26.5.14

 

A dez mil metros de altitude, acompanhado pela família, viajo para o funeral do meu cunhado. O espaço exterior parece vazio, sem sentido, e um turbilhão de pensamentos torna-me inquieto e confuso. Desvio o olhar mas não sossego. A posição alinhada e rígida dos passageiros naquele espaço limitado é estranha. Para onde vamos todos?

Nariz adunco, cabelo revolto, queixo saliente, sobrancelhas pronunciadas e um pequeno mocho na lapela. Procuro uma falha, uma pequena falha que me diga que não é verdade e observo-lhe as mãos. São os dedos dele e é mesmo verdade, não é?

A igreja da Lomba da Maia é pequena para acolher tanta gente e a religiosidade açoriana faz-se sentir de forma lenta e pesada. Os choros misturam-se com as orações, os abraços e os beijos, as flores e o incenso, por toda a tarde e pela noite fora. São cinco horas da manhã e eu receio pela saúde da minha querida sogra que ainda não parou de chorar e se recusa a abandonar a igreja. São dez horas. Os meus receios aumentam e tornam-se obsessivos. Sete padres oficiam a missa e a música e o coro que nos acompanham, a todos acalma por momentos. Alunos citam Pessoa e declamam poemas escritos para o momento. Começam os preparativos para fechar a urna, voltam os choros, mas a minha atenção concentra-se naquela velhinha frágil que está ao meu lado, quase a desfalecer, e eu sinto-me finalmente capaz de seguir uma linha de pensamento coerente. Volto a encontrar-me neste desencontro entre a vida e a morte. Somos fogos-fátuos iluminando e recebendo luz intermitente. Sem ela não existiríamos e, por cada luz próxima que se apaga, morremos um pouco de escuridão e falta de propósito para a nossa própria luz.

A urna desceu à terra ao som da “Pedra filosofal” e sinto que, apesar das lágrimas, o meu luto vai começar. Se bem o conheço, consigo antever por onde se espalharão as suas moléculas. Azáleas e hortênsias, golfinhos e cachalotes, plantas do chá e criptomérias, e mochos, muitos mochos, serão os felizes contemplados. E pela primeira vez voarão açores sobre as nove ilhas dos teus queridos Açores.

 

José Quelhas Lima

 

Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 09:00  Comentar

Maputo | Moçambique

Pesquisar
 
Destaque

 

Porque às vezes é bom falar.

Equipa

Alexandra Vaz

Ana Martins

Cidália Carvalho

Ermelinda Macedo

Estefânia Sousa Martins

Fernando Couto

Fernando Lima

Jorge Saraiva

José Azevedo

Landa Cortez

Leticia Silva

Rui Duarte

Sandra Pinto

Sandra Sousa

Sara Almeida

Sara Silva

Sónia Abrantes

Tayhta Visinho

Teresa Teixeira

Vanessa Santana

Maio 2014
D
S
T
Q
Q
S
S

1
2
3

4
5
6
7
8
9
10

11
13
15
17

18
20
22
24

25
27
29
31


Arquivo
2017:

 J F M A M J J A S O N D


2016:

 J F M A M J J A S O N D


2015:

 J F M A M J J A S O N D


2014:

 J F M A M J J A S O N D


2013:

 J F M A M J J A S O N D


2012:

 J F M A M J J A S O N D


2011:

 J F M A M J J A S O N D


2010:

 J F M A M J J A S O N D


2009:

 J F M A M J J A S O N D


2008:

 J F M A M J J A S O N D


Comentários recentes
gostei muito do tema artigo inspirado com sabedori...
Não podia concordar mais. Muito grata pelo comentá...
Dinheiro compra uma cama, mas não o sono...Compra ...
Caro Eurico,O cenário descrito neste artigo enquad...
Grande artigo, que enquadra-se com a nossa realida...
Presenças
Outras ligações
Música

Dizer que sim à vida - Carlos do Carmo:

 

Dizer que sim à vida - Luanda Cozetti: