19.6.12

 

Quando surge a palavra virtual geralmente pensamos, de imediato, em computadores, em informática, em Internet, em mundo paralelos criados pela tecnologia, num futuro cheio de luzes a piscar e de écrans de alta definição cheios de movimento, em 3D, em 4G, em todas as parelhas possíveis de número e letra. Olhamos para o virtual com algum fascínio e com alguma retração, receando não sermos capazes de acompanhar tanta mudança e tão rápida.

Mas procuremos o que significa a palavra “virtual”. Simplificando, virtual significa o que não é real, embora possa, eventualmente, vir a sê-lo. Daqui poderemos concluir que muito do que a tecnologia nos trás, afinal, é real e não virtual. Por outro lado, muito do que está fora da tecnologia, muito do que nada tem a ver com ela, é virtual.

Alguns dos dramas do ser humano ligam-se ao virtual, mas não à tecnologia. Muito do sofrimento humano provem de a pessoa se desligar da realidade circundante, por não a perceber, por não a aceitar, por não saber/conseguir lidar com ela. E este afastamento da realidade pode mesmo atingir níveis patológicos.

Mas será um erro pensar que o afastamento da realidade, a existência num mundo virtual se passa apenas ao nível da pessoa, do individual. De facto, a sociedade, como conjunto, por razões diversas, nomeadamente culturais, económicas ou políticas, produz mundos virtuais. Proponho a reflexão sobre duas dessas produções, na sociedade portuguesa. A primeira delas tem razão financeira/política e consistiu em andarmos, durante algumas décadas, coletivamente convencidos de sermos ricos, de que tudo estava ao alcance de todos sem ser necessário trabalhar, sofrer, gerir. A segunda tem razão cultural e consiste em termos distorcido o conceito de boa educação ao ponto de termos criado um antagonismo entre esse conceito e a palavra “não”. Em termos práticos este antagonismo impede-nos de dizer “não”, para não sermos mal-educados.

Na prática:

- A menina, num corredor do shopping, propõe a marcação de uma consulta gratuita para verificar o estado dos meus dentes. Eu, apenas para não ser mal-educado, sobre tudo porque a menina está a trabalhar, marco a consulta, embora não faça a menor das intenções de lá por os dentes. E se telefonarem na véspera a pedir confirmação, eu digo logo que sim, para não parecer mal-educado, até porque esta menina também está a trabalhar. Faltar a uma consulta, depois de a confirmar, tirando a vez a outra pessoa e desperdiçando o tempo de quem, por estar a trabalhar, fica à minha espera, não é má educação – é...

- Os meus pares, num grupo a que pertenço, pedem a minha colaboração, o meu trabalho, o meu contributo para levar a cabo uma tarefa. Eu, para não ser mal-educado, até porque aquilo é gente do melhor, empenhada e esforçada, digo logo que sim. E vou confirmar o meu esforço e contributo as vezes que for necessário, sempre em grande euforia. Claro que vão acontecer oitocentas e quinze coisas “de loucos” que vão ocupar-me por completo e deixar-me cansadíssimo e vão impedir-me de fazer o que prometi, deixando toda a gente pendurada e, eventualmente, com o prejuízo de alguém. Eu até posso não voltar a lá por os pés e não ver mais aquela gente (no fundo uns chatos fundamentalistas), mas por mal-educado é que eu não passo. Má educação teria sido dizer “não” quando solicitaram o meu contributo e isso, comigo, nunca.

 

Agora e para terminar, juntemos a mania coletiva de sermos ricos e este conceito distorcido de educação que nos impede de dizer “não”. Juntemos mais ingredientes. Temos Portugal versão 2012, encravado entre o virtual e o real.

 

Fernando Couto


Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 01:05  Comentar

Maputo | Moçambique

Pesquisar
 
Destaque

 

Porque às vezes é bom falar.

Equipa

Alexandra Vaz

Ana Martins

Cidália Carvalho

Ermelinda Macedo

Fernando Couto

Jorge Saraiva

José Azevedo

Landa Cortez

Leticia Silva

Rui Duarte

Sandra Pinto

Sandra Sousa

Sara Almeida

Sara Silva

Sónia Abrantes

Tayhta Visinho

Teresa Teixeira

Junho 2012
D
S
T
Q
Q
S
S

1
2

3
4
5
6
7
8
9

10
11
13
14
16

17
18
20
21
23

24
25
27
28
30


Arquivo
2017:

 J F M A M J J A S O N D


2016:

 J F M A M J J A S O N D


2015:

 J F M A M J J A S O N D


2014:

 J F M A M J J A S O N D


2013:

 J F M A M J J A S O N D


2012:

 J F M A M J J A S O N D


2011:

 J F M A M J J A S O N D


2010:

 J F M A M J J A S O N D


2009:

 J F M A M J J A S O N D


2008:

 J F M A M J J A S O N D


Comentários recentes
gostei muito do tema artigo inspirado com sabedori...
Não podia concordar mais. Muito grata pelo comentá...
Dinheiro compra uma cama, mas não o sono...Compra ...
Caro Eurico,O cenário descrito neste artigo enquad...
Grande artigo, que enquadra-se com a nossa realida...
Presenças
Outras ligações
Música

Dizer que sim à vida - Carlos do Carmo:

 

Dizer que sim à vida - Luanda Cozetti: