1.10.10

 

Era o fim de mais um Verão escaldante mas ainda sentia os quarenta e dois graus de há três semanas, a pele suada e a sensação de tontura e de desmaio. Ainda sentia o cheiro das flores. Gostava de ver as hortênsias azuis espalhadas tropegamente pelos carreiros estreitos que acediam ao campo de milho. Todos os dias, no final da tarde, aquele banco de madeira velha, colocado estrategicamente em frente à casa pouco frequentada e que nos oferecia uma vista assombrosa, sustentava os nossos corpos já cansados do dia e dos anos. Estávamos agora, sentados, diante de uma imensidão dourada e avermelhada pelo crepúsculo de mais um fim de tarde.
As pessoas ficam mais bonitas no Verão, dizem. Nós preferimos observar a natureza, a erva que amarelece e seca, as cerejas vermelhas que amadurecem com o calor e largam o cheiro adocicado e morremos pelo suculento damasco dourado e pelos figos, pingo de mel, retirados da figueira encostada à casa, mais velha do que nós.
 
Já vivemos muito, já sentimos muito. Muita felicidade! O nascer do primeiro filho, em casa, nesta casa, Carlos Alberto. Muita tristeza e revolta! A morte! Quando faltava uma semana para fazer um mês tivera um ataque. O médico dissera que se não repetisse tudo estaria bem. Receitara uma injecção. Lembro-me que era já noite, umas oito horas talvez, e, com o menino nos braços, depois de caminhar apressadamente três quilómetros até à farmácia da Vila, foi possível comprar a que seria a abençoada dita injecção. O farmacêutico prepara-a. O menino morre-me nos braços. Num sábado fazíamos o baptismo, no sábado seguinte, a completar um mês, o funeral do bebé. O choro durou para sempre, a dor ficou compartimentada algures…

Alegrias? Também! O nascimento do José e dos que se seguiram… O nascimento do primeiro neto e dos outros…
Já nos conhecemos bem, quase muito bem. Falamos pouco, quase nada. Um gesto, um olhar, é quanto basta para mostrar desaprovação ou desagrado, contentamento ou consentimento… E o olhar diz imenso, diz tudo, é transparente.
Gostamos de passar assim os dias, juntos, a olhar a linha do horizonte, a olhar o nada, as nuvens brancas, imaculadas com as mais variadas formas. A trocarmos memórias de tempos que já lá vão e conversas sobre os vizinhos e conhecidos. As rugas são marcadas, o corpo curvado, as pernas já não nos levam onde queremos, as dores são companheiras fiéis, às vezes mais fortes outras vezes menos.
 
No Outono, dizem, o crescimento das plantas torna-se mais lento, as árvores e arbustos deixam cair as folhas. Mas, contrariando a imagem das folhas secas e amarelas espalhadas pelo chão, muitas flores aparecem e florescem com as mais variadas cores e presenteiam o céu azul celestial. Nós estamos nesta época do ano, com os nevoeiros matutinos e com o sol que aparece e aquece, cada vez com menos frequência e por períodos cada vez mais pequenos, mas aconchegantes e reconfortantes.
Estamos os dois sentados, num fim de tarde qualquer a sossegarmos, num olhar, em infinitos momentos de reencontros. Um segundo é muito, é nada, é perfeito!
 
Ana T

 

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