17.2.12

 

Ainda ontem se encontrava sentado, tentando durante horas não deixar o corpo agitar-se em espasmos que refletiam a imposição do frio ao seu físico. O Porto apresentava-se cinzento e assim foi escurecendo, acompanhando a conversa que mantinham. Desta vez, o alerta amarelo não se traduzia em previsível tormenta ou tempestade. Apenas em frio e frieza. Chegou a noite, desfasada da sua própria perceção do tempo e aí o corpo cedeu mesmo à inevitabilidade da convulsão. Por esta altura já não lhe interessava se este sinal de vulnerabilidade não encontrava companhia no rosto fechado com que tentava transmitir convicção. Tentou expressar a mesma, através das palavras com que iniciou o discurso, apresentando a sua versão dos factos e dos sentimentos. Tentou expressar a mesma, através do olhar e da pressão que as mandíbulas exerciam uma contra a outra, desfigurando o seu rosto e o sorriso que ela tanto aprecia, quando calado observou as lágrimas que dos olhos dela começaram a surgir. E assim ficou. Resistiu, estoicamente considerou ele, face ao que de si conhecia e ao que teria permitido ouvir sem retorquir em situações passadas, aos relatos pormenorizados das suas falhas e omissões. O seu ego ia sofrendo, de assalto em assalto, encostado às cordas sem conseguir de lá sair. De vez em quando ensaiava um uppercut mal metido, que embora tocando no adversário não lhe causava muito dano porque partia já sem convicção. Não porque faltasse força no punho, mas porque um KO significaria o tapete para os dois. E ele nunca, nunca desejou isso. Aturdido, despediu-se com um beijo fugidio, daqueles deliberadamente secos que tentam ocultar o amor que se sente. Num SMS tardio propôs-se em levá-la ao emprego, por motivo de carro avariado, mas mais ainda porque quer que perceba que com ele pode contar. Mesmo depois de um combate brutal. Pela noite desligou-se do mundo e do frio. Percebeu mais tarde que se tinha desligado também do sono durante largos períodos. Acordou anormalmente cedo e tomou conta de si. Saiu com temperatura negativa e à hora marcada estava à porta dela, acontecendo muito rápido um mundo de coisas a partir desse local e do momento em que a viu. Sentiu-se desarmado, de surpresa apanhado com o baque que levou. Os olhos mostraram-lhe um segredo conhecido, o amor profundo de mulher revestido e o futuro à distância do agarrar. Não foi facto novo, mas voltou a ser trespassado pela certeza de que ninguém mais lhe serviria. Eram oito e tal do novo dia quando percebeu que tinha de mudar.

 

Rui Duarte

 

Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 02:05  Comentar

Maputo | Moçambique

 pessoa(s) ligada(s)

Pesquisar
 
Destaque

 

Porque às vezes é bom falar.

Articulistas

> Alexandra Vaz (PT)

> Ana Martins (PT)

> Cidália Carvalho (PT)

> Ermelinda Macedo (PT)

> Fernando Couto (PT)

> Fernando Lima (PT)

> Jorge Saraiva (PT)

> José Azevedo (PT)

> Leticia Silva (PT)

> Rui Duarte (PT)

> Sandra Pinto (PT)

> Sandra Sousa (PT)

> Sara Almeida (PT)

> Sónia Abrantes (PT)

> Tayhta Visinho (PT)

> Teresa Teixeira (PT)

Fevereiro 2012
D
S
T
Q
Q
S
S

1
2
3
4

5
6
7
8
9
11

12
13
15
16
18

19
20
22
23
25

26
27
29


Arquivo
2017:

 J F M A M J J A S O N D


2016:

 J F M A M J J A S O N D


2015:

 J F M A M J J A S O N D


2014:

 J F M A M J J A S O N D


2013:

 J F M A M J J A S O N D


2012:

 J F M A M J J A S O N D


2011:

 J F M A M J J A S O N D


2010:

 J F M A M J J A S O N D


2009:

 J F M A M J J A S O N D


2008:

 J F M A M J J A S O N D


Comentários recentes
Não podia concordar mais. Muito grata pelo comentá...
Dinheiro compra uma cama, mas não o sono...Compra ...
Caro Eurico,O cenário descrito neste artigo enquad...
Grande artigo, que enquadra-se com a nossa realida...
Parabéns Ana Martins, uma abordagem bastante suges...
Obrigado Denise, embora sinta que tenha sido basta...
Muito bom !Explicou exactamente o que eu penso!!!
Concordo plenamente caro Dr. Sendi, o facto é que ...
Gostei muito do artigo .Estou plenamente de acordo...
Há uma força interior que nos orienta nas decisões...
Presenças
Outras ligações
Música

Dizer que sim à vida - Carlos do Carmo:

 

Dizer que sim à vida - Luanda Cozetti: