25.3.15

EmigrantesAnos60.jpg

 

Faço parte da escandalosa percentagem de licenciados que não está a trabalhar na área em que se formou, mas na que encontrou. Tudo começa assim, não é aquilo que queremos, não foi para isso que estudámos, mas foi o que se arranjou, que a vida não para e, para cumprir alguns objetivos é necessário abdicar de outros, ainda que pensemos que seja temporariamente. Mas efetivamente a vida não para e passa… Infelizmente, no país em que vivemos, com a conjuntura atual, não há espaço para muito mais. Ponto.

Com efeito, abdicamos do sonho de exercer a nossa profissão, para sermos profissionais noutra área completamente diferente. Li um dia que a virtude não está em fazermos aquilo de que gostamos, mas sim gostarmos daquilo que fazemos. Ora eu não desgosto daquilo que faço, ao contrário, até considero algumas tarefas bastante interessantes e enriquecedoras. O que me aborrece e frustra é o facto de saber que sei fazer mais e melhor, não ali, mas naquilo que eu escolhi. O que me deixa furiosa é ser suscetível de levar com atestados de incompetência de miúdos de Bolonha acabadinhos de sair do forno. Mas a culpa não morre solteira e reconheço que esta frustração só passará quando um dia conseguir aventurar- me a um novo voo, a sair da minha zona de conforto e procurar um novo emprego que não me faça sentir tão subaproveitada e castrada. Há que pensar positivo.

A outra alternativa, se se quer mais e melhor – mesmo não sendo na nossa área – é ter uma considerável dose de coragem e empreendedorismo, e emigrar, partir e deixar para trás quem se ama, abraçar uma nova etapa que inicialmente será chamada de aventura. E para quem fica, como é o meu caso, é vê-los partir e ficar a aguardar cada migalhinha do tempo de que dispõem para estarmos juntos, a cada regresso nas férias. Mais nada.

E neste contexto de idas e partidas, só não voltamos ao espírito de emigração das décadas anteriores, em que só víamos os tios e os primos nas férias, porque as ferramentas e os meios de hoje são mais e melhores. Hoje em dia, os portugueses já não vivem na aflição de verem chegar os seus entes sãos a salvos depois de dois dias ou mais de estrada, porque o avião está a tornar-se um meio mais comum de transporte, mais rápido e, dizem, mais seguro. E melhor, a carta foi substituída pela Internet, Facebook, Instagram, Viber, Skype e sucedâneos… Mas são presentes envenenados pois, mesmo assim, não nos livram da amargura de vermos a nossa família ampliar-se do outro lado do mundo e da saudade dos amigos de sempre, que agora estão sempre do outro lado do ecrã e nunca ao nosso lado, a tomar um café, a conversar, a caminhar, ou simplesmente ao nosso lado.

Eu por cá vou resistindo, até porque não tenho alternativa, embora às vezes resistência e medo nem sempre caminhem muito longe um do outro, mas não garanto que um dia, reunidas as condições mais básicas e familiares, não deixe este país que eu tanto amo e que tanto me tem desiludido. Nada é garantido, pois não? A única certeza que tenho é que tal como repito ao meu filho “as Mães amam sempre os seus filhos”, também vou amar sempre o meu país, independentemente de tudo. Quem é português ama sempre o seu país, porque é também isto que nos define: a nossa portugalidade, intrínseca a cada gesto, o nosso regionalismo a cada palavra, a nossa alma poética de ser lusitano. Quem é português nunca deixará de o ser. Ponto.

(Só temos é que ter muito cuidado, porque estamos a ficar afónicos e um povo sem voz não me parece saudável.)

 

Ana Martins

 

Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 08:00  Comentar

De Cidadão Atento a 26 de Março de 2015 às 16:08
Parabéns Ana Martins, uma abordagem bastante sugestiva para este tema!
Destaco o espaço que encontrou para explorar o tema abordando uma realidade factual sobre o mercado de emprego num contexto adverso, mas muito realístico.
Mc

Maputo | Moçambique

Pesquisar
 
Destaque

 

Porque às vezes é bom falar.

Equipa

Alexandra Vaz

Ana Martins

Cidália Carvalho

Ermelinda Macedo

Fernando Couto

Jorge Saraiva

José Azevedo

Landa Cortez

Leticia Silva

Rui Duarte

Sandra Pinto

Sandra Sousa

Sara Almeida

Sara Silva

Sónia Abrantes

Tayhta Visinho

Teresa Teixeira

Março 2015
D
S
T
Q
Q
S
S

1
2
3
4
5
6
7

8
9
10
12
14

17
19
21

24
26
28

29
31


Arquivo
2017:

 J F M A M J J A S O N D


2016:

 J F M A M J J A S O N D


2015:

 J F M A M J J A S O N D


2014:

 J F M A M J J A S O N D


2013:

 J F M A M J J A S O N D


2012:

 J F M A M J J A S O N D


2011:

 J F M A M J J A S O N D


2010:

 J F M A M J J A S O N D


2009:

 J F M A M J J A S O N D


2008:

 J F M A M J J A S O N D


Comentários recentes
gostei muito do tema artigo inspirado com sabedori...
Não podia concordar mais. Muito grata pelo comentá...
Dinheiro compra uma cama, mas não o sono...Compra ...
Caro Eurico,O cenário descrito neste artigo enquad...
Grande artigo, que enquadra-se com a nossa realida...
Presenças
Outras ligações
Música

Dizer que sim à vida - Carlos do Carmo:

 

Dizer que sim à vida - Luanda Cozetti: