31.1.14

 

O rapaz nasceu, numa noite fria de Janeiro e, nesse mágico instante, a sua mãe decidiu não o amar. Presa num casamento sem sentido, mãe de uma rapariga com 3 anos (demasiado parecida consigo, pensava amiúde), percebeu, quando lhe pousaram o filho no ventre, que ser mãe não lhe trazia definitivamente nada de bom. Deixava-lhe na boca um sabor metálico e irado. O rapaz nasceu e deu à sua mãe todas as respostas de que ela precisava. Ela abraçou aquele pequeno ser, desde o primeiro instante, sem o menor apego. Quem os visse à saída da maternidade, acharia a cena tão enternecedora: o menino ao colo da sua mãe, numa demonstração tão clara de amor. Não era amor. Era a falta de um carrinho de bebé, demasiado caro para adquirir, que a levava a carregar a criança em braços. Viver com a sogra era algo que odiava mas encontra-la nesse dia, ao chegar a casa da maternidade, soube-lhe a pato. Descartou-se do embrulho assim que pode, avisou a sogra que não tencionava amamentar e que estava demasiado cansada para o ouvir chorar. Recolheu ao quarto, absolutamente aliviada e certa de que fugiria, assim que tivesse uma oportunidade. Pela primeira vez, o rapaz foi abraçado por dois braços que verdadeiramente o amaram. A avó tornou-se a mãe presente diariamente, para ele, para a sua irmã e para o pai; completamente afogado em álcool, morto por dentro, desde que a sua mulher o havia finalmente deixado e partido com o primeiro jagunço que lhe jurou não querer ter filhos. Deixou o marido, os filhos, a aliança no lavatório, a vida ridícula de todos os dias. Partiu e nunca se arrependeu. Apesar de todos os pesares, a vida que ela deixou para trás, continuou a avançar, entre destroços e dúvidas, entre sonhos e esperança. Na escola, a rapariga é serena, apaziguadora, longe de demonstrar o abandono de que se sente vítima. O rapaz é inquieto, “faz muitas asneiras”, “está sempre aos gritos” (não está, na realidade. Mas tem um timbre de voz que se ouve do alto de um farol). A mãe aparece de vez em quando, em intervalos pouco frequentes, apenas para destruir as poucas defesas adquiridas até então. Recomeçam, abaixo de zero, cada vez que ela volta a partir. A avó lá está então para abraçar, para beijar e curar as feridas do coração daqueles dois meninos que são a sua vida. Estarem dentro dos braços dela, cuida todas as maleitas. Um dia, a cuidadora precisou de cuidados. Ficou gravemente doente. Entre internamentos, cirurgias, voltar a casa, cuidar da família, esta senhora recusou-se a morrer. Gritou com a morte, chamou-lhe cabra, e injuriou-a pelo egoísmo de a querer levar já, antes de ver os netos criados. Fintou-a durantes dois muito penosos anos mas a morte e a doença, verdadeiramente democráticas, não atendem a histórias por terminar, à necessidade humana de permanecer, a gritos sentidos da alma. A nada. Num domingo de manhã, a avó morre em casa, na sua cama. As crianças veem-na sair, “desmaiada”, para o hospital. Após a morte, são deixadas fora do luto, fora da verdade, para as “pouparem”… faz-se o funeral, mudam-se os móveis em casa. “A avó está no hospital. Não sei quando volta.” Uma semana, duas semanas, o Natal e as festas, outra semana, outra semana, gente que entra, gente que sai e o desmaio da avó parece não ter fim… As crianças gostavam de ver a mãe, não entendem a confusão da casa, as mudanças. Onde vai dormir a avó quando regressar, se o quarto dela agora é uma sala? É Natal. A avó nunca mais chega do hospital… A mãe liga. A outra avó, diz, não os quer lá em casa, a culpa não é dela… eles são “muito irrequietos e a avó precisa de sossego”. A mãe, que está lá a viver neste momento, “adorava vê-los mas não pode”. Só quando tiver uma casa sua. Mas gosta muito deles. Eles sabem, diz ela. Não, não sabem, pensam eles. Um dia, o rapaz chega à escola e diz “a minha avó foi para o céu, já não volta.” Que bom, pensam os adultos. O pai, os tios, as tias, alguém, teve finalmente coragem de lhes contar. Agora sim, podem começar a fazer o seu luto, a deixar de esperar que a senhora volte. Como se adivinhasse esses pensamentos, o rapaz diz que foi a irmã que lhe contou. Que nem sabe se os grandes sabem, porque ninguém fala disso, mas a irmã disse-lhe que o coração da avó tinha parado de bater. Disse-lhe que ela estaria sempre com eles e que, se pusessem a mão sobre o coração quando pensassem nela, a avó estaria com eles nesse momento, abraçando-os e protegendo-os. Uma criança fez isto. Mas nenhuma criança deveria saber isto tão precocemente, substituindo adultos em funções das quais não deveriam jamais poder desvincular-se. Estes miúdos, que foram dois intervalos inconvenientes na vida da mãe, são amados pelo pai mas esse amor não os protege, porque não se protege a si próprio. Vive de hiatos de angústia, de cuidados que não estão presentes. Vive de distância e de muita dor, vivida para dentro. E dentro, implode. Com a mesma força com que mutila.

