18.1.11

 

Era uma manhã de sol intenso e Manuel repetia os gestos de sempre. Maquinalmente, interrompia os feixes de luz que atravessavam as barras da sua cela e aguardava pelos sons vindos do exterior. Cerrava os olhos e imaginava como seria a vida do outro lado do muro. Ter espaço, vaguear pelas ruas, entrar num café e falar para desconhecidos, correr para o autocarro, sair junto ao rio e sentar-se ao sol e à brisa.
 
Vinte anos de idade. Vinte anos sem ter conhecido a liberdade. Primeiro, aquele tempo a que alguns chamam de meninice. A violência em casa e o quarto do fundo, atravessado por gritos e raios de sol. Aí aprendera o jogo matinal e solitário de se interpor entre a luz que penetrava pelo postigo e a parede, esperando, de olhos fechados, pelos sinais de vida que haveriam de chegar. Vozes das outras crianças, meninos e felizes, diferentes porque se riam.
 
Depois, o orfanato soturno e triste. O choro contido sob a violência nocturna e ignóbil. Os olhos esbugalhados aguardando a protecção dos primeiros raios de sol e o jogo de sempre. A luz reparadora no rosto, energia mínima necessária para suportar um novo dia.
 
E finalmente, bastante mais tarde do que seria de esperar, a revolta, a explosão de violência indiscriminada sobre tudo e todos os que o rodeavam.
 
Só no mundo, enfrentou o julgamento daqueles que antes foram meninos, que sorriram de felicidade ao sentirem-se amados, que viveram em quartos com grandes janelas abertas para o mundo. Pessoas que vaguearam pelas ruas e riram, sentadas ao sol e à brisa. Decidiram que Manuel representava um perigo para a sociedade e não merecia viver a liberdade que nunca chegara a conhecer.
 
Naquela manhã de sol intenso, Manuel trouxera para a cela um texto de Platão. O mito da caverna. E pensou como seria bom ser filósofo e poder escrever sobre o que se passa na cabeça dos outros.
 
José Quelhas Lima
 
Temas:
Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 02:05  Comentar

Maputo | Moçambique

 pessoa(s) ligada(s)

Pesquisar
 
Destaque

 

Porque às vezes é bom falar.

Articulistas

> Alexandra Vaz (PT)

> Ana Martins (PT)

> Cidália Carvalho (PT)

> Ermelinda Macedo (PT)

> Fernando Couto (PT)

> Fernando Lima (PT)

> Jorge Saraiva (PT)

> José Azevedo (PT)

> Leticia Silva (PT)

> Rui Duarte (PT)

> Sandra Pinto (PT)

> Sandra Sousa (PT)

> Sara Almeida (PT)

> Sónia Abrantes (PT)

> Tayhta Visinho (PT)

> Teresa Teixeira (PT)

Janeiro 2011
D
S
T
Q
Q
S
S

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
12
13
15

16
17
19
20
22

23
24
26
27
29

30
31


Arquivo
2017:

 J F M A M J J A S O N D


2016:

 J F M A M J J A S O N D


2015:

 J F M A M J J A S O N D


2014:

 J F M A M J J A S O N D


2013:

 J F M A M J J A S O N D


2012:

 J F M A M J J A S O N D


2011:

 J F M A M J J A S O N D


2010:

 J F M A M J J A S O N D


2009:

 J F M A M J J A S O N D


2008:

 J F M A M J J A S O N D


Comentários recentes
gostei muito do tema artigo inspirado com sabedori...
Não podia concordar mais. Muito grata pelo comentá...
Dinheiro compra uma cama, mas não o sono...Compra ...
Caro Eurico,O cenário descrito neste artigo enquad...
Grande artigo, que enquadra-se com a nossa realida...
Parabéns Ana Martins, uma abordagem bastante suges...
Obrigado Denise, embora sinta que tenha sido basta...
Muito bom !Explicou exactamente o que eu penso!!!
Concordo plenamente caro Dr. Sendi, o facto é que ...
Gostei muito do artigo .Estou plenamente de acordo...
Presenças
Outras ligações
Música

Dizer que sim à vida - Carlos do Carmo:

 

Dizer que sim à vida - Luanda Cozetti: