28.4.14

 

Vista do céu, Sofia parece um cartoon: cabeça gigante e corpo minúsculo. De pescoço esticado a lembrar uma tartaruga, o seu olhar dirige-se para o último andar do lote 3 do Rossio da Trindade. Aguarda o casaco de malha que a avó combinou, pelo intercomunicador da entrada, atirar-lhe pela varanda da cozinha. “ Está frio, o que é que andas a fazer na rua?”. Ainda falta um jogo para terminar a jornada do faz-de-conta do Teatro. Sofia é uma gata. Marta, uma princesa, claro está.

- Atenção ao Homem dos Cães! Depois andam aí as duas a fugir dos vadios! – Grita a avó, lá de cima do topo da sua autoridade e proteção.

O casaco angelicamente branco cai à paraquedas na terra batida do pátio de estacionamento defronte do lote. Previsível. Sofia é pequena, meio quilo de pernas secas e braços soltos. Salta para tentar apanhar o casaco, mas não lhe chega. A peça esvoaça, roça na capota do R5 vermelho do pai da vizinha Sónia, e aterra chegado aos verdes e grandes contentores do lixo. Uma ligeira camada de pó cinzento levanta-se no ar acabando por cair em cima do casaco, que muda ligeiramente de cor. Volta a espreitar para a varanda da casa. O corpo corpulento e moreno da avó já não as observa. Ufa, senão já ia ouvir.

O terraço onde brinca o grupo do condomínio tem tijoleira vermelha gasta e escorregadia. Muitas vezes por lá caíram. Sofia já contou umas dez quedas nas últimas seis semanas. Cai muito, a pequena. O pai costuma dizer-lhe que a filha não sabe caminhar – e realmente não sabe. Ninguém compreende a sua predisposição para as quedas. Marta ri-se. Ri-se sempre – e muito! – dos tropeções da irmã. A irmã mais velha de Sofia é daquelas crianças espertas que se riem sempre das senhoras que escorregam pelas ruas abaixo, com sacos de compras atrás, ou quando a gorducha Paulinha se entala com as bolas de Berlim no café do Sr. João. É uma cómica, a Marta. E hoje é a Princesa do Sabá, embora prefira uma Barbie vestida de rosa pálido. Uma romântica e uma coquete. Se fosse um filme, seria Sabrina.

- Tinhas de sujar o casaco, e o pior é que quem ouve da vovó sou eu, Sofia! Já não sei o que fazer contigo.

É muito leoa com a irmã mais nova, embora, por vezes, contrariada. Ainda assim, leva-a a passear, faz-lhe o lanche… Sempre com ar de mandona, mas Sofia não tem mais ninguém com quem se entreter: ou a irmã ou a avó. E acaba por furar as brincadeiras com os seus amigos, mais velhos, que a tratam como se ela fosse um bebé – que é um facto e que a impede de conseguir manter as conversas mais sérias.

- Sofia, hoje tu vais fingir que estás nos meus pés a aquecer-me pois és uma gatinha.

- Este teatro é uma seca. – Resmunga João.

- Mas tu és o príncipe! Não podes sair agora.

- Eu posso ser o príncipe. – Suspira Rute, que quer ser sempre alguma coisa.

- Mas tu és outra princesa e preferes ser o príncipe?

- Eu quero ser alguma coisa. Daqui a pouco são seis da tarde e aparece o Homem dos Cães e estamos a perder tempo.

- És uma medricas! – Ri-se em gargalhadas sem culpa, João, o único rapaz do grupo, multifacetado nas personagens que interpreta – é pau para toda a colher.

- Olha, olha! No outro dia até choraste quando ele olhou para ti!

- Isso não é verdade!

- Marta, posso ser uma princesa? – A voz de Sofia soa a pintainho acabado de sair do ovo.

- E quem é a minha gata?

Paulinha usa a batuta como a Princesa do Sabá: sempre.

- É claro que tens que ser a gata da Marta, Sofia! Tu és a mais pequenina e é a gata quem vai descobrir que o príncipe quer matar a princesa Rute.

- Esta brincadeira é mesmo chata.

- Ai é, João? Então vais fazer o quê? Jogar à bola? Não tens colegas de equipa, seu burro!

- Eu posso jogar à bola contigo, João.

- Não podes, não! – Três princesas: a do Sabá, a de Inglaterra e a da Noruega: Marta, Paulinha e Rute: as três estarolas que cantam “ As Três Irmãzinhas” vezes e vezes sem conta. Uma comunidade claramente matriarcal em que João e Sofia, os mais novos, não são mais que peças de um tabuleiro posto e disposto por elas. Já para não falar quando se junta Sónia, a Rainha- Má. Raramente se diverte com eles, demasiado espaçosa para as exigências das amigas.

- E se o príncipe fosse a Sónia? Podíamos ir chamá-la.

- Eu posso ir chamar a Sónia, Marta.

- Não vais nada, Sofia. Tu és uma gatinha linda. A minha gata. Só não te podes deitar na tijoleira senão sujas-te toda.

Sofia senta-se quase a medo no chão do terraço. Sabe, a partir desse exato momento, que já manchou os calções azuis: um figo no lugar errado à hora errada, esmagado no rabiosque da criança. Cala-se e pensa no que vai dizer à irmã e à avó por tamanha distração. Outra vez.

- Muito bem, vamos começar.

Ainda em longa distância, o ladrar rouco de um cão que faz lembrar o suspense que Sofia sente numa história que o avô conta vezes e vezes seguidas: “E lá longe, vinha um cavalo…”

- O Homem dos Cães!!! – Uníssono. As crianças têm ouvidos de tísicos. Sobretudo quando se fala em perigo. Tudo importa, desde uma folha que cai no parapeito da janela aos passos de um adulto. Quando se sente medo do que não controlam, preferem viver em alerta de detetive – que também são, os Inspetores do Rossio da Trindade.

- Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhhhhhh!!!!!!!

Correm, correm, correm. Pernas de x-ato, bocas abertas num gritante A, as suas casas ali tão perto, com leite quente e televisão ligada. E ainda assim, sempre na rua, arriscando-se a serem devorados pelos cães que fazem companhia ao vagabundo. “São muitos, vovó! Uns quinze!”. Cinco, mais propriamente. Marta, exagerada, tem medo de tudo, sobretudo do Homem e de trovões. “Parecem tiros!”. Sofia receia aquilo que os outros receiam, e a avó, que se vai zangar pela mancha avermelhada nos calções azuis. Agradece o facto do pânico que distrai a irmã mais velha pois assim não ouve ralhete a dobrar. É uma sombra, porém brilhante e mexida, como a de uma andorinha.

De frente para a porta azul celeste do apartamento, Marta recomenda:

- Temos de entrar com calma para os avós nem perceberem o nosso medo. Está na hora de sermos umas senhoras.

Umas senhoras, diz ela. O que ela quis sempre ser: faz croissants no formo da mãe, veste a sua roupa e pinta os lábios Vermelho Anos 80. E adotou Sofia, primeiro a custo, depois a gosto. Abandonando o sonho de bailarina, abraçou o que tinha como pôde. É a fada da família, com caprichos que lhe caiem como purpurina e com aromas de frutos silvestres.

A avó abre a porta e de nada vale a Sofia ter uma irmã que transforma tudo em ouro: os seus calções têm cor de fruta podre.

- Ai Sofia, o que fizeste aos calções!

 

Sofia Cruz

 

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