21.9.09

 


 


- Tinha 14 anos, veio-me o período num dia em que eu vestia umas calças brancas. Pois eu andei a passear naquela figurinha pelos pavilhões da escola! LM

 

- Eu estava na universidade, os meus colegas acederam ao meu computador e estiveram a ver fotos minhas de foro privado; não satisfeitos espalharam-nas e a faculdade inteira pode ver… AA

 

- Era eu já moça graúda quando levei uma chapada, da minha mãe, em praça pública e fiquei sem saber onde havia de meter-me! VA

 

- No meu local de trabalho não entendi o que me pediram e, à frente de todos, mostraram-me como se fazia, mas de uma forma ridícula, tratando-me como uma débil mental. O pior foi a falta de educação e os modos com que falaram e berraram. JA

 

- Dei a minha palavra a um colaborador em como ele iria ser promovido e, consequentemente, transferido. Entretanto o administrador da empresa mudou de ideias, sem razão aparente, e eu tive de transmitir as novas decisões. RP

 

- Fui apanhada num autocarro com um bilhete que não dava para o percurso que estava a fazer, sem ter consciência disso, e fui posta na rua enquanto todos olhavam para mim. SC

 

- Casadinha de fresco, convidei os meus pais e padrinhos para irem a minha casa. A minha gata num acesso de fúria rasgou as minhas cortinas novas. Após um longo e demorado esforço para esconder as cortinas e o seu rasgão, o meu pai descobriu-as e, sem qualquer pudor, certificou-se de que todos ficassem a saber o meu “segredo”. LM

 

A quantas mais pessoas perguntarmos, mais e diferentes respostas se obterão, tendo em comum a fronteira quase imperceptível entre a vergonha e a humilhação.

A vergonha e a humilhação são amantes que se complementam de tal forma que nem sempre conseguimos fazer a distinção. O encaixe é perfeito, a sintonia entre ambas é duma cumplicidade tal que se torna complicado sabermos quando sentimos uma ou vivenciamos a outra.

Poderemos dizer que a humilhação é a vergonha multiplicada várias vezes?

O facto de ser vista com as calças manchadas será mais uma vergonha de adolescente, ou a humilhação de saber que se ficou exposta à troça dos outros?

Mexer na nossa privacidade será uma humilhação, ou apenas a vergonha de todos ficaram a saber aquilo que cuidadosamente se escondeu durante anos?

O facto de a nossa independência ser posta em causa, de nos fazerem sentir ainda uma criança dependente e com laços parentais marcados, será uma forma de humilhação, ou vergonha?

Sermos expostos, descobertos, mexerem na nossa privacidade, colocarem a nossa palavra em causa, duvidarem da nossa honestidade, situações que nos levam a sentir como “bicho” sob a lente de um microscópio em que todos poderão ver, observar, concluir, tecer opiniões, fazer julgamentos, é sinónimo de humilhação?

A humilhação sente-se como se fossemos trespassados por uma fria e metálica espada, que rasga impiedosamente a nossa sensibilidade, ficando muitas vezes moribundos e sem qualquer capacidade de resposta. À pressa tentamos esconder a cara, os sentimentos e os pensamentos. Temos necessidade de resguardo, não queremos ver ninguém e muito menos ser vistos.

Rezamos para que rapidamente se esqueça aquele episódio em que fomos invadidos por um sentimento que nos torna frágeis e deixa profundas e permanentes feridas.

Rebaixarmo-nos perante as maldades, vontades, desejos e desígnios dos outros ou pura e simplesmente estar exposto à crítica, à troça, ao gozo dos outros, faz com que a humilhação seja um dos sentimentos mais complicados, mais difíceis de gerir e de digerir.

 

Susana Cabral

 
Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 12:10  Comentar

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