28.7.09

 


 

Momentos antes sentia-me tranquila, apreciando a agradável brisa do final de mais um dia.

Momentos antes apreciava, em abstracto, a vida que corre nas rugas de um rosto.

Momentos antes estava em total harmonia com o espaço envolvente.

 

Senti a adrenalina a apoderar-se do meu corpo, em passos quentes e fortes, no meu rosto senti a intensidade de um vermelho como se fosse uma queimadura de 3º grau, a minha voz tornou-se rouca e áspera, a saliva transbordava-me da boca, a visão turva e selectiva.

O meu corpo foi possuído por uma energia mandatária que me obrigava e exigia uma atitude, uma manifestação mais concreta. Completamente perceptível a localização do meu coração, conseguia ouvir as pulsações, cada vez mais aceleradas e pujantes.

 

Transcendi-me e vi o meu corpo a evadir-se, com uma coragem e uma força nunca antes vividas. Demonstrei toda a minha emoção e sentimento com palavras acesas e violentas, agredindo ferozmente a dignidade, a educação, o civismo e a conduta daqueles que considerei culpados por me levarem ao limiar das emoções e, por consequência, à sua manifestação.

 

Com a força que os meus pulmões permitem, berrei, mas a minha voz atraiçoou-me; fiquei afónica. Sem qualquer percepção ou consciência da minha real força física, extravasei a minha manifestação para actos físicos, estava cega, surda e muda… Não percebi o momento em que o meu sistema racional se desligou por completo.

De punhos fechados e dentes cerrados, desenfreadamente tentei atingir aqueles que, insistiam em colocar-me bem longe dos meus comportamentos habituais.

Senti um líquido na boca com sabor a ferro; não sei o que continha mas trouxe-me energias adicionais e nada me fez parar. Estaria louca? Não! Senti um profundo e asqueroso sentimento, uma raiva demolidora, uma fúria incontrolável, impossível de esconder, dissimular e, muito menos, controlar.

 

Momentos depois senti-me completamente exposta e frágil.

Momentos depois, consciente dos meus actos, arrependi-me.

Momentos depois entendi o perigo da proximidade da raiva e da fúria.

 

Neste momento reflicto como constantemente estamos expostos a todo o tipo de agressões, injustiças, descriminações, falsos testemunhos, faltas de educação e traições.

Neste momento pondero sobre a forma como somos obrigados a conviver com a hipocrisia, sentimentos mascarados, atitudes vergonhosas, com o egoísmo e a indiferença dos outros.

Neste momento vejo como temos de relacionar-nos com a maldade, como a guardamos, escondemos, disfarçamos e o desgaste que isso nos provoca.

 

Susana Cabral

 
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Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 17:08  Comentar

De Susana Cabral a 28 de Julho de 2009 às 23:38
Olá Aníbal!

Se não existissem momentos, em que podemos libertar "emoções" acumuladas, em que temos a liberdade de exteriorizar a raiva ou a fúria , provavelmente acabaríamos por implodir
A necessidade de explodir para chegar ao normal, não deveria acontecer, no meu ponto de vista, porque idealmente, não deveríamos estar exposto a situações ou a episódios que nos levam a até essa explosão.


De Susana Cabral a 28 de Julho de 2009 às 23:31
Obrigada!


Beijos e Queijos

De Susana Cabral a 28 de Julho de 2009 às 23:24
Olá Marcolino

Obrigada!
Fico bastante contente que tenha gostado do meu texto.

Saludo :)

De ©Marcolino Duarte Osorio a 28 de Julho de 2009 às 20:11
Olá Susana!

Citando-a: «Momentos depois senti-me completamente exposta e frágil.»

Belissimo texto na primeirissima pessoa! Parabéns!

Marcolino

De Ana Lua a 28 de Julho de 2009 às 18:27
Gostei muito desta tua descrição, querida!
Vamos lendo e nos revendo nas tuas palavras... em momentos de extremo sentimento explosivo!
Beijnhos gds!

De Aníbal V a 28 de Julho de 2009 às 17:20
As manifestações de raiva são, no geral, episódios da vida de todos nós nada bonitos para serem vistos. Nem para serem vividos.
Mas se esses episódios não existissem, como ficaríamos ?
Como ficamos quando não temos hipótese de explodir para poder regressar ao normal?

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