15.12.08

 


 


 


Em criança, colava a minha cara ao vidro para ver os enfeites de Natal que as lojas colocavam nas montras, no início de Dezembro. Sentia o frio nas bochechas e deliciava-me com os comboios, as bonecas e todo o vermelho e verde que preenchia as ruas, as montras e as casas.

Vivia o Natal num misto de respeito e ansiedade, como qualquer criança queria ser visitada pelo menino Jesus que, mais tarde, deu lugar ao célebre Pai Natal.

 

Mal terminava a arrumação da árvore de Natal e ainda se comiam os restos do bolo-rei, já começava a pensar no que iria pedir para o Natal seguinte. Sempre que abria a gaveta onde os enfeites estavam guardados, sentia uma nostalgia e um conforto: acontecesse o que acontecesse, viria sempre o próximo Natal, que seria sempre uma festa e eu sentiria a felicidade e o amor de um ano inteiro.

 

Fui crescendo e a realidade dos adultos foi-se apoderando dos meus Natais, ano após ano a magia foi-se desgastando, deixei de sentir ou de querer a sua proximidade, pois estava longe de ser uma época desejável ou feliz. Sentia a máscara de todos e não queria fazer parte da gigantesca máquina de fazer e produzir contos de Natal.

 

O seu significado, o seu valor, ou o quer que seja, ficou completamente esborratado no dia em que deveria estar a “celebrá-lo”, mas estava a lançar uma última despedida a quem me ensinou o valor e o significado do Natal; que ironia, que dor e que sofrimento.

 

Durante anos vi e vivi o Natal como se de um filme se tratasse, imagens fictícias, momentos produzidos, sorrisos elaborados, intenções deliberadas.

Perdi o significado do Natal, a própria palavra ficou fazia de conteúdo e significado. As próprias cores mudaram para rosa, preto, amarelo, roxo e sei lá mais o quê!? Vemos as nossas tradições serem invadidas e a perderem por completo a sua beleza e o seu significado.

As referências ao Natal começam com a chegada do Outono e todos somos bombardeados diariamente com as “intenções” do Natal, onde comprar, o que comprar e como comprar e quando chega a data já estamos enjoados, sem saber muito bem o que significa afinal o Natal.

Deixou de existir nas ruas o cheiro e a beleza do Natal, as músicas tornaram-se gastas, repetitivas e até mesmo aborrecidas.

 

Mas...

As coisas mudam, não voltam a ter a magia nem inocência de quando éramos crianças.

 

Mas...

É possível voltar a ter brilho e ser especial, um dom que só mesmo as crianças têm…

Só mesmo uma criança para encontrar a beleza e o significado do Natal.

Cantar vezes e vezes sem conta a mesma música, sem que isso se torne um massacre.

Só mesmo as crianças nos fazem sorrir quando lhes dizemos que só podem escolher duas prendas e com um grande sorriso dizem “que bom”. É claro que por detrás das duas prendas está uma colecção inteira de cinco bonecas, ou a edição completa de uns jogos de carros.

Só uma criança para pedir um paninho para cobrir o menino Jesus, que está com muito frio e fazer-nos procurar um agasalho adequado.

Só uma criança para acreditar no pai Natal e com ar malandro e um sorriso descarado responder, perante a ameaça de não ter prendas por se portal mal, “eu já falei com ele e ele prometeu que me trazia o que eu quero”.

Só uma criança nos faz decorar toda a casa com Pais Natal e nos obriga a deixar um copo de leite e uma fatia de bolo para a sua visita e, claro, não esquecer as cenouras para as suas renas.

E faz-nos comer o bolo que não apetece e beber o leite de que não gostamos, tudo a correr, com medo de sermos apanhados em flagrante delito. E ainda “ratar” as cenouras, a imitar os dentes das ditas renas, e tornar tudo o mais verosímil possível.

 

Enfim! O Natal muda ao longo da nossa vida, mais para uns do que para outros, o meu mudou e muito. Começou por ser uma fantasia que perpetuei até não poder mais, depois foi uma quase obrigação e finalmente faço parte como “construtora” da própria fantasia. A ver vamos como será o Natal quando deixar de contribuir para a criação de uma ilusão. Provavelmente serão eles, as minhas crianças, que vão assumir o controlo do Natal e fazer dele o que mais gostarem. Espero que nele se reflicta o carinho, o afecto e a felicidade de um ano inteiro.

 

Susana Cabral

 

Temas:
Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 00:31  Comentar

Maputo | Moçambique

Pesquisar
 
Destaque

 

Porque às vezes é bom falar.

Equipa

Alexandra Vaz

Ana Martins

Cidália Carvalho

Ermelinda Macedo

Fernando Couto

Jorge Saraiva

José Azevedo

Leticia Silva

Rui Duarte

Sandra Pinto

Sandra Sousa

Sara Almeida

Sara Silva

Sónia Abrantes

Tayhta Visinho

Teresa Teixeira

Dezembro 2008
D
S
T
Q
Q
S
S

1
2
3
4
5
6

7
8
9
10
11
12
13

16
17
18

22
23
25
26
27

28
29
30
31


Arquivo
2017:

 J F M A M J J A S O N D


2016:

 J F M A M J J A S O N D


2015:

 J F M A M J J A S O N D


2014:

 J F M A M J J A S O N D


2013:

 J F M A M J J A S O N D


2012:

 J F M A M J J A S O N D


2011:

 J F M A M J J A S O N D


2010:

 J F M A M J J A S O N D


2009:

 J F M A M J J A S O N D


2008:

 J F M A M J J A S O N D


Comentários recentes
gostei muito do tema artigo inspirado com sabedori...
Não podia concordar mais. Muito grata pelo comentá...
Dinheiro compra uma cama, mas não o sono...Compra ...
Caro Eurico,O cenário descrito neste artigo enquad...
Grande artigo, que enquadra-se com a nossa realida...
Presenças
Outras ligações
Música

Dizer que sim à vida - Carlos do Carmo:

 

Dizer que sim à vida - Luanda Cozetti: