11.10.15

BeachTime-IrenaJackson.jpg

Foto: Beach Time – Irena Jackson

 

Entregou-me a carta sem uma palavra. Estava profundamente triste e eu sabia, não precisava que dissesse fosse o que fosse. Foram anos e anos a assistir à sua imensa dedicação à irmã que sofria de uma depressão profunda.

Seguia até desaparecer no meio da azáfama citadina do fim de mais um dia de trabalho. Impossível não questionar o sentido da existência…

Resisti a esse quebranto maldito que ceifa os mais frágeis. Olhei para o céu, imperturbável no seu cinzento metálico, respirei fundo, que é sempre uma maneira eficaz de combatermos o esmorecimento, e segui sem direção definida com a carta agarrada na mão.

Galguei as ruas das lojas indiferente ao seu encerramento, não queria comprar nada, talvez até quisesse… quem sabe a ressurreição da minha amiga que se tinha suicidado e deixara uma carta para mim…

Lembrei-me do meu último encontro com ela. Fora há cerca de um mês. Estava bem disposta, forte, segura de si, falara muito da sua última crise. Na verdade estava a recuperar de uma tentativa de suicídio que acontecera três meses antes.

“Realmente, pensar que a tendência suicidária desaparece quando a depressão diminui é um terrível engano.” Dei por mim a repetir esta frase ininterruptamente e o estado de choque começou a ceder o seu espaço a uma dor fortíssima no peito.

Subi a rua onde estava a passo apressado, ofegante, a repetir a frase, a querer fugir da minha incapacidade de perceber o pedido de socorro que a minha amiga me tinha lançado através da sua boa disposição, força e segurança.

Agora sim, escutava com clareza certo refrão escondido, a tropeçar na sua narrativa tão animada: “ Tenho medo de ficar sozinha em casa.”

No meio de tantas palavras, lançadas umas atrás das outras, estas eram mais umas, também lançadas umas atrás das outras, eufóricas!

“Tenho medo de ficar sozinha em casa. Tenho medo de ficar sozinha em casa. Tenho medo de ficar sozinha em casa.”

A minha amiga já sabia que a crise suicidária é curta e, se não há alguém por perto para acudir, pode resultar no suicídio. Num minuto confuso, impulsivo, de choque com a própria tristeza, com a própria dor irremediável, desiste-se. É num gesto rápido que se termina a vida. A minha amiga sabia e estava-me a dizer que não me fiasse na sua boa disposição porque a sua vulnerabilidade suicidária era uma companhia inesperável.

Parei repentinamente e abri a carta. Era um recado rabiscado num papel dobrado com o meu nome.

“Amiga que frio. Estou agarrada ao cobertor e o telefone está longe e só tenho papel e lápis e telefono-te assim sozinha em casa do frio. O cobertor não aquece, amanhã vem verão, diz a telenovela, e ainda bem para ir à praia. Agora, dormir, dormir e não acordar mais. Tenho medo de ir sozinha à praia.”

O quebranto maldito enrolava-me: Impossível não questionar o sentido da existência…

Olhei para o céu, imperturbável no seu cinzento metálico, respirei fundo, que é sempre uma maneira eficaz de combatermos o esmorecimento, e segui com direção definida, levando a carta agarrada na mão. Era preciso contar a história da minha amiga a todas as amigas e amigos que têm medo de ficar sozinhos em casa para lhes dizer que, se têm medo de ficar sozinhos em casa, devem vigiar muito bem esse medo para que, quando ele começar a aparecer, possam telefonar e pedir ajuda.

Afinal, quem resiste a um passeio na praia?

 

Sónia Coimbra

Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 08:00  Comentar

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