22.4.11

 

Senti o sol a incidir nos meus olhos. Abri-os a custo e fui imediatamente invadida por uma sensação familiar de bem-estar. Mais um dia começava e ali estava a vida a desafiar-me alegremente e com malícia, para me levantar e aproveitar cada minuto do novo dia. Era uma miúda com pressa de ir lá para fora, abrir as narinas e inspirar o ar todo de uma vez. Levantei-me enérgica, abri as janelas, saí do quarto, e ao passar no corredor, esbarrei com uma figura estranha e ao mesmo tempo familiar. Observei melhor aquela mulher septuagenária, de cabelos grisalhos, como um olhar tão parecido com o meu. Era o meu olhar. Era eu.

O espelho lembrava-me com cinismo que o tempo tinha passado por mim, deixando as suas marcas bem visíveis, vincadas no meu rosto. Fitei a figura reflectida no espelho durante ainda alguns instantes, para me inteirar de que era eu de facto que me observava e tocava as minhas rugas ao de leve. Que corpo era aquele? Aquele invólucro estava errado. Dentro dele, escondia-se uma miúda, com a vida a pulsar dentro dela.

Fiquei ainda algum tempo presa àquela imagem e a tentar reconhecer-me nela. Enquanto mergulhava no seu olhar fui-me lembrando de como a minha vida tinha sido preenchida. Vi o rosto do meu amor, do meu companheiro de tantos anos, que tinha partido antes de mim. Vi o rosto do meu filho muito amado e o riso solto dos meus netos. Vi as minhas viagens, aventuras, alegrias e tristezas, sucessos e fracassos. Vi-me a aproveitar cada momento da vida. Vi-me a envelhecer.

Sim, aquela imagem no espelho era eu e reconheci nela uma grandeza única, por todas as vidas que tinha vivido e partilhado. Mergulhar naquele olhar era penetrar num mundo privado e fascinante de memórias.

Sorri e reconheci o meu sorriso. Era o mesmo de sempre. A miúda estava ali, à espreita, a desafiar-me. Tanto ainda para viver, tantos livros para ler, tanto para escrever, tanto para partilhar.

 

Teresa Moura

(Articulista convidada)

 

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