20.12.09


 


Já lidava melhor com as recordações desse dia trágico de Dezembro passado. É certo que perdera um braço para sempre e que o tronco exibia ainda as marcas causadas pelo violento impacto da queda de mais de 4 metros. Manter-se de pé era tarefa outrora simples que só conseguia cumprir à custa de muito apoio.

 

Atirado da varanda do segundo piso directamente para o caixote do lixo das traseiras, aí ficara toda a noite torcido entre sacos de plástico e vazias embalagens reluzentes, até ser recolhido por mãos carinhosas de uma família de parcos recursos. Destinaram-lhe um quarto minúsculo nas águas-furtadas. Da janela, virada a poente, espreitava as ondas dos telhados vizinhos e alcançava o mar e o sol de fim de tarde. Aí se recompôs das feridas do corpo e da alma, e passou a viver sem sobressaltos.

 

Na véspera de Natal, levaram-no para a sala de jantar e encheram-no de cuidados e atenções. Sentiu-se bem no meio de gente que o estimava e acarinhava. Sentiu alegria, paz e amor como nunca antes experimentara.

 

Acomodado num canto da sala, observara-a pela primeira vez. Era simples, muito simples. Uma mesa, tão velha com as quatro cadeiras que a ladeavam, um louceiro pequenino que parecia de brincar e um candeeiro enorme, desproporcionado no tamanho e na luz que projectava sobre a jarra de flores. Nas paredes laterais, suspensas no espaço e no tempo, fotografias inclinadas de gente antiga, cruzava olhares fixos, amarelecidos e pouco nítidos.

 

Como era diferente da casa que conhecera um ano antes! Tão repleta de peças caras que não sobrava espaço para os sentimentos. Onde se confundia conforto com felicidade. Onde o Natal era sobretudo uma referência de calendário, fugaz como todas as datas que se esgotam em si mesmas. Onde, passado o dia convencionado para ser Natal, havia que recolher rapidamente os enfeites, o presépio, as velas, as iluminações e os anjinhos papudos, únicos olhares inocentes daquela casa. Vazias embalagens reluzentes, das prendas apressadamente recebidas, iam juntar-se aos sacos plásticos a abarrotar de restos e sobras. E na fúria restauradora da ordem de todos os dias, nem houve tempo para guardar o pinheiro de Natal. Foi atirado da varanda, directamente para o caixote do lixo das traseiras onde ficaria toda a noite, até ser recolhido por mãos carinhosas…

 

José Quelhas Lima

 
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Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 21:39  Comentar

De Cidália Carvalho a 23 de Dezembro de 2009 às 01:55
José Lima,
Já o sabia com queda para a escrita mas para a manipulação é que não imaginava.
Surpreendente!

De Joel a 21 de Dezembro de 2009 às 21:58
Espectacular! Adorei a mensagem, a escrita e o ritmo. Muito original.
Abraço.

De Alexandra Vaz a 20 de Dezembro de 2009 às 22:41
Caro José,

que belíssimo momento vivi aqui,agora, na partilha deste seu texto.
Tomara muitos de nós pudessem sentir que a queda, não é o fim. É preciso saber esperar, é preciso sofrer a dor do corpo e da alma para se sentir que, o amanhã, pode ser infinitamente mais doce.

Um forte abraço,

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