5.2.10

 


 


Sentado na esplanada, Adolfo cumpria o ritual diário que o acompanhava há muitos anos. Maquinalmente, dividia o tampo redondo da mesa em três partes. O terço à esquerda era ocupado pelo jornal da casa; o da direita pelo carioca de limão e o restante pela enorme bolsa de cabedal a rebentar de documentos, fotos, cartões de desconto, recortes de jornais e outras inutilidades.

Começou por esmagar a casca do limão e lançar os olhos sobre os títulos da primeira página. Acrescentou meio pacote de açúcar e mexeu, mexeu, lentamente mexeu até se convencer de que o composto adquirira o ponto ideal. Virou o jornal ao contrário e começou a leitura da última página. Ainda se sentia incomodado pelo texto que lera há muitos anos anunciando que as mulheres, ao contrário dos homens, lêem os jornais e revistas de trás para a frente.

Um artigo sobre o regime dos mullah prendeu-lhe a atenção. Não entendia a posição do Ocidente. Achava, entre dois goles de carioca, que a solução passava por arrasar todo o Médio Oriente e parte da Ásia. Solucionava-se o problema do Iraque, da Síria, do Irão, do Afeganistão, do Iémen, do Paquistão e de mais alguns que os seus conhecimentos de geografia e de política não abarcavam. Colocavam-se os israelitas a explorar o petróleo dos sultanatos e emiratos, e finalmente tínhamos paz e petróleo para sempre.

 

Na mesa seguinte, Alzira puxou de um cigarro, rolou-o entre o polegar e o indicador, hesitou, mas acabou por sucumbir a um período de abstinência de vários meses. Recostada na cadeira para melhor inspirar, cerrou os olhos e abandonou-se ao vício de há muitos anos.

Mínima 2 graus, máxima 9. Vento moderado a forte de noroeste e períodos de chuva com abertas para o sul. Assim se explicava: a fulana que se sentara na mesa seguinte estava precisamente a noroeste da sua mesa. “Apague o cigarro”, resmungou num tom capaz de intimidar o mais radical ayatollah. Alzira, mulher de poucos medos, fulminou-o com o olhar, apagou o cigarro mas acendeu outro, logo de seguida. Adolfo levou a chávena à boca e sentiu um forte sabor a limão. Folheou nervosamente o jornal e fixou-se num artigo sobre esse conjunto de bactérias a que chamamos vaca, principal produtor de metano, um dos principais responsáveis pelo aquecimento global. Um sorriso prenunciador de vingança percorreu-lhe a face. Chamou o empregado e encomendou: um bife grelhado com manteiga, um copo de leite e uma fatia de queijo de vaca. Ah! E um iogurte.

 

José Quelhas Lima


 

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