9.3.16

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- Indecisa, inflexível, incompreendida, inconstante, incompreensível, impulsiva, indeterminada. Eu não sei bem… Uma imensidão de “in”. Que se acabem os “in”.

 

Paro de escrever. Leio o que escrevi. O que leio não é bem o que escrevi, ou o que queria escrever. Eu sou tu? Tu és eu?

 

- “Uma pessoa nunca é só uma pessoa mas a tal pequena multidão mais ou menos desarrumada”.

 

Eu: o meu próprio mundo onde ninguém entra.

 

- Cada um, uma espécie de mundo: eu não vejo o que os teus olhos veem, ignoro o que sabes, não sofro a tua dor, não sou a tua pele.

- A nossa pele confundiu-se alguma vez? Chego a ti de que forma? Construo pontes, passagens secretas, caminhos subterrâneos? É assim que ligo o meu mundo ao mundo dos outros? Ao teu mundo? Sei eu relacionar-me com os outros? Acho que vivo num mundo só meu. Intransponível. Acabaram-se os “in”. Sou feita de “in”.

 

Contigo, o ritmo abrandava, desacelerava. A leveza era o bem mais precioso.

 

- Era eu um ser leve como uma pena?

 

Percebi que o teu mundo era tão inóspito quanto o meu. Também tu não sabias as respostas, tão pouco sabias fazer as perguntas.

 

- Ficamos a meio do caminho? Conhecemo-nos, soubemos quem era o outro?

- Só conheceste o meu “eu” virtual, não o “eu” real. Quem é o “eu” real? Não sabes, pois não?

- Não.

- Nem eu! O eu atrás de um ecrã é aquele mais fácil de conhecer, de se dar a conhecer.

- Sim, ficamos a meio do caminho.

 

Onde é que ficaram os gestos, as expressões, o tom da tua e da minha voz?

 

- Pelo caminho. Não somos a solução um do outro.

 

Não sei se foste tu que me viste a mim ou se fui eu que te vi a ti.

 

- Sou pouco e pouco sei. Não penso muito ou penso demasiado. Dá-me respostas.

- Não consigo. Andámos os dois à deriva.

- És tu quem eu esperava que me dissesse quem eu era, na diversidade de todas as outras que me escondem: o ser mais leve.

- Não somos a solução um do outro.

 

As relações entre as pessoas são labirintos: fáceis de entrar, difíceis de sair.

 

- Entramos num jogo. Quisemos jogá-lo: dois jogadores natos.

- O jogo da descoberta de quem eu sou, de quem tu és?

- Um jogo perigoso. Sempre perigoso. Caso contrário, não valeria a pena. Caso contrário, não teríamos lançado jogada após jogada.

- As meias palavras.

- Um jogo onde não podes voltar atrás. Recomeças pelo começo.

- Vezes sem conta. Demasiadas vezes. Até não poder mais recomeçar.

- Um jogo que não dominamos, cujas regras não conhecemos. Jogos sem saída. Jogos por acabar.

- O nosso já acabou? Quando nos encontramos para nos conhecermos?

 

Escrevi. Li o que escrevi. O que li não é o que escrevi ou o que queria escrever. Continuo sem saber as respostas. Fiz eu bem as perguntas?

 

Sandra Sousa

 

Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 09:30  Comentar

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