemos de nós;

- aquilo que só os outros sabem de nós;

- aquilo que só nós sabemos de nós e

- aquilo que nem nós nem os outros conhecemos

Inevitavelmente, a vida, que é a mais sábia de todas as energias, correntes e filosofias, fez-me sentir na pele que não chega só saber aquilo que está à superfície, e que, de uma maneira ou de outra, os outros conseguem ver em mim. Desde então, aprofundar este conhecimento de mim, é um desafio que tenho encarado com respeito, porque nem sempre estou preparada para o que vou descobrindo. Tal como quando percebi, que ainda não tinha crescido… foi absolutamente desconcertante! Mas na realidade, eu, tão cheia de dor, de mágoa, de saudade, de força e de amor para dar, era apenas alguém que até essa altura, se tinha amado apenas através do amor dos outros, que nunca tinha nutrido a sua criança interior, e que tinha uma árdua tarefa pela frente, mudar o que não gostava em si, aceitar a sua essência e, acima de tudo, amar-se.

 

Durante anos, mais propriamente entre os 11 e os 36 anos, odiei visceralmente o meu segundo nome, com o qual sempre fui tratada, e assim que saí da minha “rede” geográfica, apresentei-me por Ana, “Só Ana”, repeti milhentas vezes, “o segundo nome não conta”. Porém, graças e esta necessidade de me conhecer que a vida me impôs, hoje percebo que odiava o meu segundo nome porque me remetia para o lado mais desfocado da minha existência, para o generation gap tão presente na minha adolescência, para todas as coisas que, até de forma inconsciente, não gostava em mim, portanto, se me chamassem Ana, talvez a aversão ao nome fosse a mesma…

É assim que a vida também revela a sua força maior, potenciando em nós uma súbita necessidade de fazer um reset. O arranque é demorado mas vale sempre a pena, se estivermos recetivos às atualizações. À parte a metáfora informática, na verdade este tem sido um dos maiores esforços que tenho feito: conviver comigo em amor, escavar bem lá fundo as pedras em que tropecei para que o caminho seja mais suave e sereno, sem receio das pedras que me esperam. Crescer não é propriamente fácil, pois não? Principalmente quando concluímos que afinal a crença não traduz a essência. A mim ainda me falta um longo caminho, mas é o que tenho aprendido que me faz seguir em frente, doa o que doer. E não me dou outra alternativa, mesmo assustada.

 

Eu? Eu sou sorriso, força, tristeza e nostalgia. Eu sou saudade, sou amor, sou mau feitio, sou cinismo, sou ciúme. Eu sou mimo, carinho e amizade fiel. Eu sou Filipe e sou João, eu sou Maria Rosa e Augusto, eu sou Lucinda, Conceição e Paulo, eu sou Cláudia e Ana Oliveira. Eu sou uma mesa cheia de amigos. Eu sou a casa barulhenta da Castanheira. Eu sou todas as pessoas que fazem parte da minha vida, as que me magoaram e deixaram, e as que partiram, apesar de me amarem. Eu sou sardas e corpo de mulher cheiinha. Eu sou Triana, sou Foz, sou todos os sítios que amo. Eu sou quem me ama. E preciso de todos estes “eus” para que possa ser simplesmente EU, a minha pessoa, um ser autónomo, independente de todos os outros, sem colagens ou dependências, um eu resiliente que dança conforme a vida toca.

Eu sou a Paula.

Assinado: Paula Bessa

 

Ana Martins

 

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4.3.16

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Foto: Smile At The Park – Xoan Seoane

 

Eu não sou o meu corpo. Eu não sou os meus pensamentos. Eu não sou as minhas emoções. Eu não sou a minha rebeldia, nem as minhas palavras, nem superior nem inferior. Eu não sou a minha mente instável. Eu não sou o meu egoísmo. Eu não sou mais o meu passado. Eu sou um ser que almeja Felicidade. E paz. E tranquilidade. Eu sou como Tu. E se olhar para Ti e perceber que tal como Eu queres apenas ser Feliz e que tens algum sofrimento na tua vida, se aceitar que a tua pressa, indelicadeza, indiferença, raiva, apatia apenas são o espelho disso mesmo, então Eu deixarei de ser apenas um Eu isolado de Ti. Deixarei de pensar que somos diferentes. Porque Tu és o meu espelho. Tu que és todos os rostos com quem me cruzo és Eu. E Eu sou Tu!

 

Sara Almeida

 

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2.3.16

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Foto: Depression – George Hodan

 

Tu cansas-me.

Por que razão tens esta mania de ser assim, boazinha, sempre armada em amiga e preocupada com tudo e todos? Mas será que não tens mais o que fazer?

 

Arranja uma vida!!

Sim, porque passas a vida a tratar da vida dos outros, a resolver os problemas dos outros, a fazer os outros mais felizes e mais especiais.

 

E depois… Eu disse que me cansas? Não! Tu irritas-me! Irritas-me com essa mania de esperares que os outros te respeitem como achas que mereces, te amem como achas que mereces, que te façam sentir especial como achas que mereces! Que ir-ri-tan-te!

 

Vê se começas a fazer alguma coisa de útil por ti e assim talvez não te sobre tanto tempo para te ocupares com tanta gente que não está, com certeza, minimamente interessada em conhecer o esforço e empenho que lhes dedicas.

 

Queres algumas ideias? Acaba de ler os dois livros que tens a meio a ver se não estupidificas. Vai ao cabeleireiro, que essa melena já mete nojo! Faz exercício físico, a ver se te cansas de ser altruísta.

 

…E seca as lágrimas, que chorar faz rugas e tu já não caminhas para nova, não sei se me estás a entender…

 

Sandrapep

 

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