4.12.15

OldChildSwing-GeorgeHodan.jpg

Foto: Old Child Swing – George Hodan

 

Entre a baforada de ar quente que lhe saia da boca e o cheiro de lenha queimada que a chaminé exalava, Helena relembrava aquele momento 25 anos antes. Era apenas uma miúda de 12 anos. Estava em casa da avó num domingo de habitual convívio entre família e amigos, repleto de conversas cruzadas e gargalhadas e esgueirara-se para o quintal, onde deveria esperar por Jaime. Era o grande momento e Helena sentia-se a tremer. Jaime era seu namorado há 3 meses e, por timidez e falta de experiência, o primeiro beijo ainda não tinha acontecido, apenas uns beijinhos inocentes nos lábios e nada mais. Planearam esse emocionante acontecimento na semana anterior e a ideia era simples: depois do anoitecer e no meio da domingueira algazarra, Helena deveria esgueirar-se para o quintal, para junto do baloiço suspenso no cedro – foi aí que tudo começara – e Jaime segui-la-ia passados alguns minutos, não seria complicado porque a casa da avó estava sempre cheia de gente e ninguém daria pela falta dos dois.

O cheirinho a lenha queimada que saía da chaminé, junto com o aroma do cedro, combinavam na perfeição com aquela tarde gélida de quase inverno, que vidrava o olhar e tornava o rosto dormente. Helena sentiu naquele momento que, afinal, é possível o coração sair pela boca, de tal forma o seu coração ansioso lhe palpitava quase na garganta. Há anos que conhecia Jaime, mas só meses antes é que ambos perceberam que gostavam um do outro mais do que como simples amigos. E agora que se aproximava o momento que acalentava há mais tempo do que alguma vez reconheceria, estava nervosa e receosa, com o pensamento a rodopiar num turbilhão de curiosidades e expetativas. O Jaime finalmente ia beijá-la… O seu Jaime, de nariz arrebitado e pintalgado de sardas, com uma palinha de gel no seu cabelo dourado, e irresistível ar de malandro.

 

Mas, quem chegou ao pé do cedro antes do Jaime, junto do baloiço onde durante anos brincara com Jaime, foi o seu tio Vítor, marido da tia Gui, uma das grandes confidentes de Helena, que era ainda muito jovem e, por esse motivo, uma verdadeira companheira para Helena. Era habitual o tio Vítor desaparecer por entre os campos e aparecer do nada, por isso não lhe fez confusão encontrá-lo ali, simplesmente queria que ele fosse embora. Mas o tio estava estranho, com um olhar vidrado e com uma conversa nada habitual, não era bem conversa, o que fez com que Helena, naquele momento, desistisse de esperar Jaime e começasse a rodar os calcanhares para regressar a casa; mas não teve tempo de dar um passo. O tio puxou-a para si, segurou-lhe os braços, cercou-a e enfiou-lhe literalmente a língua na boca. Helena sentiu-se morrer naquele momento em que um estranho corpo quente e escorregadio lhe entrava na boca, com um bafo levemente alcoólico, fugiu aflita enquanto ao longe ouvia o tio a chamá-la e a rir-se, como se tivesse pregado uma partida. Bandalho.

 

Ao entrar em casa chocou com Jaime que tinha, finalmente, conseguido ver-se livre para ir ter com ela e que ficou atónito quando a viu entrar, completamente transtornada. Nem se atreveu a segui-la. Talvez Helena se tivesse arrependido.

Helena foi para a pequena sala de estar completamente arrasada de medo: medo de ter feito ou dito alguma coisa que levasse o tio a ter aquele comportamento, medo de contar a alguém, pois podiam não acreditar nela, ou pior, culpá-la pelo sucedido, medo de semear discórdia entre os familiares, medo de desiludir a tia, medo de estar próxima de alguém e, sobretudo, medo que aquela cena hedionda se repetisse. Reviu mentalmente, vezes sem conta, a conversa com o tio, para tentar perceber se foi alguma coisa que disse que originou aquela situação. Durante dias, Helena teve pesadelos com essa imagem tão fugaz quanto esmagadora e por uns tempos teve de ignorar os olhares nojentos e fugir aos avanços do tio. Ao mesmo tempo, nunca mais se aproximou de Jaime e, gradualmente, deixou de frequentar a casa da avó aos domingos.

 

Passados 25 anos, ainda conseguia sentir o sabor daquela língua, quente e viscosa a invadir-lhe a boca, sentia o cheiro do seu after shave rasca e não conseguia evitar um esgar de nojo e dor ao recordar aquele medo petrificante. Não que se lembrasse disso todos os dias, mas de vez em quando essa memória insistia em voltar e a sensação de repugnância era a mesma.

 

Helena não foi violada sexualmente, não foi agredida, mas foi atacada na sua mais profunda inocência e, inevitavelmente, algo se quebrou dentro dela a partir daquele dia. Durante anos não conseguiu relacionar-se com o seu próprio corpo, sentindo uma certa aversão por si mesma e cultivou a ideia de não ser digna de nada, posicionando-se sempre na cauda de todos os cometas. Não lhe foi fácil perceber a origem da sua insegurança, nunca tinha tido coragem para confidenciar esta cena a ninguém, era estranha demais, horrível demais, nojenta demais e ainda sentia na pele o medo avassalador de poder ter sido a culpada. Mas passados anos e alguns relacionamentos falhados, chegara a um ponto em que tivera de procurar ajuda para fazer uma profunda reflexão sobre toda a sua vida, a sua insegurança, a sua teimosia em achar-se pouco válida e a sua necessidade de depender sempre de outrem para gostar de si própria. Chegara a hora de avançar com o seu crescimento pessoal, de se cuidar e de deixar de sentir medo de apontar.

 

Durante anos fizera, inconscientemente, o luto do beijo do Jaime, que não pode receber e estava ali para enterrá-lo de vez. Abeirou-se do cedro, já sem baloiço, e agradeceu-lhe em silêncio por todos os momentos bonitos que viveu em seu redor, repletos de amor e ternura, e finalmente murmurou: “Obrigada por teres esperado por mim o tempo suficiente para eu te vir cá dizer que chegou a altura de voltar a ser a Leninha feliz, segura e descontraída que sempre conheceste. Não assististe ao meu primeiro beijo, mas prometo que vais assistir ao próximo.”.

 

Ana Martins

 

Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 08:00  Comentar

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