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Vi recentemente um filme cujo enredo resumia-se praticamente à privação da liberdade e consequentes efeitos no comportamento humano. O filme chama-se “The experiment” e apesar de ter dois bons actores não passa, no máximo, da mediania. Contudo, achei o “núcleo” interessante dado que o mesmo vai ao encontro das conclusões de muitos estudos realizados. O que esses ensaios nos dizem é que a personalidade do indivíduo em circunstâncias de reclusão muitas vezes altera-se, assim como os seus comportamentos. Assiste-se então a variadíssimos fenómenos nessas circunstâncias mas vamo-nos centrar apenas nos de desagregação (pessoal) e de agregação (principalmente social).

O meio prisional é por natureza um meio stressor. Serve fundamentalmente para “castigar” acções anti-sociais, levando à sua inibição imediata e posterior. O recluso passa a habitar uma casa com regras próprias, quer institucionais, quer culturais, tendo forçosamente de aceitar ambas, com a dificuldade de as segundas não serem explícitas como as primeiras. Ora neste sistema de dupla regra surge frequentemente a desagregação. A individualidade que nos caracteriza no dia-a-dia, traduzida na liberdade de escolha em cada situação apresentada, torna-se muito reduzida fazendo com que o outrora “eu” se torne cada vez mais num “nós”. Esta desagregação pessoal pode inclusive tomar contornos psicopatológicos, tendo a sua expressão mais visível no comportamento, que agora se torna também social. Como exemplo extremo temos os motins prisionais, em que o individual torna-se uma consciência comum, orientada também, pelo menos, por um objectivo comum.
E assim, paradoxalmente, faz-se a ponte com os mecanismos de agregação. No meio prisional a adaptação do indivíduo ao contexto requer, como vimos, a desagregação de certos traços pré-encarceramento em detrimento de outros. Existe na esmagadora maioria dos casos a necessidade implícita do estabelecimento de uma rede social, que diferentemente da rede social existente em contexto social normalizado, dá prioridade a relações onde se obtêm proveitos específicos. Estes proveitos não são apenas de índole material mas também tais como segurança ou estabilidade.
Desta dicotomia adaptativa resulta então que os mecanismos de coping do indivíduo são diariamente postos à prova num contexto de reclusão, reflectindo-se prioritariamente nos seus comportamentos e de modo mais subtil na sua personalidade. Certo, certo, é que a experiência de privação da liberdade transforma qualquer um.
 
Rui Duarte
 
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