28.12.15

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Foto: Cry – George Hodan

 

Escrever um artigo sobre o medo é sempre muito complexo, atenta a singularidade do ser humano e a imensidade de fatores psicológicos que nele interferem.

O medo nasce connosco e pode ser aterrador nos primeiros meses de vida para a criança recém-nascida. Para ela nada é relativo, visto não ser capaz de entender que o leite desejado vai chegar dali a pouco e desespera-se, por isso, diante da perspetiva de lhe faltar esse alimento. O seu medo exprime-se pelo grito do seu instinto de sobrevivência.

Naturalmente que, com o passar do tempo, esses medos primitivos vão dando lugar, inevitavelmente a outros, condicionando o ser humano para o bem e para o mal.

Não raras vezes chega a ser utilizado como arma de pressão, limitando direitos e impondo condições inaceitáveis à vivência do ser humano, como acontece, nomeadamente, em regimes ditatoriais e com as ações terroristas.

O medo faz parte integrante do caráter de uma pessoa ou de um grupo social, pelo que, frequentemente, se torna necessário adotar algumas terapias para saber lidar com ele, aprender a não temê-lo, sobretudo quando degenera em obsessão. Não podemos deixar-nos vencer pelo medo, é preciso superá-lo de modo a que não nos prive da razão de viver.

 

Qualquer comunidade social não pode alhear-se da problemática do medo, hoje tão comum e assumindo várias formas nas sociedades atuais, que vivem sob o paradigma da competição, da escassez e do consumo. Sob esse paradigma somos compelidos a ter medo de tudo: medo de não ser amado, medo de não ser aceite, medo de ser rejeitado, medo de não corresponder às expetativas e, sobretudo, medo da solidão.

Todas as pessoas possuem um sentimento de medo, por ser inato ao ser humano, podendo constituir um problema se não houver atitudes que ajudem a ultrapassar as dificuldades para que possa ser vencido. O medo é um estado de progressiva insegurança e angústia, de impotência e inibição ante a impressão iminente do que poderá acontecer e que se pretende evitar.

Segundo alguns especialistas, o ser humano nasce com dois medos: o medo de cair e o medo do barulho, a que se pode acrescentar o medo de lhe faltar alimento, já que está intrinsecamente ligado à sua autopreservação. Todos os outros são medos adquiridos e como tais devemos afastá-los do nosso subconsciente.

 

Mas afinal o que é o medo? Na sua definição mais simples encontra-se nos dicionários: “sentimento de inquietação que se sente com a ideia de um perigo real ou aparente”. Pode assim traduzir-se tal sentimento na angústia que sente um ser humano perante o risco de uma possível ameaça.

Sabe-se que, pela experiência da vida, o medo está por trás dos fracassos, das doenças e das relações sociais desagradáveis. Muitas pessoas têm medo do passado, do futuro, da velhice, da solidão, da loucura e da morte. Chegam a ter medo do próprio medo, o que reflete, nessas situações, um estado de alma doentio que carece de adequado tratamento médico. Segundo José Luís Peixoto, na sua temática sobre o medo, “pior medo é o medo de nós próprios”. É este medo que assusta, apavora, paralisa, impede e angustia, que obriga as pessoas a recorrer aos médicos.

Podemos considerar o medo normal como bom, manifestamente o seu lado positivo, quando refreia, contém e limita os nossos ímpetos emocionais, numa palavra: o que se domina; o anormal será considerado mau e destrutivo, quando exacerbado e desproporcional, que escapa ao nosso controle. Permitir e alimentar constantemente os pensamentos de medo acarreta o medo anormal, obsessões e complexos. Daí a necessidade de os afastar, orientando o subconsciente para algo mais agradável da vida e salutar para a mente.

Não deixemos nunca que o medo tome conta de nós, aprendendo com persistência, coragem e paciência a não temê-lo, sob pena de nos paralisar e de nos roubar os sonhos que comandam a nossa vida.

Saibamos viver com o medo.

 

José Azevedo

 

Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 08:00  Comentar

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