Ontem o rapaz chegou à escola com um enorme sorriso. Trazia a cabeça levantada, como se erguida por uma força superior, e uma enorme vontade de ter um dia feliz. Pela primeira vez, fez um desenho de que se orgulhou. Entusiasmado, fez outro e mais outro. O último desenho do dia, que quis oferecer, contava uma história sobre um rapaz com poderes mágicos, que podia acabar com as lágrimas de todos os que estavam tristes. Porque ele era tão especial, todos gostavam dele e o mundo inteiro o conhecia. Nesta história, ele era o herói e vencia sempre, sempre, os maus. Se ele acabava com as lágrimas, perguntei eu, como fazia quando ele próprio estava triste? O herói nunca chorava? Ele disse-me que sim, que o herói também chorava, que ficava triste, mas que sabia que, no fim, tudo ia ficar bem. Por isso, nunca deixava de acreditar. Dentro de mim, desejei com muita força, que ele fosse realmente um protagonista da sua história, que se sentisse merecedor de muito mais que intervalos egoístas e castradores. Que acreditasse. Olhei para ele, abraçamo-nos e agradeci, com um profundo carinho, aquele presente tão especial que ele me havia dado. Disse-lhe que nunca um menino com poderes especiais me tinha dado um desenho igual àquele. Na verdade, nunca tive dois iguais…

 

Alexandra Vaz

 

Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 10:00  Comentar

Maputo | Moçambique

Pesquisar
 
Destaque

 

Porque às vezes é bom falar.

Equipa

Alexandra Vaz

Ana Martins

Cidália Carvalho

Ermelinda Macedo

Fernando Couto

Jorge Saraiva

José Azevedo

Landa Cortez

Leticia Silva

Rui Duarte

Sandra Pinto

Sandra Sousa

Sara Almeida

Sara Silva

Sónia Abrantes

Tayhta Visinho

Teresa Teixeira

Janeiro 2014
D
S
T
Q
Q
S
S

1
2
3
4

5
6
7
8
9
11

13
15
16
18

20
22
23
25

27
29
30


Arquivo
2017:

 J F M A M J J A S O N D


2016:

 J F M A M J J A S O N D


2015:

 J F M A M J J A S O N D


2014:

 J F M A M J J A S O N D


2013:

 J F M A M J J A S O N D


2012:

 J F M A M J J A S O N D


2011:

 J F M A M J J A S O N D


2010:

 J F M A M J J A S O N D


2009:

 J F M A M J J A S O N D


2008:

 J F M A M J J A S O N D


Comentários recentes
gostei muito do tema artigo inspirado com sabedori...
Não podia concordar mais. Muito grata pelo comentá...
Dinheiro compra uma cama, mas não o sono...Compra ...
Caro Eurico,O cenário descrito neste artigo enquad...
Grande artigo, que enquadra-se com a nossa realida...
Presenças
Outras ligações
Música

Dizer que sim à vida - Carlos do Carmo:

 

Dizer que sim à vida - Luanda Cozetti: