5.4.11

 

Entrei e sentei-me no último banco. Esperava ver a igreja vazia mas fiquei surpreendida pela quantidade de pessoas que já lá estava. Claro, que tonta, estavam a chegar para a homilia da manhã. Fiquei contrariada, não queria ver gente na igreja, queria entrar nela vazia. Respirei lenta e profundamente e olhei à minha volta.

 

Reparei que todas as cabeças que estavam à minha frente eram brancas ou cinzentas. Deviam estar umas quinze pessoas e todas elas já com idade avançada. Eu tinha entrado naquela igreja por impulso mas pareceu-me que todos os que lá estavam cumpriam uma rotina quotidiana. O esforço que faziam nos seus movimentos lentos e silenciosos deu-me ideia que este era um momento solene no dia deles. Numa fase já cansada da sua vida, estes velhinhos levantavam-se cedo de manhã para orar, conversar com Deus, quem sabe, encará-lo. Tive vontade de ir ter com eles, questioná-los, ter uma resposta imediata sobre tudo o que já sabiam, a que conclusões tinham chegado. Já tinham sido jovens, já tinham corrido, pulado, esperneado, já se tinham sentido fortes, poderosos, já tinham festejado as suas conquistas e inevitavelmente tinham tido desgostos. Queria perceber como é que depois disso tudo conseguiam estar ali tão serenos. Senti que teria tanto para aprender com eles, certamente já tinham atravessado experiências como a minha naquele momento. E depois? Quando tudo passa? Como se fica? Talvez nos riamos das nossas tontices, dos nossos dramas apocalípticos que em suma, resumem-se a experiências de vida, com o passar dos anos até podem parecer anedotas. Certamente estas pessoas não tinham entrado na igreja pelo mesmo motivo que eu. Eu estava perdida, prestes a lançar um ultimato, à procura de uma luz, de uma inspiração, de um milagre, de preferência repentino! Estes velhinhos não me pareciam estar perdidos. Eram frágeis e fortes ao mesmo tempo, andavam curvados mas com um olhar pausado, de quem já sabe muito e também sabe a dimensão do desconhecido. A sua debilidade física dissolvia-se no sussurrar das suas orações, na serenidade que transmitiam. Estes cabelos brancos e prateados que me enfrentavam eram como um desafio. Tinham tido toda a vida para acreditar, questionar, duvidar e até negar. Por fim, todas as equações resultavam em crer, mais do que tudo naquilo que é inexplicável. Contas feitas, depois de ter vivido momentos tão intensos e tão urgentes, tudo passa, com o tempo as importâncias desvanecem e permanece a consciência da condição humana, frágil e irreversível. A vida resume-se ao essencial porque já não se tem tempo para desperdiçar com urgências e precipitações.

 

Saí da igreja mais tranquila. Tinha bebido da sabedoria de quem estava bem mais à minha frente. Os meus problemas permaneciam idênticos mas eu já me posicionava de forma diferente em relação a eles. Aqueles fios prateados com quem tinha partilhado aquela paz tinham-me apontado a fórmula para continuar: paciência. Difícil era pô-la em prática. Percebi que devia aprender com o tempo e dar tempo ao tempo para que me ensinasse a viver. As respostas não são forçadas, elas vêm ter connosco apenas quando estamos preparados para as receber e quando lhes damos espaço para chegar a nós, hoje, amanhã, daqui a quarenta ou sessenta anos.

Desde esse dia, sempre que entro numa igreja reparo inevitavelmente nos cabelos brancos e prateados, silenciosos fios de sabedoria que me mostram o quanto tenho para caminhar.

 

Estefânia Sousa

 

Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 01:05  Comentar

Maputo | Moçambique

Pesquisar
 
Destaque

 

Porque às vezes é bom falar.

Equipa

Alexandra Vaz

Ana Martins

Cidália Carvalho

Ermelinda Macedo

Estefânia Sousa Martins

Fernando Couto

Fernando Lima

Jorge Saraiva

José Azevedo

Landa Cortez

Leticia Silva

Rui Duarte

Sandra Pinto

Sandra Sousa

Sara Almeida

Sara Silva

Sónia Abrantes

Tayhta Visinho

Teresa Teixeira

Vanessa Santana

Abril 2011
D
S
T
Q
Q
S
S

1
2

3
4
5
6
7
8
9

10
11
13
14
16

17
18
21
23

24
25
27
28
30


Arquivo
2017:

 J F M A M J J A S O N D


2016:

 J F M A M J J A S O N D


2015:

 J F M A M J J A S O N D


2014:

 J F M A M J J A S O N D


2013:

 J F M A M J J A S O N D


2012:

 J F M A M J J A S O N D


2011:

 J F M A M J J A S O N D


2010:

 J F M A M J J A S O N D


2009:

 J F M A M J J A S O N D


2008:

 J F M A M J J A S O N D


Comentários recentes
gostei muito do tema artigo inspirado com sabedori...
Não podia concordar mais. Muito grata pelo comentá...
Dinheiro compra uma cama, mas não o sono...Compra ...
Caro Eurico,O cenário descrito neste artigo enquad...
Grande artigo, que enquadra-se com a nossa realida...
Presenças
Outras ligações
Música

Dizer que sim à vida - Carlos do Carmo:

 

Dizer que sim à vida - Luanda Cozetti: