7.11.16

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Foto: Brothers – Adina Voicu

 

A herança pode ser uma coisa fantástica, se falarmos daquelas comédias em que alguém fica milionário com uns milhões vindos de um tio-avô esquecido, ou de um primo em sabe-se lá que grau. Mas isto é o lado superficial ou fútil da questão, aquele que não é importante nem determinante para as nossas vidas.

A verdadeira herança é outra coisa, é quem somos e como somos e a compreensão que temos do mundo por causa daqueles que nos criaram e daqueles que passaram pelas nossas vidas.

Nem sempre são coisas boas, porque os outros são como nós, ou seja, não são perfeitos. Para complicar, a herança não é só feita de palavras e gestos. É muito mais o resultado do que observamos enquanto crescemos, a soma inexata dos exemplos que nos foram oferecidos enquanto crescemos e nos moldamos.

Interessa mais o que nos dizem ou o que fazem e o que nos fazem? Tem mais impacto o que vemos ou o que ouvimos? Há situações com um impacto tão profundo nas nossas vidas que nunca mais dele nos livramos.

Um filho que é fisicamente maltratado ou verbalmente abusado, como se torna numa pessoa meiga e gentil? Uma filha com uma mãe ansiosa aprende onde a ser calma e tranquila? O que nos ensinam pais, avós, tios, mentores e outros que tal, para nos preparar para a vida, a nossa vida? Não a que imaginaram ou esperaram para nós mas aquela que vivemos porque somos únicos e temos sonhos próprios, esperanças diferentes, aquela que nos faz bater de cara na parede muitas vezes, porque tem que ser e na realidade só aos trambolhões aprendemos qual o caminho que desejamos.

Herdamos manias, tiques, agimos muitas vezes de formas que nos tolhem, porque não podemos desiludir quem nos ajudou a crescer. Dizer não, ou apenas nada dizer, a quem nos fez nascer, nos mudou fraldas e deu a primeira papa, é muito duro. Sentimo-nos a falhar às suas expetativas e a ser mal-agradecidos. E quando a vida é madrasta e nem a infância foi simpática e amena, ainda assim estamos sempre em busca dessa aprovação. Como se sem ela não fossemos nada e nenhum dos nossos passos tivesse valor. Como eternas crianças, bem lá no fundo.

 

Aquilo que mais tenho procurado é ser eu mesma e viver a minha vida como desejo; é um caminho arriscado porque estamos mais expostos a críticas. E quando falhamos? Como dizia a minha avó, Deus nos livre e guarde. A dado momento pivotal da nossa passagem pelo planeta, temos mesmo que decidir se conseguimos, ou não, ser a ovelha negra da singularidade familiar.

Não tenho como negar que muitas recordações aconchegantes se estendem pela minha infância e adolescência; e depois há outras mais complexas e que, falando claramente, dispensava. Mas tudo isso é a minha herança e a partir dela já me construí e reconstruí inúmeras vezes. Não só com sucessos, nem sempre com sorte, mas com uma profunda convicção.

A nossa herança é tudo o que nos deram, mais do que tudo o que nós damos aos outros. Os que nos amam devem compreender isso. Os pais devem saber quando passar de redoma para malha de segurança; devem saber quando nos largar ou quando nos apanhar. Os irmãos devem saber quando passar a amigos em vez de rivais. O resto da malta deve saber quando nos deixar voar e respeitar a nossa essência.

Não é nada fácil, eu sei. Mas o Amor genuíno é assim.

Amor sem aceitação, não é amor. Mesmo quando parece.

 

Laura Palmer

 

Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 09:30  Comentar

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