21.11.14

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Caminham apressadas com destinos que desconheço. Não sei quem são nem para onde vão e o que as motiva ou derruba, mas hoje interesso-me por elas e quero conhece-las. Hoje, sinto saudade das pessoas, gosto delas e quero deixar-me afetar, que é o mesmo que dizer, criar afetos. Misturo-me com a multidão, preciso de proximidade física com o mundo. Não sabem que as observo do alto das minhas janelas, estas janelas que me apresentam o mundo e me ligam a ele, os meus olhos. Pensando-se anónimas, deixam cair as defesas e o resguardo de que se revestem para parecerem ser o que o mundo quer que elas sejam. E assim, autenticas e vulneráveis, dispo-lhes a alma e conheço-lhes as suas fraquezas e fragilidades. E como são frágeis todas elas! Tanto, que me enchem de ternura.

Para onde se dirigem com tanta pressa? Aparecem lá ao fundo, no início da rua, caminham para mim mas olham para o lado, alguma coisa lhes chamou a atenção, talvez a montra com as novidades da estação. Um olhar em frente na minha direção, parece que vão dirigir-me a palavra, mas não, passam sem ver-me, não se interessam por mim. De resto, não parecem interessar-se por ninguém, nem mesmo pelo mendigo que mostra as mazelas e estende a mão a pedir esmola. Desaparecem no fim da rua. Deixaram de pertencer ao meu universo visual sem me afetarem.

Outras se aproximam. Vêm num passo lento e livre, tão livre que a rua lhes pertence, ocupam-na de um lado ao outro. Falam alto e riem, parecem divertidas. Quero a atenção delas, fazer parte desse grupo que irradia alegria. Vão avançando sem reparar em mim, barro-lhes o caminho, procuro um frente-a-frente com o olhar, mas elas contornam-me com a mesma indiferença com que contornam os bancos ao longo do passeio.

Muito perto, na esplanada povoada de gente descontraída, dois homens de meia idade dão-se ares de intelectuais. Com gestos largos expõem os seus pontos de vistas, ou talvez não, e os pontos de vista sejam de algum ilustre. Impressionam-se declamando um poema ou citando frases feitas tão sabiamente construídas e tão assertivas que nos identificamos de imediato naquele resumo inteligente de palavras. O diálogo absorve-os, não reparam que os observo e mesmo que reparassem não me aceitariam a menos que vissem em mim uma oportunidade de brilharem e fazerem mais uma admiradora. Tanto saber e cultura assustam-me e afasto-me.

Caminho pela rua e cruzo-me com um casal que discute. Pronuncio palavras apaziguadoras mas estão demasiado zangados para que possam ouvir-me.

Na montra dos eletrodomésticos um ecrã gigante mostra dois homens, um de pé, vestido de negro, cara tapada. Fala para a câmara ao mesmo tempo que encosta uma navalha no pescoço de outro, que, ajoelhado, mantém a dignidade possível de quem sabe que vai morrer em segundos. Não quero ficar ali, agonia-me tamanha crueldade.

Sentado nos degraus de uma casa, um jovem esconde a cara entre as mãos. Aproximo-me e vejo-lhe lágrimas que correm por um rosto triste. Ofereço ajuda. Espantado responde que não há nada que eu possa fazer para o ajudar e de imediato se levanta e parte. Sento-me no lugar que deixou vago e olho em volta, ninguém me vê ou quer ver, o que é a mesma coisa em sentido prático.

Fecho as janelas, as minhas janelas, desligo-me do mundo e regresso a casa com saudade das pessoas.

 

Cidália Carvalho

 

 

Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 10:00  Comentar

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