18.7.14

 

Estou sempre a ouvir a mesma pergunta: “- Porque que és como és?”.

- O que tenho de fazer para me explicar?!

E eu pergunto: “- Terei mesmo de me explicar?”.

Deixei de confiar, já há muito tempo, nas pessoas, prefiro andar à volta no meu bairro, fazer o que me dá na gana e não me preocupar com o resultado.

No tempo em que os animais falavam, eu confiei em alguém, alguém que se apresentou como meu amigo:

- Henrique. Sou teu amigo e nada quero de ti. - respondeu ele à minha pergunta: “Quem és tu? O que queres de mim?”.

Durante um tempo acreditei mesmo que a sua amizade, a forma como me tratava seria o que eu precisava para confiar em mim e mudar de rumo na vida, ser talvez o que a minha avó sempre quis que eu fosse, um rapaz ajuizado com um lugar na sociedade.

Mas lá chegou o dia em que o conheci e a minha ilusão foi destruída, não podia tratar-se de um amigo. Ouvi as minhas confidências serem usadas contra mim em forma de crítica, a forma como falava comigo e sobre mim faziam-me sentir reles, compreendi o seu egoísmo e como apenas servi os seus interesses. “ - Mas eu fui teu amigo.”. - disse-me certo dia quando confrontado com a minha magoa. Fiquei calado, mas quis dizer que preferia que nunca o tivesses sido, pois descobrir que tudo era mentira, uma farsa foi bem pior e acabou por destruir a minha última esperança na bondade da raça humana.

Por isso prefiro ser o que sou. Aqui no bairro têm medo de mim, dizem que sou violento, que roubo, que tenho um bando. Assim não espero nada, não tenho nada e provavelmente não sou nada.

 

Susana Cabral

 

Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 09:00  Comentar

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