7.10.11

 

Como qualquer ser vivo, me intriga a morte. O que acontece depois? É verdade que voltamos, ou talvez não, se o nosso comportamento não estiver de acordo com o esperado? É verdade que voltamos na mesma família, com os mesmos amigos, até superar diferenças?

Não tenho a menor ideia do que acontece. Nunca tive nenhum tipo de experiência, dessas que a pessoa vê um túnel e sai em direção a ele.

O que me atormenta é o que dizem. Nós só levamos o que vivemos, mais nada. Não temos como levar nem um pouco do perfume que mais gostamos. Penso muito nisso, porque como muita gente estou despreparada. Já me falaram que rola um julgamento, onde não existe argumento, você é obrigado a assistir toda a tua vida e será julgado pelas coisas que não fez, não pelas que fez. Também me falaram que o filme da vida é dividido em duas partes. A primeira parte são as coisas ruins, pode levar eternidades para assistir e ver como você lidava com isso e a outra parte, muito rápida, são os momentos bons, felizes, plenos, essa parte dura segundos e isso determina que tanto você aprendeu na vida.

Me sinto despreparada porque não fiz até agora as coisas como deveriam ter sido feitas. Desde que nasci me perdi em problemas de peso, dietas malucas e ideias imbecis sobre o que é bonito ou não. Tenho doutorado nisso, em mutilação, tortura, fome, remédios para emagrecer e milhões de coisas picaretas. Sei tudo isso de cor, posso em segundos falar quantas calorias existem em milhões de coisas. Mas não vou levar o meu corpo ou seja, todo esse trabalho, toda essa dor, no fim não me servirá de nada. Trinta anos jogados no lixo e ainda desconfio que alguém lá em cima vai me dar uma bronca. E não sei se dá para juntar segundos de felicidade, para a segunda parte do filme. Isso também me atormenta. Sempre fui boa aluna aqui, não sei como será chegar lá e ficar ouvindo um monte. Minha única defesa é que eu não fui avisada. Ninguém me disse que os padrões estéticos do mundo não são reais, nem que a felicidade era uma coisa simples, nem que sentimentos ruins tem que ser domesticados, controlados e isolados, como doenças contagiosas.  Ninguém me avisou que eu poderia ser feliz sem muitas ambições, só seguindo o que eu quero, não o que me dizem para seguir. Ninguém me disse que minha vida ou a de qualquer um, poderia ser harmoniosa como a de uma borboleta, respeitando os ciclos e voando só por um motivo, não por milhões deles.

Espero ter tempo de reverter isso, mudar o filme, editar as partes ruins e colocar mais boas . Espero ter tempo de agradecer meu corpo por tudo de bom que ele fez e por todas as torturas que ele suportou em silêncio. Espero ter tempo, gostaria de chegar lá e saber que ninguém me avisou como era a vida aqui, mas ainda assim eu soube viver. Gostaria de pensar isso, talvez já morri um dia, mas agora estou de volta à vida.

 

Iara De Dupont (articulista convidada)

 

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Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 01:05  Comentar

De Lena a 18 de Outubro de 2011 às 08:36
Parabens pelo texto, pois exprime uma realidade, morte e algo inexplicável , surpresa , a curiosidade e saber para onde vamos depois da morte? e se realmente existe a reencarnação tínhamos que ter evidencias, mas e complicado a tendência das pessoas que acham que passaram por isso e o reconhecimento de lugares onde nunca estiveram mas que o reconhecem . eu acho deveriam publicar mais artigo desse género pois toca em sensibilidade de muito gente não só pelo interesse próprio mas dos seus ante queridos que partiram . obrigado

De Lua a 22 de Outubro de 2011 às 00:55
:-)
Obrigada Lena!

De João Sá a 17 de Outubro de 2011 às 15:16
Boa tarde e votos de uma boa semana :)
Este post está em destaque Na Rede na homepage do SAPO Moçambique (http://sapo.mz).

De Lua a 22 de Outubro de 2011 às 00:54
Obrigada, João Sá, por esse destaque!
:-)

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