13.3.12

 

Não ando bem. As últimas notícias que recebi trazem-me uma apreensão tal que me desgasta. Nestas últimas catorze noites durmo, promiscuamente, com duas companhias pesadas e negativas: o medo e a ansiedade. Combato-as todas as manhãs, e durante o dia, quase nem as sinto por perto mas, assim que me deito, sinto-as aninharem-se em mim e perturbarem-me irremediavelmente o sono. Será que há um limite de influência negativa que posso sofrer? Quero pensar com clareza, lembrar-me onde guardei o escafandro antes da submersão total mas, não dormir, não tem ajudado nadinha. Afasto-me daqueles que amo para não os afetar com esta negatividade que se abateu sobre mim, não consigo suportar a tristeza nos seus olhos, o ar aflito. Choro muito, mais do que pensava poder chorar. Canso-me de mim própria e deste meu estado depressivo, não me reconheço neste semblante sempre molhado. Evito as perguntas diretas, evito o sorriso que me penetre a alma e a desnude. Perguntam-me, “Como estás?”. Se tudo corre bem, a pergunta assume um caráter retórico e, quem mo perguntou, não fica tempo suficiente para que eu responda. Respiro de alívio e sigo o meu caminho. Mas outras vezes, quem pergunta quer realmente saber como estou. Respondo, regra geral, “estou bem”. Dizer que não estou, significaria explicar porquê e não me apetece nada desfiar o rosário das minhas lamentações. Não posso fazê-lo sem sucumbir às lágrimas e, nesse processo, sentir-me a coisinha mais frágil do mundo.

Ontem, um dia de sombra velada na alma, fui visitada por dois primos que têm sido amigos na jornada da vida. Não há barreiras na transparência da amizade genuína. Não há filtro que me permita fingir o que não sinto. Chorei, falei um pouco, baixei a guarda. Ousei mostrar-me como estava. Inevitavelmente, pela manifestação incomum de sofrimento, quem professa uma determinada fé, tende a evangelizar-nos. A minha irritabilidade apoquentou-me, desejei o silêncio da minha toca, o lamber das minhas feridas, o escuro da alma em devaneio. Falaram-me de Deus, disseram-me o quanto eu precisava dele e eu, retorcendo as mãos, lá fui dizendo que vivo com Ele diariamente. Que vejo Deus nas pequenas coisas de todos os dias, que vivo se calhar de uma forma mais cristã que muitos auto-proclamados cristão que eu conheço. Não me vinculo a nenhuma religião mas o meu espírito vive bem consciente da alma que é. Disse isto, disse aquilo, fui dizendo umas coisas. Todavia, sentia a pressão, o “Vem, estás mesmo a precisar… Médico? Não precisas de médico nenhum… precisas é de ouvir a palavra do Senhor. Acreditas em milagres?”. E tal e tal. Aproveitei o “Claro que não se deve coagir ninguém a…” para ruminar um “Concordo. Eu, por exemplo, não gosto de ser coagida a nada. Não gosto mesmo, fico doida. Reajo muito mal…” Mau? Muito mau mesmo… Quase tão mau como ter-me apetecido levantar, virar as costas e desandar. Quando me preparava para amotinar o meu corpo, dei-me conta de que há mais de um ano que os meus primos não tinham um dia livre. Um dia, uma tarde, uma manhã, nada. Um momento, sem a mãe para tratar, num processo de senilidade progressiva, sem o pai para lavar, a vida para gerir, na presença constante da doença e da preocupação. No entanto, no primeiro momento livre que tiveram, vieram ver-me. Foi em mim que pensaram para essa tarde. Imediatamente, senti-me serenar. A tensão, que me encrespava o corpo e a alma, deu lugar a uma calma que me transcendeu. Deixei de me sentir claustrofóbica e irritada. Senti-me tão estupidamente envergonhada quanto agradecida por alguém gostar tanto de mim a ponto de partilhar comigo o melhor de si: a sua força, a sua fé, o seu sorriso, o seu abraço. Abri a minha mão cerrada, cheia de raiva contida, e deixei-a ser tocada. Chorei muito, um choro sem defesas, daqueles que lavam a alma e nos fazem levitar. Aquele pensamento, soprado por um qualquer vento de mudança, trouxe-nos a todos uma paz indescritível. E, no fim, não fui obrigada a nada. Ninguém me bateu nem levou de rastos por uma qualquer igreja redentora adentro. Ficou o convite e o desejo de que eu, um dia, quisesse visitar a sua igreja. Sem grilhões, sem obrigações. Ficou o abraço dado com amor, a alma com mais cor, a amizade mais cúmplice.

Pensar antes de agir, salvou-me da estupidez egoísta que nenhum estado depressivo deveria ostentar e que nos leva a ferir, sem piedade, quem connosco se preocupa: os que nos amam. Os que amamos. Afinal, eu não estava certa, apenas cega pela minha própria dor. Abrir-me aos outros lembrou-me que o mundo não gira em torno do meu umbigo e que não parará jamais para eu carpir as minhas mágoas. Mas também me lembrou que não caminho sozinha, que não tenho sempre de ser forte, que devo estender a mão quando preciso com a mesma facilidade com que o faço com quem precisa. Na verdade, não quero uma mão cheia de nada. Adoro o calor de outra mão na minha.

 

Alexandra Vaz

 

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