4.1.16

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Não nos víamos há alguns anos. Quando terminámos o curso, ele um distinto aluno, resolveu deixar o país para se especializar no estrangeiro. Estivemos sempre em contacto através das redes sociais mas este encontro era importante para os dois, queríamos lembrar o passado, rir das partidas e brincadeiras de estudante, recordar alguns colegas e falar dos nossos inocentes casos amorosos. Queríamos matar saudades. Quando nos encontrámos no café onde outrora costumávamos estudar, reconheci naquele homem maduro e com ar de bem-sucedido, o meu jovem amigo de outros tempos. O seu sorriso franco foi um convite ao abraço que só os bons amigos sabem tornar tão especial. O diálogo surgiu de forma pouco organizada, queríamos saber tudo o que aconteceu nestes anos mas as perguntas não saíam em sequência, atropelavam-se e estávamos demasiado felizes para conseguir organizar as ideias. A propósito da sua aparência, de quem se tem dado bem na vida, e certa de que seria compreendida, disse a certa altura:

- O poder sempre me atraiu.

- Não precisas de te defender dessa afirmação mas gostava que ma explicasses. O que tanto te atrai no poder? Perguntou-me ele.

Confesso que não estava a contar dar explicações sobre os meus gostos e principalmente sobre frases inconsequentes proferidas no meio de uma conversa de circunstância. E assim, desprevenida, nada me ocorria que justificasse a minha tendência. Mas ele parecia não querer deixar esta conversa pela rama e acudiu tentando clarificar o conceito:

- Mas a que poder te referes? O poder adquirido que te chega através de cargos institucionais e que te torna respeitável perante os outros, o poder que o dinheiro dá, ou outro qualquer que te eleva acima dos teus semelhantes?

- Não, não é bem esse o poder que almejo e, colocada assim a questão, quase que me sinto ofendida. Não quero ter poder por aquilo que faço ou por o que posso adquirir. Tartamudeei, arrependida de ter levado a conversa para esse campo. Definitivamente, não é mesmo nada esse o poder que me deslumbra, mas também não consigo explicar o que há no poder e que tanto me atrai.

 

O silêncio caiu e como uma rede arrastou os sentimentos presentes no início do encontro.

Permanecemos sentados sem que qualquer um de nós fizesse um gesto para abandonar o lugar. Senti-me constrangida, não sabia o que fazia ali, nem mesmo se queria ali estar, mas a verdade é que não tomava a iniciativa de me despedir. Procurei algo que me chamasse a atenção e desviasse o olhar para fora do pequeno círculo povoado pelos dois, mas o meu interesse estava ali e o meu olhar recuou novamente para a mesa do café. Observei-o pelo canto do olho. Vi-o, cabeça baixa mexendo o café com ar pensativo. Reconheço-lhe a atitude de alheamento e a capacidade de se isolar em público para melhor pensar. Não sei o que dirá quando saltar de novo para o nosso encontro mas, se bem me lembro e ele não mudou, terá algo a dizer e eu vou gostar de ouvir.

Sorveu um gole de café, saboreou-o e com a maior das calmas e simplicidade, disse:

- Sabes, eu acho que o poder não nos é dado nem o podemos adquirir com cargos importantes ou dinheiro. De nada serve estarmos investidos de poder se não o soubermos exercer, e poucos sabem exercê-lo na medida e na força certa, facilmente resvalam para situações de medo e de humilhação. O poder, penso que está em nós, só precisamos de ser suficientemente humildes para nos despojarmos de falsas ideias a nosso respeito e a respeito da realidade, isto é, se vivemos a pensar que estamos acima dos outros e que a realidade é como nós a entendemos e queremos que ela seja, então nunca seremos poderosos e a única coisa que temos é adversários. Mas se, pelo contrário, conseguirmos olhar para fora de nós com humildade, então seremos poderosos porque temos o essencial, temos tudo.

Voltava a olhá-lo de frente. Lembrei-me de quanto o admirávamos quer pelo seu saber e conhecimento, quer pela disponibilidade como respondia aos nossos pedidos de tirar dúvidas, tarefa a que se entregava sem a superioridade que o saber vulgarmente confere, antes, aproveitando a oportunidade para ele próprio questionar e aprofundar as matérias.

E descobri fascinada que o que realmente me atrai no poder é a humildade com que é exercido.

 

Cidália Carvalho

 

Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 08:00  Comentar

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