16.5.14

 

Num momento em que a vida parece parar, aparece alguém a dizer-nos que “a vida continua”. Meu Deus, como é possível a vida continuar! Nesse momento tudo acontece sem que se perceba o que está a acontecer. Temos a certeza absoluta que está a acontecer a coisa mais horrível do mundo; é um sentimento de perda tão grande que não é possível mensurar nem, tão pouco, dar-lhe um significado! A presença das pessoas é tão importante!; digo: “presença”; uma presença carregada de mensagens, mas silenciosa. O silêncio faz tanta falta e tanto sentido! Não é necessário mais nada! A “anestesia”, a que algumas pessoas são sujeitas, nem sempre protege do sofrimento. O sofrimento faz parte… o percurso para reaprender a viver vai ser aquele que cada um encontra e precisa; aquele que permitirá recordar com saudade embora, em determinadas alturas, a saudade torne as cenas tão nítidas e tão verdadeiras, que se torna angustiante… mas faz parte! O caminho não é fácil de fazer. A reposição, a reestabilização e muitas palavras iniciadas por “re” vão acompanhar-nos diariamente. Onde vamos buscar a “força”? Vamos encontrá-la em nós e nos outros e também na pessoa que nos deixou. Não sei muito bem como, mas isto acontece… a força não se compra! Saudade – palavra portuguesa que não sabemos definir… tenho vindo a referir-me a ela… à saudade de pessoas mortas. E as pessoas vivas? Temos saudades de pessoas vivas? Existe o luto de pessoas vivas?  Talvez. Como se consegue fazer este luto? Existem palavras a acrescentar: desilusão e desencanto. Desilusão e desencanto, porque acreditávamos que aquela pessoa era tudo para nós; porque acreditávamos que aquela pessoa seria sempre o nosso “aconchego”; porque acreditávamos que aquela pessoa estava lá quando precisávamos e; porque acreditávamos que aquela pessoa se assemelhava muito à nossa forma de estar na vida. A dado momento, o mundo cai em cima de nós… foge-nos o chão… não é possível… como pode ser? Mas é! Inicialmente aparece a desilusão e o desencanto e, sem pensarmos muito, cai sobre nós um sentimento de perda incontrolável. Ficámos confusos… perturbados… faz-se luto de pessoas vivas? Agora digo “talvez”, com maior certeza! É difícil? Também penso que talvez seja… causa sofrimento! É um processo longo? Parece ser um processo difícil. O processo é igual ao de pessoas mortas? Não arrisco responder! Situações de perda são sempre perturbadoras e, às vezes, a saudade é MESMO MUITO ANGUSTIANTE! Pessoas vivas; pessoas mortas… as pessoas mortas estão longe; as pessoas vivas passam tantas vezes ao nosso lado!!! Como se faz quando as pessoas, pelas quais sentimos perda, passam tantas vezes ao nosso lado, vivas? Também não arrisco responder! Reaprender; rever; revisitar e; reintegrar são palavras constantes no processo de gestão da perda. Os recursos internos e externos de cada um de nós também têm de ser reestruturados (mais uma palavra com “re”…) e revisitados. A vida, depois de uma perda, é uma VIDA COM SAUDADE! O caminho faz-se; “a vida continua” mas, p.f., não me digam que “a vida continua” quando eu não consigo perceber o que está a acontecer!

 

Ermelinda Macedo

 

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