31.12.10

 

Sampaio (1991), ao falar da adolescência afirma que esta é “uma fonte inesgotável de criatividade individual e familiar, um cenário de trocas afectivas intensas e onde a vida e a morte surgem constantemente. É neste quadro complexo que tantas vezes surge a tentativa de suicídio”.    
O suicídio é uma questão muito complexa, que desperta uma grande onda de angústia, na medida em que levanta a questão do nosso poder sobre a morte. Quando o suicídio surge na adolescência, a inquietação é ainda maior, levantando a questão de como é possível numa fase de descoberta e de encontro com o mundo, acontecer um tal desencontro, que leve a que a única alternativa perante o sofrimento, seja a procura da morte (Santos e Sampaio, 1997).
Tal como refere Shneidman, coexistem no gesto auto-destrutivo vários factores: uma pressão (interna ou externa) sobre o adolescente; uma dor psicológica insuportável (para a qual urge encontrar uma solução); e uma perturbação que pode assumir diversas formas psicopatológicas. Neste contexto, o gesto suicida surge como uma estratégia desesperada para pôr fim a uma tensão difícil de controlar, num individuo vulnerável devido a factores predisponentes, com dificuldades na evolução biográfica (abandonos, perdas, etc.) e perante o qual surgiram factores precipitantes que desencadearam o gesto suicida (conflitos, rupturas, insucessos, entre outros). A experiência clínica nos jovens mostra-nos que os comportamentos suicidários correspondem não só a momentos de crise individual, uma espécie de falência nas tarefas de desenvolvimento, mas também são uma forma de comunicação poderosa; um processo ambivalente e paradoxal de procurar uma mudança no contexto de vida. Existem inúmeros significados e motivações, e qualquer que seja o grau de intenção, ele exprime sempre dois desejos poderosos: acabar com aquilo que faz sofrer e restaurar a identidade (SPS, 2006).
Para Sampaio (1991), a tentativa de suicídio na adolescência surge então numa perspectiva tripartida, por um lado individual, relacionando-se com as vivências do adolescente; por outro lado familiar, no sentido de uma visão longitudinal da história natural da família, considerada na dimensão mais alargada; mas também numa perspectiva social, referente ao enquadramento social do jovem. A tentativa constitui-se como um triplo fracasso nestas vertentes, na sequência da falência de outras formas de resolução da crise. Para este autor, a tentativa de suicídio adolescente surge “após uma impossibilidade de reorganização estrutural, isto é, o processo de desenvolvimento não avança e há um bloqueio, uma situação de instabilidade a partir da qual se torna necessária a intervenção terapêutica”.
De facto, verifica-se que, de forma geral, as famílias de adolescentes suicidas revelam elevados padrões de rigidez, de hostilidade conflitualidade marcada, bem como de intolerância à crise.
Neste sentido, a intervenção terapêutica deverá passar, não só por uma abordagem individual com o jovem, como também uma intervenção junto da família ou rede de suporte do adolescente em questão. É pertinente salientar o papel da família, pois fornece o suporte afectivo que os adolescentes necessitam, quer para superar este período de tristeza, quer para os incentivar no processo terapêutico necessário.
 
Diana de Morais Ribeiro
(Articulista convidada)
 
Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 02:05  Comentar

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