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Era uma vez uma menina branca, que vivia num bairro multicultural, onde co-habitavam pessoas vindas dos mais variados locais e de diferentes etnias: cabo-verdianos, angolanos, ciganos, portugueses, guineenses ou gui-guis, …

Esta menina era portuguesa, filha de pais angolanos mas mandados embora de Angola por lá dizerem que não eram angolanos. Pessoas da terra de ninguém, portanto, como milhares de outros que na década de 70 vieram para Portugal como retornados, mesmo nunca tendo pisado o solo português.

Nesse bairro todas as crianças aprenderam a viver nesta multiculturalidade, mas era mais fácil quando ainda não percebiam algumas conversas de adolescentes e adultos, quando ainda estavam na inocência da infância.

Com a idade a aumentar, começaram a ouvir falar da Geração Rasca, à qual pelos vistos pertenciam. Começaram a estar envolvidos em Projetos Escola com temas como Todos diferentes, todos iguais. E ouviram, pela primeira vez, o termo racismo.

A menina, agora rapariga, começou a perceber que o seu bairro era diferente de todos os outros bairros e percebeu que, quando saiam do bairro, os seus amigos com pele mais escura não eram olhados da mesma forma que olhavam para ela.

Chegou a idade dos primeiros namoros e o seu primeiro namorado foi um rapaz negro ou preto ou… como se queira chamar, pois muitas são as teorias sobre o termo que só serve para caraterizar fisicamente uma pessoa.

Quando contou aos pais brancos, mas vindos de África e angolanos de nacionalidade, com um dos ascendentes preto também, a reação não foi a melhor… Agora, adulta, longe de toda aquela confusão de sentimentos, a rapariga percebe que os seus pais estariam magoados com a cor do povo que os expulsou da sua terra, mas na altura, só pensava “racistas! Os meus pais são racistas!”, como se isso fosse a pior coisa que lhe tinha acontecido.

Agora a questão é: quem é racista afinal?

O tempo foi passando e, naturalmente, a vida afastou-a daquele bairro. Começou a dedicar-se à escola e a dar importância ao futuro, afastando-a dos amigos da infância e da adolescência. Por algum motivo os membros daquele grupo multicultural de amigos, foram seguindo caminhos distintos, alguns menos positivos: mães aos 13 anos, presos aos 15 anos, …

Seria um rótulo pré-definido à nascença pela cor da pele?

A menina branca e os seus amigos que ainda hoje respeita e adora, cresceram no mesmo ambiente de rua, no bairro.

Porque motivo ela seguiu um caminho com mais oportunidades que eles?

Ainda hoje ela não percebe isso, mas tem a certeza que viveu a amizade em pleno e que aquelas crianças, e depois adolescentes, o viveram também, e eram todas iguais.

 

Sónia Abrantes

 

Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 10:00  Comentar

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