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O Agora é um viveiro de sentimentos e emoções. Criam-se e reproduzem-se saudades, nostalgias e outros estados de alma sobre o passado, alimentam-se ânsias e desejos do futuro. O aqui e agora é inutilmente esquecido, para nos fixarmos no que já passou e no que ainda há de vir.

Ainda há pouco, o indispensável passeio matinal de domingo pela alameda de árvores floridas, com pombos de penas aprumadas e arrulhar rejuvenescido, manifestações claras de que estão prontos para perpetuar a espécie, espevitou-me para o dia. O sol, pouco quente mas brilhante, tem sempre o efeito de me resgatar ao bafio do soturno inverno. Só agora, passado que é, consciencializei-me de que foi um momento muito agradável e que merecia ter sido apreciado com mais entrega.

Agora, frente ao computador, vejo deslizar palavras e imagens que não prendem a minha atenção, engolida que é pelas memórias do passado. As memórias tomam conta do momento e dominam-no.

Num dia de sol, noutro tempo e noutro lugar, no meio de dor e alegria, perpetuei a minha existência com o nascimento do meu filho. Foi há alguns anos, mas ainda consigo sentir, agora, o mesmo que senti na altura. A vida que teimava em sair e provocava movimentos visíveis no meu ventre, o desejo de ver e tocar, o vazio do meu corpo abandonado, o cansaço, os odores, tudo isto, sendo passado, fará sempre parte do meu presente. Não quero, por nenhuma razão, afastar estas emoções de tão valiosas que são. Mas se nesse momento ganhei da vida e para a vida mais um Ser, noutros perdi. Perdi pessoas de quem nunca quis separar-me. Chorei-as até me conformar com a perda. Inconformei-me com enganos e injustiças. Sofri abandonos e abandonei. E, de cada vez que a minha tranquilidade era interrompida, perguntava-me: E agora!? O imperativo da pergunta exigia uma resposta urgente. E tantas vezes o esforço, para conseguir uma resposta que me desencalhasse e me recolocasse no presente, era tão doloroso como a causa.

Decidi, não sei quando, relativizar o passado, viver para o agora.

E agora!?

Agora, termino como comecei, o agora é um viveiro de sentimentos e emoções. Sobre o passado esboço um sorriso ingénuo e conciliador, sobre o futuro, ali mesmo à minha frente, deixo-o desenrolar-se devagarinho, sem ânsias demasiadas, porque agora é tempo de viver o momento.

 

Cidália Carvalho

 

Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 08:00  Comentar

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