16.12.11

 

Quando era pequena, adorava brincar à florista. O meu quarto tornava-se a minha loja, a minha cama era a minha bancada. Nela colocava os mais diversos recortes de flores com o maior cuidado, separadas por tipos e cores. Demorava horas a instalar a minha bancada, este era o propósito da minha brincadeira. Sentia-me dona do meu jardim, nada me escapava. Uma vez a minha bancada montada, já me sentia tão cansada que as minhas poucas vendas eram muito rápidas, só serviam “para picar o ponto” e de seguida arrumava tudo até uma próxima vez. As minhas brincadeiras acabavam sempre por adotar o mesmo esquema, estivesse eu a brincar à florista, às casinhas ou à cozinheira, espalhando flores, panelas ou roupas, adorava expor, organizar e arrumar, só pelo prazer de colocar tudo em ordem.

 

Hoje posso dizer que sou uma pessoa metódica mas já lá vai o prazer das arrumações. Tenho pouca paciência para dispor as coisas por cores ou tamanhos. Sou organizada porque não consigo viver de outra forma. Não posso dizer que sinta prazer em arrumar e muito menos em limpar; tornou-se um mal necessário, talvez porque o “fazer de conta” deu lugar ao “ter que ser”. A minha finalidade deixou de ser a viagem mas sim o destino, de preferência rápido, para poder fazer mais coisas, para cumular mais tarefas. Quando era pequena, brincava às arrumações porque tinha tempo, agora, faço arrumações para não perder mais tempo. Detesto procurar algo que não encontro simplesmente porque não estava arrumado. Cada segundo que perco a procurar faz nascer em mim uma fúria descomunal, prefiro mil vezes despender tempo em organizar do que em procurar aquilo que perdi; parece-me mais compensatório.

Mesmo assim, há alturas da minha vida em que o meu quarto parece um campo de batalha ou o cesto da roupa suja ameaça explodir. Há dias em que não faço nada, deixo para o dia seguinte, que vem a seguir ao seguinte. São geralmente fases que não duram muito tempo. Deixo-as vir e ir. Aos poucos, consigo recuperar alguma energia e alguma ordem na minha vida, que coincide geralmente com alguma ordem na minha cabeça. Quando tudo fica arrumado, volto a sentir-me mais segura, mais ativa e divirto-me a pensar que assim controlo melhor a minha vida.

 

Estefânia Sousa

 

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