24.12.10

 

O carro parou. Pelos movimentos dos seus colegas de viagem percebeu que já tinham chegado ao destino. Uns segundos depois ouviu o pesado portão subir, lentamente. Fixou aquele som. O carro avançou para voltar a parar um pouco mais à frente, para a habitual verificação e troca de papéis. Recomeçou a marcha para vencer o lanço final, até ao pátio.
A porta abriu-se e a luz forte do Sol do início da tarde foi de imediato ter com ele, envolveu-o, querendo aquecê-lo.
- Regressaste a casa. Vamos lá, desce.
Ergueu-se lentamente. Doíam-lhe as entranhas, doía-lhe o corpo, sentia-se virado do avesso, como se a sonda ao sair tivesse trazido tudo agarrado a si. E aquele sabor horrível na boca. Doía-lhe o coração, doía-lhe o espírito, doía-lhe a alma.
Desceu. Rapidamente a porta do carro celular foi fechada e o guarda pegou-lhe no braço. Sentiu carinho naquela ajuda para caminhar.
- Para onde vou?
- Para já vais para a enfermaria. Depois eles lá te dirão se ficas lá, se voltas para o teu “quarto”.
 
Entrou na enfermaria e sentou-se. Mas logo o enfermeiro chamou.
- Então, foste lavar as tripas? Gostaste da experiência? Mas o que foi que te deu para comeres vidro e detergente?
António - o 643, permanecia em silêncio.
- Ao menos foste passear. O passeio é que foi curto e rápido. E deixaste-nos muito preocupados, sabes? Mas já estás de volta. Agora temos é de tratar de ti.
António pousou a cabeça entre as mãos. E perguntou para si mesmo: - Porque não me deixaram morrer?
- Para já ficas aqui na enfermaria. Vais ficar aqui ao lado, com o 317. Dás-te bem com ele?
António acenou que sim, sem separar a cabeça das mãos, sempre a olhar os joelhos. A cabeça latejava-lhe. Quase sem forças perguntou:
- E quando volto para a ala?
- Não sei. – Respondeu o enfermeiro. E continuou logo depois:
- Daqui a pouco o médico vem falar contigo, ver como estás, e depois ele decidirá.
- Não quero voltar à ala! Eles vão dar cabo de mim.
- Tens muitas dívidas, é? Tens mais dívidas que juízo.
 
António conseguiu deitar-se. Luís - o 317, fixou o olhar em António, em silêncio, desde que este passou a porta.
Estendido, António pensou no que se passara no gabinete do médico, que o observara com muita atenção e cuidado. Disse-lhe que iria ficar bem, que dali a uns quatro dias estaria em forma. Pediu-lhe que falasse com o psiquiatra, que viria na manhã seguinte. Deu-lhe um cartão com um número de telefone, gratuito, da Voz de Apoio – para ligar se quisesse falar com alguém, alguém fora do estabelecimento prisional. Talvez ligasse.
Mas para já o que o preocupava era o regresso à ala. Não tinha como pagar as dívidas e sabia o que lhe estava destinado. Iriam continuar a usá-lo, sexualmente. Sentia medo, muito medo – mas não podia exprimi-lo, não podia mostrá-lo. E sentia culpa, muita culpa, por tudo o que consigo se passava. Sentia-se um ser miserável, repugnante, merecedor de todas as sevícias. Não aguentava uma vida assim, dois anos de sofrimento, sem ninguém cá fora que fosse um objectivo, que lhe desse força para aguentar.
 
Se tivesse morrido, estaria tudo resolvido. Ou talvez não estivesse. Estava muito confuso e cada vez com mais dúvidas.
Mas não queria voltar para a ala – eles estariam à sua espera. E não fora essa a pena a que o juiz o condenara.
Se ao menos conseguisse dormir um pouco… Afinal era noite de Natal, não de morrer.
 
Fernando Couto
 
Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 02:05  Comentar

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