25.2.14

Philomena; Stephen Frears (2013)

 

Faz hoje 50 anos!

Filomena, a mulher que o afirma, tem nas mãos uma fotografia. Olha-a com tristeza e depois de lhe tocar como se a acariciasse, guarda-a novamente na gaveta onde tem estado desde há 46 anos. O gesto não passou despercebido à filha que quer saber quem é a criança da fotografia.

Para alguns, talvez muitos, este será apenas o começo do filme “Filomena”, um bom filme onde a protagonista é candidata ao Óscar de melhor atriz. Para mim, este é o começo de uma viagem num mundo de sentimentos e valores. Valores que, como referia a protagonista na sua simplicidade, são humanos porque dizem respeito à história das pessoas. Humanamente falando, os valores deveriam ser Universais, servirem a todos de igual modo. Alguns até talvez sejam, e até estejam decretados como tal - o direito à vida é um exemplo - mas também é certo que, pela mesma razão, a de estarmos a falar de pessoas, os princípios de conduta variam e têm valores diferentes para cada um. Mas essas diferenças não devem ser entraves nem barreiras à nossa vida nem à vida em comunidade. A dificuldade reside exatamente aí, na aceitação dos princípios e valores do Outro, com total respeito por eles. É aqui que a protagonista do filme se mostra verdadeiramente humana e de uma tolerância acima do comum.

Filomena nasceu numa sociedade tradicional com princípios e valores muito rígidos. Com catorze anos engravidou e a família meteu-a numa instituição de caridade onde ela pôde ter o filho sem os envergonhar. Apesar de doloroso, aceita este processo como uma inevitabilidade. A reputação da família é um valor a observar e a respeitar.

A estadia não era gratuita, pagava-a com trabalho nem sempre ajustado à sua condição física de menina. O filho vivia na mesma instituição mas só lhe era permitido estar com ele 1 hora por dia. Apesar do tempo limitado e de não poder ser a sua principal cuidadora, o instinto maternal manifestava-se no carinho e no gozo do seu papel de mãe. Ansiosa, corria para ele galgando dois a dois os degraus das enormes escadarias do edifício, metendo por corredores à direita e à esquerda, rápido, cada vez mais rápido, para não perder nem um minuto mais do tempo que lhe era permitido. Finalmente juntos, brincavam e trocavam carícias. O menino, na sua tenra idade, reconhecia a mãe e a relação entre eles assentava em laços afetivos como só existem entre mãe e filho. E assim, sem pedir mais, Filomena vivia o seu dia-a-dia.

O carro com gente rica e de aparência fina estacionou no pátio como uma ameaça à normalidade do dia-a-dia de Filomena. Da janela no fundo do enorme corredor, assiste impotente à partida do filho. Amputada para sempre, soube que não voltaria a abraçá-lo. Venderam o seu menino! Decidiram sobre a vida deles sem a sua autorização, sem a informarem, sem permissão para despedidas incómodas.

A filha que a surpreende agarrada à fotografia interessa-se pela história da mãe e resolve ajudá-la a encontrar o filho que a memória e o coração se recusam a ignorar.

Depois de muitas diligências, onde não puderam contar com a instituição onde estivera, tendo-lhe mesmo sonegado informação, conseguiram uma pista. O filho tinha sido vendido para adoção a um casal americano. Persegue esta informação até encontrá-lo. E, quando finalmente está tão próxima que se deixa dominar pela ansiedade e pela curiosidade sobre o modo de vida dele e o seu aspeto, descobre que o filho tinha sido um bem-sucedido assessor do Presidente mas tinha morrido uns anos antes.

Chora-o pela segunda vez. Fica arrasada mas não vencida. De novo sente que a sua luta de aproximação ao filho ainda não terminou, quer saber que valores ele reteve da sua curta vivência com ela, que memórias registava dela e do seu país de origem, que valor dava ele a essas memórias. Atormentada pela ideia de ter passado sem deixar marca na vida do filho, resolve encetar novas diligências junto das pessoas que com ele conviveram. Descobre então que também ele a procurou sem sucesso porque a instituição, tal como a ela, também lhe escondeu informação, não permitindo o contacto entre os dois. Quando a doença o atormentou e o desfecho deu como certo a morte, exigiu ser enterrado no cemitério da instituição. Acreditou que também ele a amou e a guardou na sua memória. Libertou-se da dor de não ter existido para o filho.

A responsável da instituição defendeu-se com códigos de honra e fé. O valor do juramento de há uns anos atrás em que não revelaria nunca a quem vendiam as crianças era sagrado, já o sofrimento de Filomena, esse era justo, servia para expiação do pecado por se ter entregue aos prazeres da carne.

Quando informada sobre o direito de agir judicialmente sobre a instituição, a resposta de Filomena foi surpreendente, aos valores da fé e da honra ela respondeu com outro valor, o do perdão.

 

Cidália Carvalho

 

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